Para alguém que gastava horas do dia treinando fisicamente, parecia até brincadeira dizer que o maior peso e esforço se encontrava no âmbito psicológico. A ‘coisa certa’ parecia um pouco mais concreta em sua mente jovial, na época em que primeiro se envolvera com os rebeldes, encantado pela forma que eles enxergavam as coisas e como estavam decididos a mudar o mundo e as condições de todos que já haviam sido injustiçados. Com o tempo, no entanto, foi fácil perceber que palavras bonitas e inspiradoras não queriam dizer que o caminho seria tão belo quanto. Tornou-se uma tarefa complicada e exaustiva ponderar a respeito de seus atos e intenções; ponderar a respeito do quão corretos eram seus feitos. Era bom ouvir da jovem uma confirmação de que realmente era complicado reconhecer a linha tênue entre o que era ético e o que não. Como haviam chegado naquele ponto, exatamente? Onde Kostantin Emsk despejava pensamentos tão profundos e medos que até então sequer pudera admitir ao espelho? Talvez fosse inevitável se sentir seguro para partilhar aquelas experiências em algum grau, especialmente considerando que Ayla lhe confidenciara algo tão secreto. Sentiria-se mal por de alguma maneira alterar o rumo da conversa para si mesmo, se não tivesse sido exatamente o pedido da morena que ele a distraísse do assunto de instantes atrás. ‘Você é um protetor’, ela disse. Kostya esboçou algo parecido com um sorriso, mas tão pequeno que era como se os músculos do rosto não tivessem força. Ah, como ele queria de fato poder ser considerado daquele modo. Na realidade, não havia nada mais importante a ele que tal título. Riquezas, reconhecimentos, fama… até mesmo coisas como amor e felicidade ficavam atrás do que ele jurava ser sua missão – proteger aqueles que lhe eram importante; e aqueles pelos quais ninguém olhava. Assentiu devagar enquanto ela dizia que, se ele discordasse de algo, então devesse tentar alterar aos poucos a situação. Pressionou os lábios um contra o outro, esperando que aquilo fosse capaz de impedir a vontade ardente dentro de si de dizer a ela que tentava. Oh, e como tentava. Corria risco de vida a todo instante por tentar, inclusive. Encarava a mão macia da jovem que repousava em cima da sua, tão menor e mais delicada que a palma áspera do soldado. Ao final de suas constatações, ele virou o rosto na direção dela, permitindo que seus olhos claros se demorassem no fundo dos dois escuros da garota. “Não posso.” Foi o que disse, recuperando alguma força na voz que havia lhe sumido nos últimos momentos. Se ele não se sacrificasse, então algum inocente sofreria. “Se eu não o fizer, então é um a menos para protegê-los. E o povo já não tem o luxo de contar com muita ajuda” Como fora com seu irmão, com vários conhecidos da causa, com pobres em vilarejos destruídos pela impetuosidade da coroa; até mesmo como Ayla, sofrendo na mão de dois bastardos nojentos. E era por saber daquele tipo de coisa que Kostya não teria paz em se afastar dos deveres. A mão de Shahin ainda estava na sua, inclusive a apertava levemente, e talvez fosse o momento íntimo demais, o escuro confortável ou o alívio de enfim dizer pelo menos um pouco do que lhe afligia internamente, mas ele não conseguiu arrumar qualquer força para desviar seu olhar ou afastar aquele toque. Sua outra mão livre cobriu a dela também e ele ficou ali, naquele transe, sob os olhos tão bonitos e melancólicos da mais nova. Ele sequer percebeu quando se aproximou um pouco mais, não sendo um trabalho muito difícil já que àquela altura somente poucos centímetros os afastavam. Quando conseguiu que as íris azuis se desvencilhassem do olhar dela, não foi de muita ajuda que se rebelassem e passassem a estudar toda a feição da garota; a sobrancelha escura, o nariz delicado, a mandíbula bem desenhada — mas demorou-se particularmente no último, os lábios avermelhados e cheios, enfeitados graciosamente pelas duas pintas que os rodeavam. O que está fazendo, Kostya? A voz na consciência era alta, tentando a qualquer custo fazer com que ele se recompusesse. Isso é errado de tantas maneiras que não há nem como começar. Aquela voz insistiu, e ele sabia muito bem que tinha toda a razão. Por algum motivo, aquele som em sua cabeça sempre se parecera muito com a voz do falecido irmão. E agora, Pasha dizia que o oficial não podia colocar em jogo a integridade e posição de ambos apenas por se sentir sensibilizado – sem contar com o fato de que, de algum modo, qualquer proximidade a mais seria como se aproveitasse a fraqueza momentanea de Ayla. E jamais faria algo do tipo. Arrumou sua postura por fim, a voz na cabeça vencendo o argumento, e devagar soltou a mão da garota. “Bem, talvez seja melhor nos distrairmos com um assunto um pouco mais leve.” Havia um resquício de humor desconfortável e envergonhado no tom de voz enquanto ele fazia a proposta, rindo sem graça devido ao próprio comportamento impensado. “Por que não me conta um pouco dos seus costumes favoritos da Turquia?”
