The end is where I begin. | Epilogo.
                                 Nova York, novembro de 2025.
Alec espreguiçou-se, sentindo o corpo dolorido apĂłs um longo dia de trabalho. NĂŁo que estivesse reclamando, nem sempre o trabalho era divertido, mas ele gostava muito do que fazia e nunca se arrependia das horas gastas ali. O telefone tocou e ele o atendeu prontamente, respondendo as perguntas de sua secretĂĄria e avisando que ela jĂĄ podia ir para casa. Costumava ser bastante rĂgido, nĂŁo sĂł com os empregados, mas principalmente consigo mesmo. No entanto, se esforçava para ser justo e manter um relacionamento razoĂĄvel com todos, o que significava deixar sua secretĂĄria ir embora antes dele para encontrar a famĂlia.
Por sua vez, ele nĂŁo tinha muito para o que voltar â sua gata poderia esperar algumas horas para dormir em seu colo; e nĂŁo havia nenhuma esposa ou filhos que ansiassem por sua presença, tampouco. NĂŁo se considerava solitĂĄrio, nunca fora alguĂ©m que precisava de companhia constantemente e considerava sua vida bastante confortĂĄvel.
AlĂ©m do mais, tinha sua irmĂŁ, Clarissa, que nunca estava longe e a famĂlia dela a quem aprendera a apreciar. A passagem de Clary sempre era livre no escritĂłrio e ele atĂ© mesmo lhe dera uma chave. Sabia bem como ela se preocupava com o fato de ele terminar como o pai, dando mais atenção aos negĂłcios do que a famĂlia, e por isso Alec se esforçava para demonstrar que independente de quanta atenção a empresa lhe tomasse, Clarissa sempre seria uma prioridade para ele. Afinal, ela era, de muitos modos, a sua prĂłpria definição de famĂlia e nunca poria isso em risco.
Obviamente que ainda tinha seu pai, Valentim, a quem aprendera a respeitar e atĂ© mesmo a amar com o passar dos anos. Mas a relação deles nunca poderia ser aberta e simples como a que tinha com a irmĂŁ. A madrasta entĂŁo, era um caso a parte, considerava um avanço conseguirem ficar no mesmo ambiente sem discutirem e nĂŁo se iludia que as coisas um dia evoluĂssem. Sua avĂł, que fora a Ășnica parente que conhecera desde pequeno, morrera no ano passado. Ele sentira a perda, mas nĂŁo fora algo que o chocasse ou lhe fizesse lamentar pelo resto de seus dias, a relação que sempre tinham tido era o tipo de amor limitado pelos laços de sangue, mais como uma obrigação do que um carinho genuĂno.
Quanto a amigos, tinha um nĂșmero bom deles. NĂŁo muitos, mas o bastante e todos eram pessoas que tinham conseguido sua confiança com o passar dos anos.
Finalizou a planilha e salvou o arquivo, desligando o laptop e guardando-o na maleta a seguir. Logo apanhava seu blazer do encosto da cadeira e o vestida, pegando a maleta e aprontando-se para partir. Como sempre, verificou uma Ășltima vez se tudo estava devidamente em seu lugar e deixou o escritĂłrio, trancando-o ao sair. Enquanto caminhava atĂ© o elevador, nĂŁo viu ninguĂ©m, o que nĂŁo foi surpresa jĂĄ que passava do horĂĄrio de expediente normal. Nunca planejava fazer hora extra, mas quase sempre ficava atĂ© mais tarde, simplesmente por nĂŁo conseguir deixar nada inacabado para trĂĄs. Entrou no elevador vazio e apertou o botĂŁo que o levaria a garagem. Seus ombros ainda doĂam e se ele tivesse bom senso, tiraria fĂ©rias logo â o que obviamente nĂŁo faria, tinha um grande negĂłcio em vista e nĂŁo conseguiria se afastar da empresa atĂ© vĂȘ-lo efetuado.
Seus passos ecoaram pelo estacionamento e ele jogou a maleta no banco do carona do carro, antes de entrar no mesmo e dar a partida. Cumprimentou o segurança que vigiava a saĂda com um aceno e mergulhou no transito. Os pensamentos divagavam conforme dirigia pelas ruas da cidade. Pensava sobre os negĂłcios, mas tambĂ©m sobre como certas coisas haviam mudado muito nos Ășltimos anos e como outras ainda permaneciam iguais. Talvez em parte a falta de mudança no setor amoroso fosse culpa sua, como certas vezes seus amigos lhe diziam e ele se recusava a admitir. JĂĄ estava com 31 anos, e alguns diriam que jĂĄ era hora de se estabelecer e formar uma famĂlia. No entanto, hĂĄ muito ele parara de sequer cogitar essa possibilidade, julgando ter tido sua cota de desilusĂ”es. Agora se perguntava se nĂŁo deveria tentar, sua vida era muito confortĂĄvel, mas ainda sentia que faltava algo... Suspirou. Mesmo que quisesse, nĂŁo era como se um dia jĂĄ tivesse sido bom nesse tipo de coisa e nĂŁo poderia simplesmente sair ligando para suas escassas ex-namoradas sĂł porque as vezes sentia vontade de ter seus prĂłprios filhos.
Suas mĂŁos giraram o volante para fazer uma curva fechada, sua mente sĂł parcialmente atenta a estrada. Quando um vulto surgiu a sua frente, sĂł a reação quase automĂĄtica de afundar o pĂ© no pedal do freio e o fato de estar em baixa velocidade o impediu de colidir. Por um momento ele sĂł segurou firme o volante, respirando ofegante por conta do susto. Mas o choque logo passou e ele abriu a porta do veiculo, colocando um pĂ© para fora e erguendo-se para fitar o passante. âVocĂȘ Ă© retardado?! Eu podia ter te matado e me matado no processo!â Gritou irritado, sĂł entĂŁo a jovem que quase atropelara virara-se para encarar seu olhar. Os xingamentos que estivera pronto para proferir ficaram presos em sua garganta e tudo pareceu ficar estĂĄtico por um momento. âVocĂȘ.â A palavra saiu de sua boca no mesmo momento em que o choro de uma criança rompia o silencio noturno.








