A precisão dos passos e o silêncio cortante no olhar denunciam que VIKTOR BORISOVICH ZHARKOV não está no Instituto Valentinov por acaso. Sendo leal e obsessivo, foi escolhido — ou amaldiçoado — como um dos observados de Volkov, selado entre sombras e expectativas antigas. Aos vinte e três anos, cursa o último período de FILOSOFIA POLÍTICA, movendo-se entre os corredores como parte do cenário. Filho de uma origem elitista ligada à indústria de mídia e comunicação, sua reputação circula com mais força que seu nome e dizem que sua semelhança com TIMOTHÉE CHALAMET já virou lenda entre os estudantes do dormitório. Seus amigos mais íntimos o chamam de espelho, você pode encontra-lo em alguma aula do CLUBE DE DEBATE.
informações básicas
NOME COMPLETO viktor borisovich zharkov.
APELIDO vitya.
GÊNERO homem cis (ele/dele).
ORIENTAÇÃO SEXUAL heterossexual.
DATA DE NASCIMENTO 29 de dezembro.
LOCAL DE ORIGEM tver, rússia.
FAMÍLIA boris zharkov (pai), irina shuvalova (mãe), maskim zharkov, nadia zharkova, anton zharkov (irmãos mais velhos).
personalidade
Apesar do jeito quieto na maior parte do tempo, Viktor naturalmente criou uma relação profunda com os membros da Decápolis, o que faz com que ele demonstre suas emoções mais abertamente para alguns deles, ainda que sem querer. Pode ser explosivo quando se irrita e surpreendentemente leve quando está feliz. Na frente de Volkov, tentava conter suas emoções ao máximo, mas era comum ver seus olhos marejados, orgulhosamente lutando contra as lágrimas sempre que o líder o humilhava na frente dos outros.
Filho mais novo do fundador de um império de mídia e comunicação, Viktor tem poucas lembranças da época em que seu pai ainda era um idealista na visão que tinha para o seu negócio antes de se tornar obcecado pelo jogo capitalista e precisar se alinhar às vontades do governo. Sua mãe, descendente de uma família de origem aristocrata e divorciada do magnata há catorze anos, é uma autora literária que atualmente sofre retaliações pelo teor sutil de protesto em suas obras.
Viktor morou com o pai pelos seis anos que antecederam seu ingresso no Instituto Valentinov. Na época, o garoto soube apenas que sua mãe precisou passar um tempo fora do país, mas ouvia cochichos entre seus irmãos mais velhos sobre seu pai ter sido responsável por inflamar um discurso político contra ela nos bastidores do governo. Com apenas nove anos na época, o afastamento o destruiu por dentro. Viktor passou os sete anos seguintes sem ver a mulher pessoalmente.
Ao longo dos anos, lidando com a dor da perda de maneiras pouco saudáveis, passou a julgar as ações da mãe como estúpidas e egoístas. Seu ponto de vista, fruto de uma óbvia frustração, escondia o fato de que era um enorme admirador do trabalho da mulher. Eventualmente, ela retornou ao país, mas Viktor criou o hábito inconsciente de evitá-la. Sentia que eram diferentes demais agora. Enquanto ela usava palavras bonitas para tentar mudar o mundo, ele considerava legítimo passar por cima de qualquer um para conseguir o que queria.
No instituto, ficou conhecido por ser quieto, competitivo e dono de uma determinação quase obsessiva. Antes de Volkov, sua maior competição era ele próprio. Seu incômodo em ser pior do que os outros apenas se acentuava se não fosse capaz de superar os próprios limites. O jeito contido talvez tenha sido a única forma que encontrou de controlar as emoções fortes que sempre o dominaram e que, inevitavelmente, enxergava como uma fraqueza.
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A culpa que o consumia desde o interrogatório tornava difícil para Viktor continuar levando seus dias com naturalidade. Sabia que não era o único no grupo a carregar aquele tipo de pressão desde a morte de Volkov, mas tinha sido o único estúpido o suficiente para piorar toda a situação, não apenas para Anátema e Dente-de-Leão, mas para todos os oito restantes, inclusive ele próprio.
Ainda sentia o ardor das feridas causadas por Eremita quando avistou Ágata enquanto fazia seu caminho em direção à Ala Norte. "Nyx..." não foi intencional a maneira como seu nome soou como um pedido de desculpas. Ele já havia expressado o quanto se sentia arrependido, mas não tinha a intenção de parecer fraco. Não queria demonstrar que aquela situação realmente estava fora do seu controle. Ele não tinha muito a dizer que já não tivesse sido dito antes, mas sentia uma necessidade de consertar as coisas, a começar pela forma como seus colegas o viam naquele momento. "Eu sei que você tá irritada, mas eu prometo que farei o que for preciso pra tirar a gente dessa," falou com segurança, embora não soubesse se era algo que realmente poderia cumprir.
