Richard era um bálsamo. Uma força acolhedora capaz de fazer qualquer um se sentir confortável na sua presença. Mesmo estando tão incomodado com o fato de ter se aberto, Gustaff não se sentiu impelido a fazer a coisa mais natural para ele, que era afastar qualquer pessoa que tentasse se aproximar. Não precisava fazer isso com o moreno. Muito pelo contrário. Precisava ter aquele homem na sua vida. Dar-se conta disso o preenchia com um sentimento que o fazia se sentir agitado por dentro, com a necessidade de se aproximar. Era um sentimento completamente novo, mas muito bem vindo. Wirth era o que o garoto precisava, e nada mudaria isso.
Aquela tentativa de consolá-lo fez Gustaff sorrir. Seus olhos estavam marejados, mas nada perceptível ou que pudesse o colocar para chorar, apenas o suficiente para fazer seus orbes brilharem como prata líquida. Antes de qualquer coisa, Blackfire estava feliz. Genuinamente feliz por ter encontrado algo que nunca antes teve a vontade de procurar, simplesmente por estar convicto de que seria impossível. Richard não sabia, mas estava tentando cuidar de uma ferida que esteve aberta por mais de quinze anos em Gustaff. A essa altura, não tinha mais vontade de manter a cabeça baixa. Seus olhos miravam o outro com admiração e afeto. E mesmo que sentisse vontade de levantar daquela poltrona e abraçá-lo, o garoto pelo menos conseguiu se conter. Sobrepôs a vontade de procurar por contato, pela vontade de proteger o mais velho, ainda que da sua própria maneira. Não era certo que o outro pensasse que não haveria pessoas dispostas a machucá-lo, porque sempre haveria.
“Existirão pessoas dispostas não só a me ferir, como a ferir qualquer outra pessoa. Até mesmo... Você.” Apenas o breve pensamento de que alguém pudesse ferir Richard, fez com que Gustaff se sentisse irritado. Mas continuou sem deixar esse sentimento transparecer em sua voz ou semblante. “Não pense que é diferente, porque não é. Você não pode ser tão otimista a ponto de pensar que ninguém vai te ferrar. Por favor, não seja.” Até esse momento, sua voz soava séria e quase autoritária, típica daquelas pessoas que sabiam do que estavam falando. Para amenizar isso, o loiro decidiu descontrair em seguida. “E além do mais, você não quer que eu seja preso por matar quem te fizer mal, certo? Então... Fique sempre atento, seu Lufa Lufa!” Gustaff riu, e apenas o fato de saber que poderia rir num momento como esse, o obrigava a segurar, com todas as suas forças, o impulso de levantar e abraçar aquele homem. E agradecer. Agradecer até sua voz cansar e falhar. “Você sabe que não é exatamente uma escolha, certo? Não fico pensando nas pessoas que me fizeram mal, mas inevitavelmente o passado vem à tona, de uma forma ou de outra. Acho que faço o melhor que posso.” Era nisso que acreditava, pelo menos. Mesmo que não fosse o ideal, Gustaff jamais poderia ser acusado de não afastar as lembranças obscuras do seu passado. Estava marcado, e seu passado ajudava a formar sua própria personalidade. Mas duvidava que fosse diferente com as outras pessoas. “E de qualquer forma, também concordo que o importante é que eu esteja vivo... E aqui contigo.”
Gustaff não deixou de notar como Richard tentava não pesar o clima entre os dois. Quando o mais velho se levantou e lhe serviu, o garoto aceitou o café que lhe foi oferecido, sorvendo uma boa quantidade da sua xícara de imediato. Seus olhos se fecharam por um momento, saudosos do sabor amargo, e quando os abriu novamente, sorriu, fitando diretamente aqueles olhos azuis. Sabia que o mais velho estava oferecendo biscoitos, e o garoto quase conseguiu resistir e dizer que não queria, porque desde sempre detestava doces. Mas não conseguiu. Levou a mão direita até o prato, e pegou um biscoito qualquer, sem realmente vê-lo. Assim que o mordiscou, de má vontade, percebeu que não só o biscoito era salgado, como também era um dos seus favoritos. Era um daqueles biscoitos feitos com queijo, que dissolviam na boca. “Por Merlin, Richard! Quanto eu tenho que implorar pra que você sempre faça esses biscoitos pra mim?” Por um momento o garoto de cabelo esbranquiçado simplesmente esqueceu-se da boa educação, e pegou mais quatro biscoitos de uma vez, os saboreando como se sua vida dependesse disso. Como se todas as outras qualidades não bastassem, o moreno ainda era bom cozinheiro. Definitivamente Gustaff jamais o deixaria ir embora.
