QUAL SERÁ A CONCEPÇÃO DE HOMEM QUE A EDUCAÇÃO ATUAL QUER FORMAR?
Começo essa indagação partindo de algumas inquietações.
Estaria a escola abandonando sua função cognitiva e se tornando um espaço de doutrinação? O que se busca afinal?
Muitos críticos afirmam que, ao deslocar o foco da formação intelectual para a formação social, a escola estaria perdendo rigor acadêmico. E a verdadeira educação não pode renunciar a autonomia intelectual, pois sem ela, o aluno não consegue avaliar criticamente os valores e comportamentos que lhe são apresentados além de levar ao decaimento escolar. Isso estará de fato acontecendo? Estará a escola também manipulando os estudante para um projeto social ainda não muito claro?
O argumento de que o nível escolar está decaindo se sustenta, se a escola realmente abdicar da formação intelectual. Mas se ela conseguir articular saberes e valores, não haverá decadência, e sim uma transformação da missão educativa. O risco maior não é a ênfase na socialização, mas na falta de espaço para o pensamento crítico, pois sem ele, valores e atitudes podem ser impostos de forma acrítica, o que de fato se aproximará da manipulação.
O Intelecto deve fornecer ferramentas sólidas de raciocínio, leitura crítica, domínio científico enquanto a socialização deve buscar promover valores de convivência, ética e cidadania. O perigo reina quando há o desequilíbrio entre as dimensões ou a dimensão cognitiva ser negligenciada possibilitando o “decaimento escolar”.
A escola contemporânea não pode ser dicotomizada. Ela precisa construir cidadãos capazes de conviver em sociedade, lidar com diversidade e enfrentar desafios éticos e sociais. E isso não significa necessariamente abandonar o cognitivo, mas sim integrar saberes e valores. O problema surge quando a escola apenas transmite atitudes e ideologias sem estimular o pensamento crítico, correndo o risco de se tornar um espaço de conformismo em vez de formação. Isso leva a condução impositiva da dimensão social, pois não há espaço para reflexão crítica possibilitando espaço para a percepção de “manipulação psicológica”. Em outras palavras: não é a redefinição da escola que causa decadência, mas a forma como essa redefinição é conduzida.
Posto isso, acredito que a educação contemporânea necessita partir de uma visão integral do ser humano: não apenas como sujeito cognitivo, mas também como ser social, emocional, ético e cultural. Estimulado a desenvolver competências para viver em sociedade, lidar com a diversidade, assumir responsabilidades e construir projetos de vida. Isso reflete uma concepção humanista e relacional, em que aprender não é só acumular informações, mas também desenvolver o primeiro direito de aprendizagem exposto na BNCC que é aprender a conviver, a dialogar e a se posicionar no mundo. Diante disso, qual é afinal o papel da escola e dos professores? Eles ganham outra dimensão, outra possibilidade? Outra configuração?
A escola não abandona a função cognitiva, mas a reconfigura: o conhecimento continua essencial, porém articulado com valores, atitudes e habilidades socioemocionais. O professor deixa de ser apenas transmissor de conteúdos e passa a ser mediador de experiências, facilitador de diálogos e construtor de ambientes de aprendizagem.
Isso significa que ensinar matemática, história ou ciências não se separa de discutir ética, cidadania, diversidade e convivência e nem criar uma tensão entre cognitivo e formativo apesar do risco existir, se a ênfase nas relações humanas e sociais for malconduzida, evidenciado que o intelecto foi deixado de lado.
A proposta da Unesco/BNCC não é substituir o cognitivo, e sim integrá-lo: formar cidadãos críticos e conscientes que exige tanto domínio de saberes quanto capacidade de reflexão ética e social. O perigo reside em como essa proposta será colocada em prática para que a função cognitiva não seja abandonada, mas ressignificada dentro de um projeto educativo mais amplo. Os professores, como membros atuantes, não podem renunciar a uma prática com base científica e terem domínio amplo do conteúdo a ser trabalhado.
Assim, a escola não abandonará sua função cognitiva, mas tentará superar a visão reducionista de educação. O que se pode pensar é que o cognitivo continua sendo indispensável, mas agora inserido em um horizonte mais amplo de formação humana.
Porém, há que se ter cuidado porque já é observável que o “o nível escolar vem decaindo, vem perdendo rigor acadêmico, o que aliás não surpreende, já que o papel da escola vem sendo redefinido e sua missão principal não consiste mais na ênfase da formação intelectual, e sim na formação social das crianças. Isso se traduz na ideia de que os estudantes saem da escola com menos domínio de conteúdos básicos (matemática, leitura, ciências), o que poderia comprometer sua autonomia intelectual.
A autonomia intelectual se constrói junto com a capacidade de dialogar, conviver e assumir responsabilidades. O homem é por natureza um ser social.
Cresce a percepção de que a proposta pedagógica parece não pretender fornecer aos estudantes ferramentas para a autonomia intelectual, mas valores, atitudes e comportamentos por meio de técnicas de manipulação psicológica ou doutrinação.
O ser humano deve ser formado principalmente pelo intelecto, capaz de pensar por si mesmo. E a socialização e os valores devem ser vistos como responsabilidade da família ou da sociedade e não da escola. A esta cabe também a função de os reforçar uma vez que o ambiente escolar é também um ambiente social. Assim a escola deve formar o ser humano em sua totalidade: razão, emoção, ética e convivência social.
A educação integral não manipula, mas emancipa, pois, dá ao aluno ferramentas para pensar criticamente sobre valores e ideologias preparando seus estudantes para papéis sociais, profissionais e cívicos de forma consciente.
A divergência que surge está em como se entende a relação entre intelecto e valores:
Para muitos críticos, valores impostos sem base cognitiva são manipulação. E para os que defendem a ênfase na educação social os valores discutidos junto ao conhecimento são emancipação.
O ponto-chave é o modo de condução: se a escola promove reflexão crítica, há emancipação; se apenas impõe comportamentos, há manipulação.
O que o nosso leitor pensa sobre isso?
REFERÊNCIA
BERNARDIM, Pascoal. Maquiavel Pedagogo ou a mistério da reforma psicológica. Edição brasileira autorizada ao Instituto Olavo de Carvalho pelo autor. 1" edição - janeiro de 2013 - CEDET