Ayla conhecera os terrores que rondavam a cabeça de um soldado, não por sentir na pele, é claro, mas tinha certa propriedade ao falar a respeito, as lembranças de sua mãe sendo fortes demais, marcantes demais. Assim como a filha, a vizir Leila Shahin quase nunca chorava, e principalmente não na frente de ninguém, não se pudesse evitar de alguma forma; e mesmo assim, Ayla se lembrava dos soluços fracos que saíam dos lábios da mãe tarde da noite, envoltos pela escuridão da madrugada quando a mais velha acreditava que sua filha estivesse dormindo. Os eventos não eram muito frequentes, mas costumavam aumentar depois de uma missão particularmente difícil em que ela perdera muitos homens, ou quando chegavam a um local marcado pela violência. Ayla bem se lembrava de que ela chorava com muito mais facilidade ao conhecer as vítimas civis e ver de primeira mão o estrago da guerra. De todo modo, naqueles raros momentos em que flagrava a mãe em uma situação mais fragilizada, a turca nunca sabia exatamente se era melhor para a progenitora que ela fingisse estar dormindo, para que pudesse manter sua fachada, ou se ela apenas iria querer um abraço da filha. Apoio, conforto. Hoje Ayla percebera que não havia exatamente uma resposta certa - como muitas coisas na vida, e mais ainda em seu ramo de trabalho. Ao mesmo tempo em que se ressentia de Kostya por vê-la daquela forma, frágil e despedaçada, nada que aparentasse ser a mulher que a embaixadora conquistara a garras e dentes, também não podia negar que existia algo mágico, confortador e cicatrizador em não passar mais por tudo aquilo sozinha. Mesmo que tivesse sido criada por uma líder militar, assombrada pelas suas perdas, e tivesse crescido em meio a soldados, muitos deles perdendo o brilho dos olhos logo depois da primeira missão, quando percebiam o que os esperava, não apenas honra e glória como as histórias românticas, mas muito sufoco, sangue e luta, não era justo que Ayla tentasse dizer que sabia exatamente o que Kostya sentia. No entanto, ela fora sincera em todas as suas palavras, acreditando piamente que o exército era necessário e protetor, mesmo que tivesse lados mais sombrios. A morena sentira que tocara algo dentre dele, e não sabia bem o que era, mas ficara feliz de todo jeito; podia ver que para ele era exatamente aquilo que importava, ser um protetor, um guardião dos que não poderiam se defender - e não poderia negar que aquilo a fazia sentir vontade de sorrir. Ela podia enxergar certa angústia nas palavras do guarda, e acreditava que ele falava do coração quando se submetia a essa vida como se simplesmente não houvesse escolha entre deixar de proteger seu povo - e achava que para ele, não havia mesmo. Era uma reação um tanto emocional, mas que surpreendentemente fizera com que Ayla gostasse mais dele. Ela poderia dizer que a responsabilidade não era exclusivamente dele e estaria sendo verdadeira, mas sentia que aquilo não iria encaixar bem com o que conhecia de Kostya, então se conformou em comentar, baixinho “—Nesse caso, eles têm muita sorte de ter você” também era verdade, e a turca ficou feliz em constatar que não estava errada sobre a moral do guarda. Antes que pudesse perceber a armadilha, a morena já estava presa no olhar alheio, primeiro o encarando com certa doçura e seriedade, em razão do assunto que conversavam, mas então começou a se transformar em algo... a mais. Teve a impressão que ele se aproximara em sua direção, mas não poderia ter certeza, pois sua atenção estava fixada e congelada nos olhos claros dele. Quando o guarda finalmente desviou os olhos dos seus, foi para estudar os outros traços de seu rosto, e Ayla percebeu, como um raio passando por seu corpo, de que ele a beijaria; a certeza a fez congelar por um momento, analisando o rosto de Kostya em resposta, seu ritmo cardíaco se rebelando em ansiedade e a mente da embaixadora entrava em conflito sobre o que ela achava daquilo, e o que gostaria que acontecesse. Antes que pudesse chegar a um veredito, o guarda se afastou e a turca fechou a boca, mesmo que não houvesse percebido que abrira os lábios minimamente, engoliu em seco e então desviou os olhos, se ocupando em beber um gole de seu copo para se recuperar. Não respondeu às palavras seguintes nem à tentativa de humor, até porque não sabia bem como encarar aquele momento, mas abriu um sorriso contido e forçado com a pergunta, tentando voltar a atenção para seu país natal “—Gosto que temos momentos do dia apenas para apreciar o chá ou café” começou, abrindo um sorriso fraco “—Tem alguns quitutes e muitos doces, então não é segredo que eu goste. Esses momentos servem mais para conversar do que comer, mas são muito tradicionais” seu olhar voltou para o fundo do copo “—Apesar de não ver o casamento arranjado com bons olhos, tem muitas tradições acerca do evento que eu gosto. É um costume presentear a noiva com uma adaga, caso ela queira... fugir do casamento” soltou um riso fraco “—Existem histórias de suicídios e assassinatos de noivo na noite de núpcias, mas acredito que gosto da ideia de dar uma escolha à mulher, mesmo que ela tenha sido forçada ao casamento. É claro que hoje em dia tudo isso é bem menos comum, mas a adaga virou tradição, e normalmente elas são belamente trabalhadas, um presente para indicar bom gosto e cuidado, além de fortuna.” tomou outro gole da bebida alcoólica, pensando em sua própria adaga “—Temos uma dança cultural que eu adoro, os seus registros são absurdamente antigos e a tradução seria algo aproximado a dança do leste, embora tenha ficado conhecido do ocidente como dança do ventre” a morena lembrou imediatamente de suas aulas e dos festejos culturais, um sorriso um pouco menos forçado em seus lábios “—Os turcos têm o costume de se cumprimentarem se beijando com frequência, ou nas bochechas ou nas mãos, é tudo muito acolhedor, na verdade. Eu nunca tive muito esse costume, já que fui criada em meio militar e depois fiquei acostumada aos modos da corte” suas palavras foram resignadas, não necessariamente indicando se gostava ou não da situação, mas revirava levemente os olhos antes de beber novamente, forçando uma pausa e um comentário por parte do guarda.