O Primeiro Setênio - Formando e estruturando o corpo físico. O mundo é bom.
"Duas palavras mágicas caracterizam a maneira como a criança se relaciona com o mundo: imitação e exemplo. Mesmo na adolescência, os bons exemplos recebidos dos adultos são o que forma a estrutura moral e de valores do ser humano. Quando a criança pode imitar tais exemplos sadios numa atmosfera de amor, ela se encontra em seu elemento adequado..."
A criança ao nascer, como um pequenino muito corajoso, passa pelo grande momento da chegada ao mundo e, daí prá frente, tudo o que este mundo der a ela, será absorvido, apreendido com todo o seu corpo, que neste primeiro setênio está sendo estruturado. Nesta época, está constituindo o seu corpo físico que será a base corpórea de sua saúde. Será a base que o sustentará por toda a sua existência.
É de grande importância esse momento. Afinal tudo o que ela recebe, sente e vê ficará impresso em seu corpo, e por ele será levado ao futuro. Mesmo que essas experiências não sejam relembradas, elas continuam atuando inconscientemente em nossos atos, escolhas e reações diante dos momentos marcantes. Afinal, foi como ela aprendeu a lidar e reagir com o mundo que a cerca.
Vamos observar os três primeiros anos da criança... Ao nascer, com seu forte e ao mesmo tempo frágil corpinho, o bebê é totalmente dependente de outra pessoa - para comer, se trocar, se aquecer, manter-se limpo e confortável, se sentir amado e bem vindo. Que ato corajoso temos neste momento de fragilidade e dependência, quando ele se coloca inteiramente à mercê do outro, em total confiança.
Voltando ao Texto #1 - Genealogia -, eu havia proposto que se considerasse a hipótese de que, ao nascermos, escolhemos a nossa família, nosso pai e nossa mãe. Esta fase da vida tem um caminho muito próprio e fundamental para qualquer um de nós. Somos uma individualidade e neste momento, vamos aos poucos nos libertando da hereditariedade através de processos orgânicos, das doenças infantis, das febres e ao mesmo tempo absorvendo através da imitação, toda a bagagem que aquela família pode nos dar.
Então, tudo o que está no ambiente da criança que nasce o envolve, o aquece - do alimento dado, ao modo como a mãe ou o pai o manipulam; as escolhas que a família faz, os medicamentos que serão dados, se é homeopatia, alopatia ou outras terapias, se vai comer carne, se o alimento será orgânico e integral, se os brinquedos serão naturais, se vai manipular eletrônicos, os limites que são dados, o modo de falar, as canções que são ouvidas, os sons da casa, cheiros, cores, tudo o que envolve esta criança será impresso em seu corpo, na sua memória. Isso a formará.
Quando temos um filho, firmamos um compromisso com ele. E, já nos três primeiros anos, eles nos devolvem, como um grande reflexo, aquilo que damos a eles. Somos a referência maior que têm e eles nos imitam e nos devolvem como um espelho. Me lembro muito bem a primeira vez que isto aconteceu comigo. Minha filha, com um aninho, com gestos e poucas palavras que seu vocabulário em construção havia apreendido, fez comigo o que eu fazia com ela. E não gostei nada do que eu vi. Foi como se eu me visse num espelho. Ali, naquele momento, eu percebi que ser mãe é maior ainda do que amar, nutrir, acolher e educar uma criança: é também se auto educar. Afinal, esta troca me parece mais do que justa. É como uma segunda chance. Minha mãe me deu o que pode, e sendo bom ou ruim, dolorido ou cheio de alegrias, bons e maus exemplos, tudo o que pude absorver dos meus pais, agora posso finalmente rever e, através dos meus filhos, transformar. Tarefa que não acaba nunca e se perpetua em ciclos, quando pensamos em avós, netos ...
Nestes três primeiros anos de vida da criança, ela conquista o seu andar, o falar e o pensar. Acompanhar esse processo tão intenso é algo maravilhoso.Ela vive tudo com imensa alegria. Totalmente imersa em suas impressões, necessidades, conquistas, vive neste estado de confiança e alegria, como uma manhã ensolarada, repleta de canto dos pássaros, raios de sol, flores coloridas; um jardim. Cheiroso, luminoso, acolhedor. Assim vive a criança de primeiro setênio. Em um mundo bom.
No andar, a criança começa firmando sua cabeça, conquista o espaço ao se sentar e depois engatinhar. Erguendo-se, ela fica de pé, superando a gravidade da Terra e já se deparando com o quanto é importante querer muito algo para conquistá-lo. Afinal manter-se de pé, cair, levantar de novo, cair, tentar novamente até ganhar o espaço, exige do pequeno um esforço imenso. É muito importante que neste momento, este esforço seja vivido sem ajudas de andadores e outros mecanismos. Só mesmo a observação e prontidão de um adulto que o permita realizar esta grande conquista, já fortalecendo a sua vontade, o seu querer.
Ao falar, começamos a dar nomes a todos os que nos rodeiam, a todos os seres, conquistando o espaço social, se relacionando com os outros que estão ao meu redor. A palavra e a fala têm muita força neste período. Ela nos forma, e vai ser a estrutura na construção do nosso pensar. Devemos falar com as crianças observando as formas e as concordâncias corretas, construir frases claras e nada de falas infantilizadas e sempre no diminutivo como é muito comum. Vejo adultos falando errado com as crianças e não compreendo muito bem o por que.
Ao pensar, a criança conquista o todo, aquilo que ela quiser. Através do seu pensar, das associações de idéias e do desenvolvimento da memória, ela poderá ir aonde seu desejo a guiar. Ao passado, ao futuro, ao céu e à terra, ao mar, aos países mais longínquos. É por volta dos três anos, que esta manifestação se apresenta de forma intensa. Aquela criancinha que antes pedia tudo na terceira pessoa ("Clara quer", "Clara não vai", "Clara está com fome") agora começa a dizer: eu quero, eu não vou, eu tenho fome. É um processo de deslocamento, como se ela se colocasse agora diante daquele mundo no qual antes estava totalmente imersa. Agora ela é alguém diante de tudo: da mesa, da cadeira, dos brinquedos, da sua mãe, do seu pai, da natureza. Sim. É um ser humano, dotado da capacidade de andar, falar, pensar. Um ser criador. E com um Eu que começa a se manifestar dando um colorido todo especial a esta individualidade em formação.
Ao se aproximar dos seus sete anos, quando seu corpo está se estruturando, seu cérebro já em boa formação, começam a serem trocados os dentes de leite, herdados. Os novos serão seus. E o corpo desta criança está a nos dizer que, agora, as forças que a formaram durante estes primeiros seis, sete anos estão livres para levá-lo à escola, ser alfabetizada, desenvolver seu aprendizado, sua memória.
E uma nova etapa se inicia. Do ambiente do lar, do aconchego do ninho para o jardim de infância pequeno e familiar, e daí para a escola e para os muitos desafios do aprender e do ambiente social. Para alguns é uma alegria, para outros um desafio, outros ainda se sentem muito inseguros. Por aí se vê a importância da escolha de uma escola, de um professor.
Canção – Cecília Meireles
No mistério do Sem Fim, existia um planeta
E no planeta, um jardim e no jardim, um canteiro,
e no canteiro, uma violeta e sobre ela, o dia inteiro.
Entre o planeta e o Sem Fim, a asa de uma borboleta.