a natália foi a pessoa mais genial que eu já conheci. ela era capaz de escrever textos sinestésicos a partir de um simples descascar de laranja. era como se fosse mágica. em um segundo você estava lendo o que ela escreveu e no seguinte você estava sentindo o tremer da laranja em suas mãos, com uma faca de mesa de serrinha a contornar a esfera pequena sentindo o sumo da casca entrar em seu nariz depois de expelir seu líquido no ar.
era exatamente assim, uma mulher sinestésica.
ela não sabia andar de salto alto ou sentar-se com as pernas fechadas. ela não sabia a hora de parar de te explanar para as outras pessoas ou como rir baixinho num teatro lotado. ela não sabia ser delicada com as mãos nem como não tentar agradar as pessoas mesmo que ela as odiasse.
mas ela era uma boa amiga, uma ótima ouvinte, uma companheira sensacional. ela amava a mãe mais do que tudo, tinha amor imenso pelo miau, pelas tias e pela família materna. ela colocava músicas que você nem sabia que lembrava e que te pegavam em um trecho muito específico. ela fez tânia mara voltar para a memória dos jovens adultos do abc paulista.
ela saía de casa duas da manhã só pra te fazer companhia, brigava com a mãe dela se possível só pra te socorrer e ter certeza que tudo ficaria bem.
ela tinha uma voz tão potente, capaz de pintar quaisquer quatro paredes onde ela estivesse.
ela também tinha o dom magnífico que soltar indiretas por escrito que te faziam se sentir tão mal que as duas únicas opções possíveis eram pedir desculpas ou simplesmente ignorar, porque você sabia que era o jeito dela se expressar.
ela amava quase todos os artistas, porque ela cresceu sozinha e simplesmente inventou um jogo onde você tinha que ligar uma página da wikipédia na outra sem sair da aba do chrome ou pesquisar no google pelo celular. ela conhecia muitas coisas e amava aprender, embora parecesse que quando você a ensinava sobre algo, parecia constrangida em não saber do que você estava falando.
ela era especialmente louca pelos beatles, por tame impala e mac demarco.
ela foi fã das mais variadas variedades: gael garcía bernal, diego luna, josh hutcherson, john mayer, one direction, harry styles, restart, jogos vorazes, crepúsculo, robert pattinson, star wars, edward norton, as crônicas de nárnia, guns n' roses, rbd, sandy e junior...
quase sempre homens. acho que era uma maneira dela de conseguir lidar com a rejeição e falta de respeito masculinos que sofreu desde sempre até o último dia de vida dela.
ela nunca conseguiu juntar dinheiro.
ela nunca saiu de são paulo.
ela poderia ter ganhado emmys, grammys, tonys, oscares...
mas ela não estava conseguindo escrever.
a natália foi a primeira pessoa que eu conheci que morreu de tristeza. realmente de tristeza. a tristeza matou a natália. ela já estava morta quando o corpo dela parou de funcionar. ela já não saía da cama e preocupava as pessoas.
ela pediu ajuda para todos os amigos que ela considerava irmãos, mas quase ninguém se importou o suficiente.
a natália morreu de tristeza no ano em que ela jurou que seria o melhor da vida dela.
eu amava a natália, mesmo com a energia masculina tóxica que a rondava 70% do tempo.
eu queria que ela ainda estivesse aqui e amaldiçoo o buraco de duna que a sugou tão profundamente que a fez desaparecer.
eu queria que ela estivesse aqui, que abrisse os olhos, que visse o sol e as paisagens lindas que ela costumava desenhar aos sete anos.
queria que ela estivesse aqui para dar netos para a mãe dela, que o coração fosse menos duro e menos pesado.
queria poder abraçá-la e dizer que tudo vai ficar bem.
e isso era tudo que ela precisava. apenas um abraço e um conforto, um ombro amigo dizendo que tudo ia ficar bem. uma céline dion no fundo. era isso que funcionava.
mas eu cheguei tão tarde... eu sinto muito.
eu cheguei depois dos gritos, dos empurrões, das frases como "a vida é dura pra quem é mole" "você é fraca, não parece que é filha de quem é", "eu sei que você tem um problema, não precisa ficar chamando atenção", "as pessoas que são abusadas seguem em frente, porque você não consegue fazer o mesmo?"
no dia de hoje estou tão triste, tão desapontado comigo mesmo. como posso ser tão mesquinho ao ponto de querer que alguém assim continue vivo? nesse eterno sofrimento que nem remédio nem terapia fazem efeito mais...
eu só espero que ela seja amparada do outro lado.
e espero que deus me de forças para continuar seguindo em frente.