Ele nunca havia falado consigo daquela forma, nem mesmo no dia em que se conheceram, o tom firme lhe fez estremecer em suas vestes e a fizera perceber que não havia escapatória naquele momento, teria de enfrentar as perguntas do mais velho e arranjar alguma forma de não dar com a língua nos dentes. Winter sempre acreditou que sua amizade com o corvino era tão forte que, caso a perdesse, sua vida não seria a mesma, porém, continuaria a viver como qualquer outra pessoa, pois perder uma relação poderia ser doloroso mas nada era eterno e já havia passado por situações que a fizeram sentir como se seu coração pudesse parar de bater pela dor agonizante, o que seria um fim de amizade perto de tantas outras perdas que aconteceu em seu, razoavelmente pouco, tempo de vida? Mas a verdade apareceu para ela de um jeito nada formidável. Quanto mais se afastava do Dawson e os dias se passavam, Win se deu por si que o que construíra com Kwan e por ele fora devastadoramente mais forte do que imaginava ou sequer esperava, e em certas noites desejou que fosse possível tomar uma poção para tirá-lo de dentro de si. Para sua infelicidade, acompanhando tais pensamentos, a vontade de correr até o mais velho para contar-lhe a verdade e dizer o quanto sentia sua falta passou a atormentar a sonserina, mas mesmo que os impulsos fossem constantes, uma parte de Winter sempre tendia em alertar a bruxa de que a ex-namorada do Dawson faria algo contra ele.
Sem sombra de dúvidas ela iria preferir mil vezes conviver com o vazio em seu peito por não ter a presença do bruxo, do que ignorar as ameaças da Fawcett e ficar com Kwan. No final das contas, acabou tomando para si, como uma forma de proteger seu emocional já muito abalado, de que não fora destinada a tê-lo para si, futuramente, talvez apenas lhe restaria as lembranças da amizade que tivera com ele. Ou nem as memórias restariam daquela relação que a mudou completamente, pois Winter não sabia até que ponto conseguiria ser forte o suficiente para manter todos aqueles momentos que passou com o mais velho e ainda assim se manter firme naquele processo de afastamento. Continuaria tentando, apesar de tudo, visando o fato de que já estava ciente sobre os planos que o irmão fizera para ambos de saírem do país, assim poderiam recomeçar em um novo lugar e ela esperava que pudesse se desapegar de todos que ficariam em Hogwarts, especialmente, do Dawson. Com esse pensamento, a morena assentiu de leve, sentindo que seu coração iria sair por sua goela a qualquer momento, e desvencilhou-se do toque alheio. Não poderia dar continuidade com aquilo se estivesse tendo contato físico ou visual com o corvino. Winter respirou fundo, querendo arrastar Maria pelos cabelos e, ao mesmo tempo, lançar uma maldição imperdoável em Lyanna. “Se você deseja assim…” Murmurou ao abraçar o próprio corpo e encolher-se dentro de sua capa, como se o tecido fosse lhe proteger da presença alheia. “… Embora eu não vejo motivos para isso… Não tenho nada para falar.” A morena fitou-o de relance através dos cílios, mordendo o interior de sua bochecha. “Nem para esclarecer.”
Por mais que tentasse, sua voz ainda saia baixa demais para que pudesse transparecer confiança em suas palavras. E isso a fez praguejar-se mentalmente, como iria convencer Kwan de que falava a verdade? Precisava achar algum meio que conseguisse fazê-lo se afastar de vez de si, porque sabia que ele não desistiria fácil - o bruxo de cabelos azuis era persistente e teimoso, embora ambas as características sempre tivessem surtido um efeito de admiração na Hanui, naquele momento, ela desejou que Kwan não fosse assim. Sabia, também, que era ele quem precisava querer a distância para que o espaço fosse colocado de vez entre ambos, caso contrário, Winter teria de enfrentar mais vezes aquela conversa. A Hanui suspirou profundamente, tentando não ser tão conspícua a cerca do que se passava e, ao mesmo tempo, evitando encontrar o dono do par de olhos que a enfraqueciam sem que ele sequer soubesse disto. Não poderia abusar da pouca força que restava em si e encarar a face masculina, a morena tinha uma breve noção de que, se o fizesse, não iria resistir e nem mesmo conseguiria manter a postura de falsa indiferença. O fato de que teria de fazê-lo lhe odiar ao ponto de não querer nem mesmo pensar em si a fizera engolir em seco, tudo estava se tornando mais complicado e doloroso do que imaginou, mas como poderia prever que Kwan viria atrás de si mesmo com as palavras afiadas que lançaria para ele? Conquanto, seu esforço não resultou em nada; um barulho de livros indo de encontro ao chão fizera com que a Hanui erguesse o olhar e encontrasse os demais alunos de sua casa com a presença da monitora-chefe. E, por um descuido, suas íris foram de encontro com a face do corvino em questão de segundos. “Se eu chamar a monitora… Você vai ter que sair.”
