de início, somin perguntou-se se joo havia se enfiado ali propositalmente, para tenta encurralá-la e forçá-la a ter uma conversa. porém, logo nos primeiros segundos que dividiram o mesmo ambiente, notou que a outra estava tão pouco inclinada a uma interação quanto ela mesma. bem, não podia dizer que estava surpresa com aquilo, muito menos que a culpava. duvidava que existia uma maneira efetivamente prática de voltar a puxar assunto com alguém que dividiu uma cena de uma quase morte como parte do último encontro que tiveram. a jang normalmente tinha uma memória de dar inveja, mesmo quando estava severamente afetada por todas as substâncias que permitia afetarem seu corpo, mas daquela noite em especial, não se lembrava quase nada. era como se seu subconsciente tivesse empurrado as memórias daquilo para o fundo da mente de somin, que não fazia esforço nenhum para se resgatar as tais. a única coisa que lembrava, que era difícil de esquecer, que lhe atormentou durante noites a fio depois de toda a confusão, eram os olhos de chatmanee. lembrava-se bem de encará-los de frente depois que as duas saíram da cama para descobrir o homem desacordado na sala. lembrava-se deles alarmados, encarando somin enquanto esperava por uma resposta do que fariam. lembrava-se deles atordoados, enquanto checavam se aquele idiota ainda tinha pulso… um arrepio frio percorreu sua espinha por estar novamente encarando os olhos dela. droga. droga. nunca devia ter saído de casa naquela noite. podia ainda ouvir a risada das outras garotas do lado de fora do quarto, possivelmente achando engraçado e até mesmo genial o que haviam acabado de fazer. até porque, para elas, estavam apenas fazendo duas amigas que não conversavam mais reatarem a amizade, completamente alheias do que realmente era compartilhado pelas duas pessoas naquele quarto.
encarava as costas femininas enquanto ela esbravejava contra a porta, mesmo que não estivesse realmente a enxergando. estava longe, e só foi puxada novamente para si quando joo dirigiu-se diretamente a si. somin piscou algumas vezes, o cenho se franzindo por alguns segundos em confusão, mas logo fizera a ligação do que ela falava. “ah, eu… c-claro.” mal podia dizer que pronunciou aquelas palavras, que saíram em um gaguejo balbuciado e rouco. tão logo quanto o fez, amassou de forma nervosa a nota que tinha em mãos, apertando com uma força tão exagerada um dedo contra o outro que chegou a sentir o papel se rasgando embaixo de suas unhas. virou-se para a escrivaninha e usou a mão livre para escorregar a palma pelo móvel algumas vezes, fazendo com que a carreira aglomerada da droga se desfizesse em uma nuvem de pó, que sujou um pouco o tapete ao ser descartada daquela forma. livrou a mão do aperto dos próprios dedos, liberando o dinheiro que também despencou ao chão e batendo uma palma contra a outra, para limpá-las. também usou daqueles minutos para respirar fundo e tentar se recompor, o mínimo que conseguia, pelo menos. vamos, somin. ela falava para si mesma. você pode fazer isso. é a única coisa que você sabe fazer. a voz continuava, e quando virou-se para joo, tentou manter a voz tão firme quanto conseguia. “eu sei que elas são nossas amigas, mas… eu odeio elas às vezes.” murmurou, com um sorriso de canto mínimo enquanto se aproximava alguns passos, mesmo que tivesse parado a uma distância segura. céus, o que será que joo iria pensar dela? será que iria odiá-la ainda mais por estar tentando agir daquela forma, como se não sentisse sobre os ombros o peso de compartilharem o mesmo espaço? ela normalmente não se importava com esse tipo de sentimento direcionado a si, mas era diferente ali. com aquele ódio somin não saberia lidar. “faz quanto tempo que você voltou?” resolveu perguntar, realmente curiosa. era estranho não saber mais nada sobre ela, considerando que antes se falavam o tempo todo, sobre tudo. mas, bem, talvez fosse só mais uma consequência de dividir um segredo como o que elas dividiam.
“quando o fogo encontra a gasolina” essa foram essas as exatas palavras da terapeuta que chatmanee era obrigada a visitar durante os meses que passara na clínica de reabilitação ao ouvir acerca da relação que ela possuía com a jang; explosivo, intenso, perigoso.... eram muitos os adjetivos que poderiam ser atribuídos àquele relacionamento e a modelo se considerava estúpida por nunca ter percebido o quão prejudicial esse havia sido para si. as noites regadas à álcool e drogas lhe garantiram uma longa série de memórias confusas e incompletas, mas que, independente do quão desconexas fossem, permaneciam gravadas na mente da modelo que, por mais que tentasse, não conseguia afastar a mais velha – e, ainda mais, o último encontro das duas – de deus pensamentos. principalmente estando ali, presa com ela. não aguentava mais ser atormentada pelas lembranças daquela noite, não suportava mais se lembrar do olhar de desespero da então amiga, queria, mais do que qualquer outra coisa, livrar-se da imagem do corpo masculino imóvel que insistia em aparecer constantemente em sua cabeça, no entanto, independente do quanto tentasse, não conseguia fazê-lo. conhecia muitos métodos que poderiam a ajudar com aquilo, porém, apelar a eles envolveria correr o risco de passar por uma situação como aquela novamente. respirou fundo e colou ainda mais suas costas na porta, como se quisesse manter a maior distância possível da outra, “obrigada” murmurou, em um tom baixo, ao a ver se livrar do restante da droga. nunca soube lidar com tensões, costumava se aproveitar de ilícitos para conseguir suportar situações assim e, por isso, eram em momentos como aquele que a jirayungruk considerava quase impossível manter a sobriedade e precisava reunir toda sua força para se manter firme. um suspiro pesado escapou por seus lábios ao a ouvir “elas são horríveis” bufou, já arrependida por ter aceito o convite da anfitriã da noite, “não devia ter vindo, era óbvio que isso não era uma boa ideia, que elas fariam uma merda do tipo” por mais que não quisesse falar nada, dificilmente conseguia ficar calada quando estava nervosa – assim como também não conseguia ficar completamente parada, o que explicava o fato de que mexia, incansavelmente, uma de suas pernas. prendeu seu olhar sobre o rosto alheio por alguns instantes, mesmo sem conseguir o visualizar propriamente, e o desviou assim que ouviu o questionamento feito por somin “pouco mais de dois meses” deu de ombros, não fizera muita coisa desde que retornou para a cidade, de modo que sentia que não fazia tanto tempo que estava de volta à civilização “é estranho...” um riso sem humor escapou por seus lábios, não suportava o silêncio, mas, ao mesmo tempo, não fazia ideia de como o preencher. agradeceu mentalmente pelas luzes do cômodo não estarem ligadas, sentia-se menos desconfortável dessa forma, sentia-se um tanto aliviada por não conseguir ser vista direito “você...” pigarreou, coçando a nuca ao falar, não tinha coragem de tocar no assunto que era o elefante na sala “o que você tem feito? ainda ‘tá com o juwon?”