Será que alguém já me amou de verdade nessa porra de vida?
De verdade, mesmo.
Não tô falando daquele amor meia-boca, aquele que só vem quando é conveniente, quando tá tudo calmo, ou quando sou só um corpo quente pra espantar o frio da solidão alheia.
Tô falando de amor real.
De me olhar nos olhos e não desviar.
De me ver por inteira, preta, lésbica, cheia de fases e falhas, cheia de ginga, com meu coração batucando no peito querendo só uma coisa: amar de forma genuína alguém que também esteja pronto pra ser amado.
Às vezes eu paro, olhando o céu aqui da laje, sentindo o vento do morro bater na cara, e fico me perguntando...
Será que já fui lembrada com carinho?
Será que já ouviram uma música daquelas que tocam fundo e pensaram em mim?
“Essa aqui tem a vibe dela.”
Será que alguém já abriu um livro e pensou “isso aqui ela ia devorar, rindo alto e fazendo mil comentários”?
Será que alguém já parou no meio da correria da vida e pensou “caraca, tô com saudade dela”?
Será que já fui poesia na cabeça de alguém?
Será que já inspirei amor daqueles calmos, profundos, bonitos?
Ou será que eu só fui um capítulo rápido numa história que nunca foi minha?
Às vezes eu acho que sou demais pra umas pessoas.
E de menos pra outras.
Mas eu sou o que sou. Mulher preta, nascida no calor do Rio, com a alma forjada em fogo, sorriso de quem já chorou muito, e um coração que, apesar de tudo, ainda acredita no amor.
Mas não qualquer amor.
Eu quero aquele amor que conhece o peso da minha bagagem e mesmo assim escolhe caminhar do meu lado.
Aquele amor que entende que amar uma mulher preta é também reparar, cuidar, resistir junto.
Que não se assusta com minha intensidade, nem com meu silêncio.
Que vê minha dor e não foge.
Que reconhece que, por trás da força que o mundo exige de mim, existe uma mulher que só quer colo, parceria, verdade.
Porque eu não nasci pra viver pela metade.
Não sou rascunho, não sou passatempo.
Sou dessas que ama com fome, com entrega, com samba no olhar e tempestade no peito.
Só queria, sabe?
Que alguém olhasse pra mim e dissesse: é você. Com tudo o que você é. Eu fico.
Será que um dia eu vou ouvir isso?
Será que um dia alguém vai me amar, assim... sem mas, sem talvez, sem medo?
Porque eu tô aqui.
Com o peito aberto.
Com amor pra dar.
Esperando alguém que também queira ser amor.