“Oh, meu Deus, que coisa terrível você fez! Se Minerva descobrir que você trouxe um aluno para seu quarto, vai acabar ficando sem estrelinha!” Por um momento, Gustaff pensou que a conversa sobre o seu passado tivesse chegado ao fim, então foi uma pequena surpresa descobrir que não. Richard ainda tentava aconselhar e confortar. Era um gesto bonito, sim, mas no fundo o garoto lamentava por saber que era quase em vão. Nada do que o mais velho dissesse faria com que todos aqueles anos se apagassem da sua vida. Por mais que quisesse, por mais que desejasse, havia muito para temer. Cada linha que fora escrita anos atrás, interferia agora no seu presente. Era algo que não podia simplesmente ignorar. Apreciava, porém, o fato de Richard conseguir fazer com que se sentisse melhor, mesmo que infimamente.
Ouviu pacientemente o que o outro tinha a dizer, percebendo que ele sequer havia lhe dado a oportunidade de se apresentar também. E quando deu por si, já não estava mais com a xícara – já tinha a colocado sobre a mesa novamente -, e suas mãos esfregavam discretamente seus braços. Não sabia como tinha começado, mas agora voltava a sentir um frio capaz de gelar a espinha, e seu corpo começava a pesar muito mais do que o normal. O que está acontecendo?, ele foi capaz de pensar, ainda que sua mente se tornasse mais nebulosa a cada segundo. Gustaff piscou lentamente os olhos, tentando voltar sua atenção novamente para o professor. Mas agora estava tão... Difícil. Manter os olhos abertos era quase um desafio, mas se esforçou para isso. Não queria perder tempo com bobagens. Provavelmente só estava cansado.
“Não que você tenha perguntado... Mas meu nome é Gustaff. Gustaff Blackfire.” Ele disse, com um sorriso fraco nos lábios. Até sorrir parecia demandar esforço agora. “Sim, eu disse. Não esperava que você fosse usar isso contra mim tão rápido, mas tudo bem. Faço qualquer coisa que você pedir, contanto que esteja ao meu alcance. Não duvide disso. O que você quer que eu faça?”
Gustaff tinha certeza de que até sua voz havia soado mais baixa e fraca, e começava a acreditar que fosse sono. Reunindo toda força que seu corpo ainda demonstrava ter, se obrigou a levantar, pensando que esticar as pernas talvez o deixasse mais disposto. Não queria preocupar o professor, então se dirigiu até a parede próxima, onde havia um quadro pendurado. Queria saber do que se tratava, e talvez começar um novo assunto, mas foi impedido quando tudo ao seu redor começou a girar. Suas pernas fraquejaram, e ele foi obrigado a ficar estático no mesmo lugar, esperando que as coisas voltassem ao normal. Assustado, olhou pro professor que estava a apenas alguns passos. Sabia que ele tinha percebido, então tratou de sacudir as mãos, tentando gesticular que o outro não precisava se importar. “Não se preocupe, não foi nada...” Mas havia sido, e estava sendo novamente. De repente o som ao seu redor começou a diminuir, como se estivesse ficando gradativamente surdo, e a imagem que tinha de Richard começou a embaçar. Piscou os olhos uma última vez, tentando focar o professor, e a última coisa que viu, antes do seu corpo atingir violentamente o chão, foi o moreno se levantar, tentando ampará-lo.