Havia uma pilha de roupas amassadas em cima da cama. Uma família de quatro pessoas gera muita roupa para lavar, estender, passar, dobrar e guardar. A mãe passava roupa todos os dias pela duração de um cd de músicas românticas. Por diversos motivos, colocava a filha para separar peças, juntar e dobrar pares de meia, cuecas e calcinhas.
E durante esse trabalho de Sísifo ouviam música. Conversavam. A mãe contava histórias de criança e juventude que viraram lições de casa para aprender.
Lição 1: tudo bem dar seu telefone para um desconhecido. Mas combine direitinho a mentira que você vai contar.
— Conheci seu pai num farol e dei o nome de uma amiga. Sua tia, aquela dedo-duro, me entregou.
Lição 2: tudo bem desobedecer, mas não seja pega.
— Tava brincando de me equilibrar em tábuas, perdi o equilíbrio e fiquei dependurada. Não sabia se tinha mais medo de cair ou do seu avô me achar desobedecendo ele.
Lição 3: se você sair de casa com alguém, tenha o dinheiro para pagar o táxi de volta porque você pode voltar sozinha.
— A gente saia de casa juntos, com panelas, e íamos para a Praça da República. Uma vez, a polícia jogou bomba e me perdi do seu tio. Sorte que tinha o dinheiro da condução para voltar.
— Oi. Pera. Como assim, fugir da polícia? O que vocês estavam fazendo?
— Panelaço contra a ditadura, filha. Seu vô e bisavô eram comunistas.
Ainda não tinha aprendido o que era um comunista. Mas sabia o que era ditadura. Ditadura era quando pessoas eram presas e assassinadas no DOI-CODI.
Aprendeu o que era o DOI-CODI quando aprendeu a Lição 4: o que era depilação com cera.
— Mãe, isso dói.
— Sim, é coisa de DOI-CODI. Mas vai te deixar bonita.
E foi assim que aprendeu que, para ser bonita, precisava ser torturada. Desistiu de ser bonita.
Aprendeu sobre outras torturas enquanto dobrava meias:
— Esse amigo do seu vô era médico. Foi preso e torturado. E aí resolveram estuprar a mulher e a filha dele. Na frente dele. Depois, os três fugiram para a Argentina.
Elymar Santos cantava “Fica comigo essa noite. E não se arrependerás. Lá fora o frio é um açoite. Calor aqui tu terás.”
Açoite também era instrumento de tortura. Mas nos porões, gostavam de pau-de-arara. E choque elétricos.
Lição 5: Nunca saia de casa sem documento.
— Polícia primeiro mata, depois pergunta.
Lição 6: comunistas lutam contra ditaduras, estudam na USP e são artistas.
— Ninguém assistiu a final da Copa de 70 lá em casa. Estavam todos fazendo reunião subversiva, inclusive aquele político da tv tava em casa, mas na época ele estudava na USP. Tinha um que era músico e ficava tocando Geraldo Vandré.
Lição 7: vodka!
— Seu bisavô bebia demais. Gostava de vodka.
— Por que ele era comunista e vodka é russa?
— Não, filha, porque vodka não deixa bafo.
Já tinha aprendido essas e muitas outras lições quando começou a tomar decisões. O que queria fazer? Ser artista. Vou mudar o mundo com a minha arte! Aonde você vai aprender arte? Na USP! Aonde se faz revolução!
Mas achou sua primeira greve uma coisa de vagabundos. Ainda não sabia o que era greve. Aprendeu na greve na seguinte. Era inverno. Invadiram a reitoria. Depois aprendeu que não era invasão, era ocupação. Retomada. E fariam um protesto que consistia em caminhar nas ruas com gritos e faixas. Parar os carros e entregar panfletos. Achava aquilo chato e não ia ficar. Deu um beijo na amiga e foi embora.
Já sabia muita coisa sobre comunismo, sobre luta armada, resistência, roubos de bancos, tortura, censura, violência de Estado. E, ainda assim, ficou surpresa quando ouviu as bombas pela primeira vez.
BUM!
BUM!
Gritos.
BUM!
Sirenes.
Lição 8: você não pode abandonar seus amigos.
Correu. Mas não fugiu das bombas. Correu ao encontro delas. Seus pensamentos brigavam.
“Eles vão prender e matar você. Vão prender e matar você.”
“Mas minha amiga está lá.”
Correu sem ar. Correu com as pernas doendo. Correu com os pulmões ardendo. Os olhos lacrimejando. Correu sem enxergar.
“Não posso deixar fazerem isso”
“Você não vai encontra-la nessa bagunça”
Achou. A amiga estava com o rosto coberto com uma blusa. Seus olhos se cruzaram e a amiga acenou sorrindo.
— Puta que pariu, como que você tá sorrindo?
BUM! E fumaça. A polícia perfeitamente alinhada batia nos escudos com cassetetes. Como conseguiam andar tão rápido, tão certinho e com armaduras tão pesadas?
Correu. Parou. Tirou um tijolo da mão de um rapaz que estava chorando.
— Corre, seu idiota.
Correram juntos de mãos dadas.
Nunca soube o nome dele, nunca mais o viu.
Escondeu-se no mato. Podia fugir. Podia ficar segura.
Correu para junto dos outros.
Não ia fugir.
Subiu o morro ainda escondida pelo mato e alcançou o estacionamento, aonde usavam material da obra de saneamento para fazer uma barricada. Sentiu a algo passando do seu lado. Bomba. Usou o impulso da perna na corrida pra chutar pra longe. A bomba fez uma trilha de fumaça em forma de arco e voltou daonde tinha saído.
Um rapaz carregava a namorada no colo e tropeçou. Foi até eles. A menina não conseguia respirar.
Lição 8: depois de uma bomba de gás, não lave o rosto com água porque vai piorar.
Ficaram horas cercados. Bomba, bala de borracha e gás de um lado, pedras e ofensas do outro. Até que começaram as negociações entre professores e polícia e houve recuo do cerco até que a polícia foi embora. Finalmente podia ir para casa. Chegou tarde, suja, fedida, cansada e com dor no corpo.
— Mãe? Foi horrível! Vocês faziam isso sempre? Como aguentavam?
— Eu vi o que vocês fizeram na tv. Seus vândalos. Aquilo é coisa de bandido.
Lição 9: não existe só censura, também existe manipulação dos fatos.
— Vagabunda, você mereceu.
Lição 10: as pessoas mudam de opinião.