Kwan não poderia negar o quanto destrutivo estava sendo aquele maldito sentimento que batia forte dentro de seu peito. Ele não poderia negar o quanto seu coração se apertava naquela maldita dor agoniante e completamente sufocante sempre que seus pensamentos vagueavam para uma sonserina em especial. Talvez fosse completamente errado o menino se deixar levar tanto pelo seu lado emocional numa altura como aquelas, porém ele não conseguia controlar a forma como aquele amor parecia crescer dentro de si. Parecia praticamente impossível e surreal o jeito como ele se apaixonava cada vez pela Hanui, quase como se ela fosse uma espécie de luz em sua vida. E na verdade, a sonserina era sem qualquer dúvida a luz mais brilhante de sua vida, contudo o garoto de cabelos azulados conseguira ser estúpido e idiota o suficiente para deixá-la partir de sua vida. Ele jamais poderia se deixar levar pelos seus desejos, especialmente porque ele sabia que não era merecedor de alguém tão puro quanto Winter Hanui. Mas seria de todo errado sentir uma leve esperança que num futuro ele iria conseguir fazê-la sua, e assim levá-la ao altar para um dia mais tarde ela ser assim a mãe de seus filhos? Seria assim tão errado sonhar com a garota que o conquistara num único piscar de olhos? O Dawson queria realmente acreditar que um dia suas perguntas, suas dúvidas iriam ter uma resposta, e quem sabe, nesse dia, ele poderia ser feliz. Ele não poderia sofrer para sempre, certo? Deus não poderia ser assim tão cruel ao ponto de castigar o corvino para uma vida inteira. Afinal, o menino não passava de um mero adolescente cujo suas atitudes do passado se tornaram em seus piores erros, e dos quais ele só queria apagar com uma borracha permanente. Mas a vida jamais iria permitir tal coisa. O coreano teria que aprender a viver com seus erros, mesmo que eles acabassem por levá-lo à loucura.
Talvez fosse exagerado falar que Kwan estava à beira da loucura, porém a forma como suas olheiras sobressaiam mais a cada dia passado acabavam por denunciar o jeito como sua mente se encontrava. As noites mal dormidas eram apenas um pequeno reflexo da falta que a Hanui fazia em sua vida. E por mais egoísta que o menino pudesse parecer, ele só queria tê-la ali ao seu lado. Ele só queria abraçar aquela que habitava em seu coração, e assim se desligar do mundo que existia à sua volta. Mas era errado. Era errado tentar apagar certas atitudes que haveriam sido cometidas, como o beijo que ambos trocaram na festa de aniversário dos gêmeos. O Dawson sabia que haveria sido levado por seus impulsos, pelos seus desejos mais secretos, e assim haveria cometido um erro. Mas seria de todo um erro assim tão grande ter se deixado levar pelo amor que nutria pela mais nova? Eram tantas as dúvidas que pairavam em sua mente que o corvino se sentia à beira do abismo. Ele sabia que precisava falar o que estava sentindo. Ele sabia que precisava falar a verdade, e por mais egoísta que isso pudesse parecer, aos olhos do menino era o mais correto a ser feito. E afinal, já não havia praticamente nada que o garoto de cabelos azulados pudesse perder. Ou talvez houvesse, contudo ele necessitava de lutar pelo amor de sua vida. Ele necessitava de pelo uma vez lutar pelo que realmente em seu coração. Bastavam de mentiras em sua vida, bastava de sofrer por algo que começava o sufocando. A forma como a sonserina se comportava diante de si acabara por fazer seu coração latejar naquela maldita e agoniante dor que habitava seu peito nos últimos peitos. Um suspiro pesado se soltou por entre seus lábios, enquanto ele acabava por humedecer os mesmos, quase como se estivesse ganhando coragem para falar tudo aquilo que um dia guardara bem dentro de si. Suas íris âmbar se focaram naquele doce olhar que ele tanto se perdia, e uma vez mais, Kwan se deixou perder. Ele se perdia naqueles doces traços da mais nova. Ela era seu pedaço mais perfeito, sua alma gêmea, a única capaz de o preencher por inteiro. --- " Tu sabe bem que existe muito para esclarecer, bebê. " --- sua voz era calma, ao contrário de seu coração que parecia uma autêntica bomba relógio de tão rápido que estava batendo.
O Dawson não poderia negar que conhecia perfeitamente a outra, afinal foram diversos anos que ele acabara por estudar cada mísero detalhe da mais nova. E era a cada mísero detalhe que ele acabava por descobrir da Hanui que ele se perdia mais de amores. E muitas vezes bastava um simples olhar para que ele se sentisse perder completamente naquele sentimento tão insano, tão intenso, e ao mesmo tempo tão puro. O menino de cabelos azulados não poderia negar que conseguia decifrar cada olhar da sonserina, quase como se fosse viciado nela. E na verdade, ele era um autêntico viciado nela. Winter Hanui era sua droga mais intensa, a única que o fazia se sentir completamente insano e louco. Porém, a única, também, que conseguia fazê-lo realmente feliz apenas com um simples e mero abraço. E Kwan estaria sendo um completo mentiroso se falasse que não sentia falta da amizade da mais nova, porque a verdade era que ele sentia falta de todo e qualquer momento que haveria passado ao seu lado. Ele simplesmente sentia falta dela, quase como se ela fosse seu único ar respirável. E talvez fosse completamente idiota e clichê se deixar levar tanto pelo que estava sentindo pela morena, mas o corvino já não conseguia parar o que ia dentro de seu coração. Seus impulsos acabavam sempre por ser mais fortes, e em parte suas persistência acabava por fazê-lo entender que a menina parecia lhe esconder algo. Talvez fosse apenas sua teimosia, ou talvez fosse a sua perspicácia que o fazia desconfiar que existia algo mais ali. As palavras da asiática o fizeram arquear ligeiramente a sobrancelha. Naquele momento o menino tivera certezas que a outra estava lhe escondendo algo, e sem dúvida que o Dawson só iria descansar quando descobrisse. --- " Tu não seria capaz de me denunciar. " --- replicou enquanto fixava seu olhar no dele, e a olhava de um jeito completamente insano. Ele mordeu seu próprio lábio. --- " Por favor....me deixa entender o que 'tá se passando entre nós, dongsaeng. "