E a reação do Kamala apenas o fez rir e, mesmo que com uma gotinha de sarcasmo em sua risada, esta ainda saía de sua garganta em um tom totalmente doce e brincalhão. Concordava com a cabeça com o que o outro lhe dissera, risonho, dando de ombros, no entanto; não importava o que o mais baixo tinha a lhe disser sobre aquele fato, até porque ele mesmo não acreditava senti-lo. Não havia o que pudesse fazer; o sentimento humano era complicado de entender; e mesmo que não tivesse mais mortalidade, Christopher nunca deixou de ser um homem muito sensível.
Não fazia sentido algum, afinal. Por que gostava dele? Talvez a solidão da eternidade tivesse o deixado maluco, ao ponto de qualquer presença, humana ou não, fosse o suficiente para que o seu coração pudesse acolhê-lo carinhosamente. E mesmo que dissesse que a solidão nunca foi capaz de atingi-lo, estaria dizendo uma de suas maiores mentiras. Apesar de ter sido o que havia escolhido para a sua vida, por uma questão de proteção a si próprio, ainda assim, quando tem de visitar a cidade, sente a vontade quase incontrolável de procurar desesperadamente para uma companhia com quem pudesse passar a sua eternidade.
Entretanto, para pessoas normais, a eternidade é limitada.
Mas ainda assim, não deixava de ser irônico: um escritor que, se não fosse completamente anônimo, receberia um nobel da paz, gostar de justamente um Kamala; uma espécie de sombras negras vivas que se alimentavam de dor e desespero humano. Tudo que aquela peste havia lhe trazido, fora estresse por um tempo, até que se tornou sua pequena diversão; talvez por ter aprendido como irritá-lo de volta, acabando por deixá-lo ocupado em momentos que está sem nada para fazer.
No entanto, era incapaz de compreender o porquê de ter adquirido tal carinho pelo outro, ao ponto de a necessidade de abraçá-lo e beijá-lo ser tão grande ao ponto de tornar-se incontrolável até mesmo para o homem mais paciente que já existiu.
— Talvez você possa se tornar alguém legal no futuro, quando me amar de volta — fingiu estar falando sério, encarando-o com um semblante comum, prendendo a risada em sua garganta. — Aí você vai gostar dos meus abraços, dos meus beijos e até mesmo pedir por eles. Nós vamos nos enrolar em todos os lençóis da casa juntinhos e vamos ter muitos filhotes — e não aguentou, acabou caindo em uma profunda gargalhada ao dizer a última frase.
kamalas, supostamente, não eram para ter quaisquer sentimentos; além da necessidade constante da dor alheia, para alimentar-se. o próprio príncipe das trevas, de certa forma, era uma representação perfeita daquilo que todos de sua espécie eram. e, ainda assim, eddie acreditava que ele podia sentir - apenas optou por não fazê-lo. talvez, tivesse pegado aquilo do seu superior. sabia que sentia. apenas não sabia colocar aquilo em palavras.
os dois apenas se mantiveram em um curto silêncio, eddie encarando-o por entre as diversas camadas de tecido cujo o enrolavam. sua cabeça divagava; e por mais que odiasse todo aquele contato, não conseguia sentir a necessidade de machucá-lo como uma forma de revidar. o deixava incomodado, claro; aquilo não era possível de se evitar, era de sua natureza, afinal. era quase como um gato arisco, que não deixava que ninguém o tocasse. e, do nada, lhe apareceu um homem, que por mais que o perturbasse, o kamala simplesmente não conseguia mais fugir. mas não porque estava preso- e sim, por quase sentir que encontrou seu lugar.
o rosto mais uma vez se contorceu em uma careta ao ouvir o que fora pronunciado pelo maior. sabia que muito provavelmente era uma brincadeira, mas ainda assim, lhe dera certo desgosto. revirou os olhos ao que ele caiu na gargalhada, se soltando lentamente e sem dificuldades dos lençóis, desfazendo o aperto, o casulo se desmanchando aos poucos. ainda assim, só pôs-se sentado, o corpo ainda coberto do quadril para baixo, exibindo apenas o tronco. encarava-o com uma expressão neutra, mas que claramente o julgava em silêncio.
❛ — vocês humanos têm ambições esquisitas. ❜ disse, com o máximo de sarcasmo que pôde colocar na própria voz.