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a gente se esbarra nos mesmos lugares
porque o rio de janeiro pra gente é sempre a mesma viagem
as mesmas esquinas, as mesmas histórias
a rua só deixou de contar
a nossa
by Gustavo Minas
Isso me definiu.

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"É triste explicar um poema. É inútil também.
Um poema não se explica. É como um soco.
E, se for perfeito, te alimenta para toda a vida.
Um soco certamente te acorda e, se for em cheio,
faz cair tua máscara, essa frívola, repugnante,
empolada máscara que tentamos manter
para atrair ou assustar.
Se pelo menos um amante de poesia foi atingido
e levantou de cara limpa depois de ler
minhas esbraseadas evidências líricas,
escreva, apenas isso: fui atingido…
Porque há de ser festa aquilo que na Terra
me pareceu exílio:
o ofício do poeta.
Hilda Hilst
As coisas que procuro
Não têm nome.
A minha fala de amor
Não tem segredo.
Perguntam-me se quero
A vida ou a morte.
E me perguntam sempre
Coisas duras.
Tive casa e jardim.
E rosas no canteiro.
E nunca perguntei
Ao jardineiro
O porquê do jasmim
– Sua brancura, o cheiro.
Queiram-me assim.
Tenho sorrido apenas.
E o mais certo é sorrir
Quando se tem amor
Dentro do peito.
Hilda Hilst
fluxo-floema (1970), hilda hilst
Pra onde vai toda energia do amor depois que ele chega ao fim? O que se faz do espaço vazio daqueles objetos, cheiros e sons cheios de significado, de uma língua que finalmente morre? "(Entre tantas coisas numa separação é uma língua que se extingue") Sempre morre? Amar precisa mesmo ser esse sempre quase-morrer e depois de novo: ufa! ainda bem que te encontrei?!
Tenho esse problema com a palavra eterno desde sempre. Eterno, Drummond. Eterno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo mas que com tamanha intensidade se petrifica e nenhuma força o resgata. Queria que o tempo parasse assim. Naquele maldito instante que não se sabe ainda da potência das coisas surgindo. Da euforia inocente de se sentir apaixonada. Sentir é eterno, mas não é pra sempre. Sei de cor dizer quais são as coisas que me prenderam em todas as paixões que eu tive. Eternas. Se petrifica e se desfaz como toda matéria orgânica. Gostaria de sentir de novo o doce na boca de um amor pungente, mas que ainda me beije timidamente. Mas não. Também não quero. Não quero que eventualmente morra em mim de novo essa língua-de-dois que eu nunca mais vou poder falar. Na qual eu tenha que fingir também que ela não existe mais, até não ser grande coisa. Até restar só uma camada fina no meu cérebro, o resto de amor que eu fui. E quando deixar de ser, e eu finalmente poder falar dela sem que se associe a ninguém, assim como tento fazer agora num caderninho surrado, todas as fonéticas dessa língua vão soar completamente outras daquela que eu fingi muito que não existia mais pra que ela fosse embora sem arrastar tudo. É verdade, o amor se torna outra coisa até não ser mais uma língua. Até ser só alguma coisa que as vezes não tem mais nem nome. Até ser só eu e o caderno surrado que eu tenho que usar porque a escrita é minha fuga e me ajuda a organizar minha vida.
Eu sei que eu preciso dizer que eu vou viver muitos outros amores, acredito veementemente nisso também, sei que haverão outros idiomas a serem inventados. Sei que eu mereço. Não, não é sobre isso. O problema é que não vejo mais em mim a inocência de tatear uma língua completamente desconhecida e torná-la minha também.
Talvez você não entenda muito bem o que eu quero dizer, nem mesmo eu entendo enquanto escrevo, mas parece que existe bem ali onde estavam as borboletas, só tem algumas vespas e aranhas. Não existe coisa mais clichê do que uma pessoa que escreve dizendo que a palavra é como o alívio de uma tremenda tormenta. Mas é isso, sinto as aranhas saírem da minha boca e zumbido das vespas. Gosto dos piegas mesmo, nunca sorrio sem mostrar os dentes.
Escrevo pra não me sentir só.
Hoje, especificamente, eu não consegui fingir que não sei dessa língua, e coloco aqui porque eu não posso me esquecer de sentir ela partindo. Fingir não senti-la na garganta já me têm sido trabalhoso demais, e só existem duas formas de lidar com a tormenta: ou a afundo e morrem comigo todas as palavras, ou eu tento vomitar tudo que resta antes que suma. Pensei que talvez registrar as coisas mais tristes (agora que se tornaram tristes) dessa língua me ajudem a respirar melhor. Não vou escrevê-las aqui, é claro.
A única coisa que me resta dizer é que angústia de nunca mais amar novamente a plenos pulmões, línguas, canções e danças me abala às vezes. Não tenho me abalado tanto, é verdade. Me abalo e não sai choro. Choro e não me abalo. O que dói não é ter ido embora. Eu te amo ainda como quem partiu. Te amo como se em algum momento você fosse chegar e eu pudesse falar essa língua inocente que a gente criou. Tenho dormido cedo, comido bem, não me falta nada. Não procrastino, e por não procrastinar me sobra tempo pra gastar com as palavras entocadas da nossa língua.
E eu não quero que você volte pra que eu te ame. Eu não quero que você mude. Não quero eu mudar também por você. Na verdade, te quero bem longe de mim porque tudo que você fala tem gosto amargo na minha boca. Escrevo isso só agora porque agora existe apenas a minha lingua e ela é minha régua no mundo. Mas na última vez eu disse que eu nunca mais ia me deixar viver isso. Não há em um pensamento sequer resquícios da ingenuidade que eu te entreguei com as mãos ao te tatear no escuro confiando que a sua superfície mais áspera ainda seria boa. Não poderia não ser boa. Te amei com pressa. Te amei devagar. Te amei doce. Claro, te amei amargo também, até que eu não gostasse mais desse gosto. Eu gosto de café amargo. Igual eu gosto de levar um susto da vida pra chacoalhar as coisas. Como passar uma onda e não sentir os pés no chão onde achei que era raso. Gosto de perder o controle pra retomá-lo. Mas o estado de pânico que a gente se colocou não era só perder o controle. Era outra coisa. Algo atrás da nuca parou de me arrepiar.
Agora escrevendo, percebo que essa ingenuidade que te entreguei é que sinto falta. Percebe como a escrita me cura? Parti de você de novo. Eu julgo injusto não ter mais ela. Essa inocência, que uma vez me disseram que era um dom amar de forma tão doce. Sabia? Já ouvi que eu não deveria nunca deixar de amar ninguém de forma tão doce. Eu era boa demais e mesmo assim fiquei sozinha. Não sabia que agora esse doce na minha boca é repugnante. Enfim, ainda acredito em todas as coisas lindas do amor, mas essa ingenuidade foi embora. Acho que eu queria mesmo era sentir o devir de amar com pressa inventando outras línguas por aí, assim como eu também te amei.

