Caspar David Friedrich, The Evening (1822)
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Caspar David Friedrich, The Evening (1822)

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HÁ UMA PEDRA FEROZ
Há uma pedra feroz, um rapaz, há o olhar do rapaz atado à pedra, o olhar do rapaz, a minha casa, o olhar do rapaz às vezes é a pedra.
Luís Miguel Nava, “Onde a Nudez” in Poesia, ed. Assírio & Alvim
Quando a aldeia se despede de mais um dia arrastado
AGORA QUE NÃO SOU MAIS JOVEM
Agora que já percorro a metade do caminho da minha vida, eu, que sempre tive pena das pessoas mais velhas, eu, que sou eterna pois morri cem vezes, de tédio, de agonia, e que estendo os meus braços ao sol nas manhãs e me embalo nas noites e canto canções para espantar o medo, o que farei com esta sombra que começa a cobrir-me e a despojar-me sem remorsos? O que farei com o confuso e turvo rio que não encontra o seu mar, com tantos dias e tantos aniversários, com tanta juventude às costas, se ainda não nasci, se ainda hoje me cabe um mundo inteiro no lado esquerdo? O que fazer agora que já não sou mais jovem se ainda não te conheci?
Piedad Bonnett
O que haverás de ser ainda É pergunta que me permeia O silêncio está na clareira que no bosque existe Ou na vida que o rodeia?

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La Cordillera de los Sueños (2019), Patricio Guzmán
AS ESCAVAÇÕES Esta cidade é aquela que ficou dentro de nós. Depois escavaremos porque outras mais existem. São aquelas invisíveis agora, mas que havia ao longo das camadas sobrepostas pelo tempo ou talvez só pela cinza ardente, pelos fetos destas chamas mais altas, pela febre em que perdemos a memória. De novo, ao procurá-las talvez se encontrem próximas de um rio que as venha reflectir. Serão apenas não os jardins, as ruas, estas casas mas a pureza extrema em que se afastam de nós. Iguais ao nada. Sem imagens.
Fernando Guimarães, As Raízes Diferentes, ed. Relógio d'Água
Frederic Edwin Church, Jerusalem from the Mount of Olives
Rias-te de mim e não sabias o medo com que tinha roubado aquela maçã do jardim do nosso vizinho. O jardineiro correu atrás de mim furioso, viu a maçã nas tuas mãos, olhou para o meu rosto com olhos de raiva. A maçã mordida caiu das tuas mãos no chão, e foste-te embora. E ainda hoje, anos depois, escuto suavemente, suavemente, os sussurros dos teus passos a afastarem-se a atormentarem-me sem cessar. E eu, perdido em pensamentos, pergunto-me por que razão o nosso pequeno jardim não tinha maçãs.
Hamid Mosadegh, Junho de 1964, trad. André Tomé

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O mesmo silêncio A mesma gente em pastoreio Carros e passageiros, tudo peças da mesma oficina Os mesmos vícios Cortar a mesma fruta – era outra noutro país – O mesmo botão Os mesmos lamentos A mesma subida às escadas que dão para o céu Mais estrelas, a mesma decepção A mesma obnubilada percepção Tudo é transitório, repeti Assim é a natureza de todos os mantras Menor a incerteza Ou o teu olhar que não encontro A ausência que já não me comove Regressar a casa subtrai mais do que devolve
Se ainda me ouves Sentirás amor Como o rumorejar de um antiga cantiga Que de longe vem dizer nem tudo escurece

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Nostos
Regresso à poesia como o rei que reconhece o bastardo E no entanto não o pode coroar No monte Athos um monge volta a semear Mas até que na torrosa terra algo aconteça a tábua antiga suspensa acumulará migalhas de pão nas ranhuras A vara de porcos diminuirá E só no solstício se acenderá o lume para comer novo pão Ao casebre não chegará o vinho prometido E Dyonisios não pensará sobre novas locuções Regressar à poesia é como deitar água sobre o fogo que amainou Um dia mais que recomeça, Um dia a menos nesta terra