Durante muito tempo fiquei encarando o espelho torto pendurado na parede do meu quarto. Não sei se você já tentou sustentar seu próprio olhar por dias seguidos. Chega a um ponto em que o rosto se torna irreconhecÃvel. Como uma palavra repetida até perder o sentido. Eu sempre tive uma timidez excessiva que nunca entendi. Como se tudo me deixasse desconfortável. Quando o lugar onde eu cortava fechou, eu não procurei outro lugar. Comprei uma máquina e passei a cortar o cabelo eu mesmo. Foram horas infinitas encarando aquele espelho torto. De certa forma, parecia equilibrar minha tontura. Já não havia nada para esconder. Restou apenas encarar o meu olhar distante. Bêbado. Cansado. Vazio. Eu sempre escuto uma voz na minha cabeça que me pergunta se eu estou bem. E eu nunca sei o que responder. Cheguei a um ponto que eu precisava do silêncio. Então, estou escrevendo para não falar sozinho. Como quem segura uma lanterna fraca na escuridão. Talvez já tenha sentido algo parecido. Talvez você entenda o que estou tentando dizer. Eu tenho passado dias afinando meu silêncio. E à s vezes, quando pensamos demais em silêncio, ele começa a falar.