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quando eu penso em proteção, também penso na "a bença?" de vó, de tia, penso no cheiro delas de leite de rosa com o café ou chá matte. penso nas horas mal dormidas sonhando os meus sonhos, intercedendo com fé ou sem fé pelos meus caminhos. e eu tardei muito a reconhecer que nesse processo, sou elas e eu. somos nós e sempre seremos nós. vai chegando mais gente e até indo, mas sempre nós. mas não consigo ser romântica ao ponto de achar que elas estarão pra sempre aqui porque a morte é intrínseca a nossa carne. infelizmente, tomar consciência disso foi como engolir um bolo de cabelo a força. nojento. entalado. nunca comi um bolo de cabelo humano a força, mas imagino que seria tão vergonhoso ao ponto de nunca falar mais sobre. tento não falar e sinto azia nesse momento, deve ser o cabelo. enfim, a única coisa, depois delas, que me permanece são as palavras. me permanece, porque eu que sou a estática nessa relação. não consigo deixar de fazê-las serem, quando pego meu caderno surrado elas me guiam como se fosse o prenúncio de quem eu sou, de quem eu serei e quem já fui. quando tudo, tudo foi embora, buscar uma palavra que descrevesse o inconsolável era difícil, e sem esboçar som nenhum, as palavras foram minhas amigas íntimas de longos anos. são nelas que me deito, que me protejo, que me torno vulnerável. e não falo apenas daquelas que soam lindas, ou até mesmo as que soam divinas, porque as vezes são as palavras mais profanas que me interessam. ler e tomar consciência das palavras é antes de tudo inconveniente. pequena, ávida, eu lia pela janela do ônibus tudo que via na cidade, e é inconveniente não conseguir mais não ler tanta coisa. tanta, tanta coisa. tudo que eu continuo lendo ainda me atravessa como uma água que penetra torrencialmente. me reconheço na escrita porque meu caminho, cheios de pensamentos solitários - mas não mais sozinhos - me fizeram cansar de tentar parecer ser forte. e é hipócrita, porque quando escrevo me sinto forte, me sinto até viva, se eu me esforçar até esqueço o bolo de cabelo passando na garganta. me sinto protegida. mesmo torrencial, as palavras me vem como oração. são meu amuleto. eu não conseguiria fazer de outra forma.
o primeiro chegou como quem queria muito, e me mostrou como é ser odiada. o segundo, chegou querendo pouco e me mostrou como era ser amada com calma, com um cheiro de casa que só tinha naquele espaço do cangote. mas parece que eu quero outra coisa, não sei ainda o que é.
e ele, não sabia que o amor é coisa que se dá de graça, e nem existe cheque-especial do amor. mas é assim mesmo. como dizia o drummond, mais ou menos assim: o amor um dia beija, no outro não, no seguinte é domingo e depende da hora que vai ter ônibus. e foi no domingo que percebi que o amor já não me beijava há muito tempo, mas eu procurava os lábios dele ainda. eu juro que eu procurava. só não tinha mais nada ali.
saber que cada pessoa que nasce no mundo vai também ter o coração partido assim como eu,
um dia, assim como eu, vão olhar pra alguém e não enxergar mais aquilo que pegava seu mundo pelos ombros e chacoalhava, dizendo: é urgente o amor
amar depressa, como se o amor fosse sempre escorregadio dos meus dedos
saber que definitivamente isso é comum entre todas as pessoas do mundo e que a pressa também vai passar,
faz eu sentir alívio. um dia eu também vou esquecer você.
adit @ blumarine ss22

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JJ Manford (American, b. 1983)
Interior with Alfredo Volpi & Zebra Rug, 2021
Oil stick, oil pastel, and Flashe on burlap over canvas
“Kiss Me Like You Mean It” by Rankin