Começo este texto com uma frase: o luto é como glitter.
Sempre que vou comer um pão na chapa, lembro-me da senhora. Quando sinto o cheiro de café fresco, tenho vontade de ligar a televisão e assistir a um desenho. Sempre que passo em frente à sua casa, recordo-me de como a senhora acordava cedo para varrer a calçada, que vivia coberta pelas folhas secas das årvores que plantou quando se mudou para São Paulo.
Lembro-me tambĂ©m de quando a senhora estendia um tapete na calçada para que eu, minha irmĂŁ e minha prima pudĂ©ssemos brincar de boneca em frente de casa. A senhora sempre descia com alguma coisa para comermos â geralmente manga, minha fruta favorita. Depois, sentava-se encostada na ĂĄrvore, observando o movimento da rua e conversando com os vizinhos.
Tudo era tĂŁo simples e, ao mesmo tempo, tĂŁo bom.
Lembro-me de quando a senhora decidiu passar um tempo morando na Bahia. Senti uma falta enorme. Ăs vezes, o tio me assustava; ele costumava dizer coisas horrĂveis para mim, e infelizmente a senhora nĂŁo estava lĂĄ para ver. Mas, deixando essa parte de lado, lembro-me como se fosse hoje do dia em que a senhora voltou da Bahia. Trouxe tantas coisas para todos nĂłs: uma coberta para cada neto e tapetes feitos Ă mĂŁo para cada filho. Foi uma verdadeira festa. Eu sĂł queria ficar grudada na senhora, comer sua comida e sentir seu cheiro.
Era engraçado quando eu chegava da escola. Antes de ir para minha prĂłpria casa, eu sempre precisava passar primeiro na sua para vĂȘ-la. Meu pai vivia brigando comigo, dizendo que minha casa nĂŁo era ali, mas nĂŁo adiantava. Eu simplesmente nĂŁo conseguia abandonar esse costume.
Também me lembro do dia em que decidi morar com a senhora. Eu levava minhas coisas aos poucos para sua casa, como se ninguém estivesse percebendo o que eu estava fazendo.
Mas lembrar da senhora tambĂ©m me faz lembrar do seu Ășltimo dia de vida.
Eu estava lĂĄ. Fiquei ao seu lado o tempo todo, mesmo sendo apenas uma criança de 11 anos. Lembro-me de ter lhe dado banho e comida. Naquele dia, penteei seus cabelos como em qualquer outro dia. Mesmo sabendo que a senhora estava doente, na minha cabeça era impossĂvel que alguĂ©m com um coração tĂŁo bom pudesse partir.
Quando a tia chegou à sua casa, a senhora estava passando mal. Assustada, ela me perguntou por que eu não havia avisado ninguém. E eu, inocentemente, respondi:
â A vĂł disse que, se eu avisasse alguĂ©m, ela ficaria brava comigo.
EntĂŁo a levaram para o hospital.
Quando minha mãe pegou a mim e às minhas irmãs para dormirmos na casa da minha tia por parte de pai, eu jå sentia que nunca mais a veria. Mesmo assim, não queria perder a esperança. Lembro-me de ter rezado naquela noite, pedindo a Deus que cuidasse da senhora e a deixasse bem.
Na manhĂŁ seguinte, meu pai foi nos buscar. A primeira pergunta que fiz foi:
â A vĂł jĂĄ estĂĄ em casa?
O silĂȘncio tomou conta da casa.
Pegamos nossas coisas e entramos no carro sem dizer uma palavra. Quando chegamos em frente de casa, havia muitas pessoas. Eu tinha certeza de que minha avĂł estava lĂĄ dentro e que estava bem. Mas nĂŁo estava.
Vi minha mãe chorando e, naquele instante, ninguém precisou me dizer mais nada.
Entrei no meu quarto e pedi desculpas a Deus por não ter chamado ajuda antes que a situação piorasse. Durante muito tempo, pensei que poderia ter evitado tudo aquilo. Pensava que a senhora ainda poderia estar aqui comigo. Eu não queria ter sido tão obediente naquele dia.
O que me restou foi ficar com o TufĂŁo, o gatinho que dei Ă senhora de aniversĂĄrio.
Tudo aconteceu tĂŁo rĂĄpido que lembro apenas de fragmentos do seu velĂłrio. Lembro-me de ter chorado muito e de ver muitas pessoas reunidas para se despedir.
Sinto uma falta imensa da senhora. Falta da sua risada, do seu abraço e da maneira como parecia ter uma solução para tudo.
Hå alguns dias, sonhei com a senhora. Sonhei que me abraçava de um jeito tão acolhedor e dizia que eu não estava sozinha, mas que precisava ir embora. Quando acordei, chorei.
A verdade Ă© que eu nunca vou superar completamente sua partida.
E Ă© por isso que digo que o luto Ă© como glitter. Quando deixamos glitter cair no chĂŁo ou espalhamos um pouco pelo corpo, nĂŁo importa quantas vezes limpemos ou tomemos banho: sempre fica um brilho perdido em algum canto.
O luto Ă© assim.
Quando pensamos que finalmente superamos, passamos por alguĂ©m usando o mesmo perfume daquela pessoa. Escutamos uma mĂșsica, sentimos um cheiro, visitamos um lugar ou encontramos uma lembrança esquecida. E, de repente, aquele brilho reaparece.
Pequeno, quase imperceptĂvel.
Mas sempre presente.
Porque algumas pessoas nunca vão embora completamente. Elas continuam vivendo nas lembranças, nos håbitos, nas histórias e, principalmente, no amor que deixaram dentro de nós.









