Sebastian notou a maneira como Carmem o olhava, e já tinha idade e experiência suficientes para saber exatamente o que se passava por trás daquelas íris castanhas que brilhavam feito em chamas. Uma predadora farejando carne, medindo as linhas do corpo e do rosto daquele que poderia ser sua nova refeição. Carmem usava perfume suave, mas exalava uma aura carnal de feromônios que a tornava ao mesmo tempo atraente e perigosa, uma planta carnívora, uma tigresa que não deve ser subestimada nem colocada no mesmo patamar que as mocinhas decentes e virgens -hah, boa piada- da época. E eles estavam próximos o suficiente para que a sensação da respiração dela se tornasse nítida contra o rosto pálido e um tanto cansado do Detetive.
Resistir a ela exige muito mais que força de vontade: exige um coração partido em tantos pedaços que não podem mais ser unidos. Frustração emocional que impede praticamente qualquer aproximação. Casamento que acabou abruptamente, uma criança proibida de ver o pai e que nunca responde suas cartas. Sebastian tem sim uma marca de aliança no dedo, uma foto da pequena Lily aos seis anos escondida na gaveta, a última que guardou antes de ser tirada de seu pai sem aviso.
Dividir o corpo e a mente com alguém, fazer o que tinha que fazer e de repente ter tudo tirado de si da noite para o dia… A polícia era a nova esposa de Sebastian. Uma péssima esposa, mas este homem aqui fazia honra aos seus votos de fidelidade. E era um marido muito feroz. Afastou-se dela no instante em que a viu corar, enfiou uma das mãos fundo no bolso da calça, gravata dançando frouxa no pescoço enquanto ele dava a volta na mesa, a outra mão correu pela testa aos cabelos, dedos penetrando entre as grossas mechas pretas e lustrosas. Castellanos parecia impaciente, talvez mais com seu próprio titubeante controle sobre os instintos do que com a demora na resposta de Ortega.
“Rosa Flor foi jogada da janela por volta das duas horas da manhã e testemunhas afirmam que você viu. Tudo. Sim ou não?”
Se Krimson fosse a savana africana, Carmen seria a leoa, procurando por um touro no meio da manada, que seria seu jantar e o de sua prole, mesmo que a mulher não tivesse descendentes. Sua prole seria a sede por mais, por mais dele quando dividissem a cama. Sim, era pretensiosa em ter tanta certeza que aquele homem acabaria em sua cama, afinal, todos eram iguais, queriam se meter, beijá-la, gozá-la, fazer gemer, mesmo que fosse falso. Já sonhava com o dia que finalmente poderia ver o que todas aquelas roupas guardavam. Não ligava para a expressão cansada, para as olheiras, só lhe incomodaria o cheiro de nicotina e bebida, mas nada que não pudesse ser ignorado em meio aos gemidos e suor.
Carmen se incomodou com a leve grosseria do moreno. Odiava ser mandada. Se mantivera quieta por aqueles minutos porque procurava as palavras para descrever o que vira. Cenas que não saíram de sua cabeça e mesmo que ela mantivesse a expressão de mulher de classe e inabalável, ainda era uma testemunha, que vira cenas horríveis. Coisas que já sofrera um dia, mas que não tivera um fim tão triste.
"Bem,eu vi tudo, mas não ouvi nada. Nem conhecia muito o casal. Mas sei que Marcelo não era um anjinho, Rosa tentava tapar os olhos roxos com maquiagem depois de uma discussão acalorada. Eu particularmente nunca havia visto ele lhe levantar a mão antes da noite do crime." Carmen respirou fundo, largando a foto sobre a mesa. "Era tarde, umas onze da noite. Vi o carro dele ser estacionado na rua, e ele subir para casa. Não demorou muito e consegui ver a luz do quarto acendendo e pelo que entendi ele queria que ela... Exercesse seu papel conjugal." Vira o homem meter a mão dentro da camisola da esposa, que o empurrou. "Rosa não queria, pelo visto, porque repeliu o marido quando ele... Ele a tocou de forma mais íntima. Marcelo ficou furioso e deu um tapa em Rosa e ela caiu no chão." Respirou fundo, lembrava que quando estava em casa congelara. Era como assistir seu passado na visão de uma terceira pessoa. "Eu congelei. Eu poderia ter ligado para a polícia." Sentia sua voz embargar. "Ele a violentou. Eu vi ele a violentar e não fiz nada." Falava baixinho. "Não durou muito, mas ela se debatia, tentava o arranhar... Ele era muito maior e mais forte. E quando ele terminou, a deixou lá, chorando." A latina limpou uma lágrima do olho. "Voltou alguns minutos depois. Rosa se pôs de pé e tentou chutar o marido na virilha e não conseguiu. E ele a estrangulou. Eu vi Marcelo estrangular Rosa. Como quem mata uma... uma galinha." Soluçava. Não era um choro fingido. Era real. E pela primeira vez contava aquela atrocidade para alguém e não derramara uma lágrima até aquele momento.
Carmen soluçou, limpando as lágrimas nas costas das mãos, não se importando se estava com a maquiagem borrada. “Ela não morreu. Só ficou sem ar, Marcelo se frustrou e a pegou nos braços, se debatendo, sem conseguir se soltar. E a jogou. De novo, como se Rosa não fosse nada.”
A latina fungou. “Acho que o relatório do legista ainda não chegou... Mas ela estava grávida.”