Eu tinha certeza de que a gente ia ficar junto. Eu e ela pra sempre, como nos filmes. Sempre entendi dessa forma.
A primeira vez que eu entendi isso foi quando nos conhecemos na escola, naquela fase de transição entre a infância e adolescência. Hormônios em ebulição, muita espinha, muita vontade, novas experiências e descobertas de mundo. Ela zombava de mim por eu ser raquítico e por parecer muito "criança", eu ria das pernas de saracura dela e dos dentes tortos (e depois do aparelho ortodôntico esquisito que deixava a voz dela engraçada). Um dia matamos aula e fomos fumar escondidos com a galera. Aos poucos, os amigos foram indo embora e nós dois ficamos. No meio do papo, sem perceber, acabamos perto demais e, entre tosse e fumaça, o beijo aconteceu. O primeiro beijo dos dois. Bobagem de criança e que naquele período nunca mais voltou a acontecer. Mas ficou marcado, a certeza estava ali.
A segunda vez que eu entendi que entre nós havia essa força da natureza foi uma década depois. Começo da vida adulta, faculdade, estágio, baladas... nos encontramos e tudo voltou a cabeça num estalar de dedos. Marcamos um barzinho para colocar o papo em dia, o que andávamos fazendo e etc. Ela fazia economia, já tinha um trabalho legal com possibilidade de efetivação assim que terminasse o curso. Eu estava perdido, cursando administração, fazendo um bico aqui e outro ali, mas me virava e de certa forma tudo ia bem. A conversa rendeu, falamos sobre o passado, de como foi curioso nos encontrarmos de novo. Fechamos o bar e aceitei a carona oferecida. No carro e na casa dela aconteceu tudo de novo. Era o mesmo beijo da época escola. Mas sem aparelho. O encaixe perfeito. Era como se a gente virasse um corpo só. Eu não queria ir embora dali, mas eu tinha que ir. Nossas vidas eram diferentes, e como um caminho que que se bifurca, nós queríamos seguir juntos mas cada um escolheu um lado.
E agora, com trinta e poucos anos, nós nos encontramos de novo. Ela, casada e com dois filhos (gêmeos), vivendo uma vida plena e feliz. Eu, focado no trabalho e no desenvolvimento financeiro, ainda solteiro. E feliz assim também. Eu corria no parque e ela passeava com os filhos quando nos vimos. Lembramos como a vida fazia questão de nos aproximar a cada década. Ela me contou sobre tudo o que rolou nesse tempo, e eu contei o que aconteceu comigo. Entre sorvetes e água de coco, comentei como nossa história era engraçada, e no meio de tantas lembranças, perguntei por que a gente nunca ficou junto pra valer.
Ela olhou no fundo dos meus olhos, daquele jeito que só ela conseguia, e disse que não ficamos juntos porque ela só queria comer o cu de quem tá lendo.
Ai eu não entendi mais nada.
Senhoras e senhores, em 2019, minha coluna semanal nas redes sociais está de volta.