Alexei estava com a blusa grudada ao corpo, o suor secando aos poucos enquanto cruzava o corredor principal em direção aos aposentos particulares. Ainda segurava a máscara de esgrima na mão direita, os dedos um pouco rígidos do treino intenso. Detestava aquele vestiário coletivo, os corpos expostos, os ruídos, os olhares demais. Preferia o silêncio do próprio banheiro, onde podia se despir de tudo da roupa, do papel, das máscaras. Ao dobrar o corredor dos dormitórios, quase tropeçou ao ver alguém encostado à sua porta.
Encostado casualmente à parede ao lado do seu quarto, estava Espelho. Vox parou, o cenho franzido, limpando a testa com as costas da mão. “Espelho.” O nome saiu com um peso involuntário. “O que você quer?” A voz não era agressiva, mas havia cansaço e uma irritação sutil como se o simples fato de encontrá-lo ali, naquele momento, fosse um incômodo desnecessário ao fim de um dia já longo demais.
Viktor não sabia quanto tempo ficou esperando, mas, pelo que pareceu uma eternidade, tentou não pensar demais sobre o motivo que o havia levado até ali. Quando Vox finalmente apareceu, ele desencostou da parede, fazendo o possível para não parecer aflito. Levou algum tempo para selecionar, cuidadosamente, suas palavras. "Tem algo que eu preciso dizer," falou, com certa dificuldade, da maneira mais vaga que conseguiu. "Não a você especificamente, mas ao grupo," esclareceu. Por mais que a situação fosse desconfortável, o peso da culpa pelo que havia feito a Liliya e Grigori era a única coisa que o guiava naquele momento.
Grigori também não fazia ideia de onde estava, nem por quanto tempo haviam andado ou sequer para onde podiam ir. O corpo estava exausto do esforço daquele dia, e a noite congelava até os ossos. Só o fato de ainda ter ânimo para caminhar já deveria ser surpreendente, mas não conseguia se prender a isso. Estava ocupado demais aproveitando a sensação. Ou melhor, todas as sensações que o atravessavam até então. Muito mais intensas do que costumava experimentar.
Talvez por isso se sentisse confortável. Confiante, até. Confiante o suficiente para propor aquele tipo de brincadeira, coisa que jamais faria em um dia comum. Mas havia algo naquela leve embriaguez da mente e do corpo que o fazia acreditar que podia tudo. Que as consequências, especialmente as morais, não o alcançariam. " Quase morri uma vez, tentando salvar minha irmã. " Falar da família nunca era fácil. Era um território cheio de feridas mal cicatrizadas. Mas, naquele instante, o peso parecia menor. Como se a confissão fosse só mais uma entre tantas. " Nós subimos no telhado da casa da minha avó pra fumar escondido. E ela chegou perto demais da beira. " Ele fez uma pausa. Ainda tentava acreditar que aquilo não tinha sido de propósito. Que sua irmã não queria mesmo cair. Que só estava testando os limites, como ele fazia agora. " Eu tinha... 13 anos, acho. "
Sua expressão se tornou séria aos poucos. Não podia evitar se sentir tocado com a revelação que Grigori fazia e, por um momento, se questionou se ele próprio teria a coragem de fazer o mesmo por alguém que ele amava. Talvez levasse um tempo para chegar a alguma conclusão sobre aquela pergunta. "Você era muito novo..." observou mais para si próprio. "Deve ser muito grato aos seus reflexos e pensamento rápido," imaginou, trazendo de volta uma certa leveza aos seus próprios comentários. Quando virou o rosto para Grigori novamente, não o olhou com pena, apenas indagou com uma curiosidade sincera. "São só vocês dois?" Sua voz soou leve. "Devem ser bem próximos," riu fraquinho após ouvir a própria observação, percebendo que talvez fosse uma conclusão óbvia pelo contexto que o rapaz havia dado.
Era quase manhã. A luz azulada do crepúsculo começava a rasgar a escuridão das janelas do hotel, e os corredores estavam mergulhados naquele silêncio pesado que só vem depois de um ritual quando o corpo pesa, a mente gira e o mundo parece suspenso entre o sagrado e o profano. Alexei caminhava devagar, ainda usando a camisa escura manchada nos punhos. O cheiro de incenso e produtos químicos ainda parecia grudado em sua pele, e por mais que estivesse exausto, o sono não vinha. Ele precisava de um cigarro, talvez, ou apenas de um pouco de ar fresco.
Foi ao virar o corredor que deu de cara com ele. Espelho.
Normalmente, Alexei apenas desviaria o olhar. Sempre considerara Espelho um incômodo silencioso, alguém com quem preferia não se envolver. Mas algo ainda queimava dentro dele — algo que Espelho havia dito antes do ritual. Palavras jogadas como veneno, disfarçadas de provocação, que agora vinham à tona com gosto amargo.
Dessa vez, Alexei não passou reto.
Parou bem à frente de Espelho, obrigando-o a estancar os passos. Os olhos azuis de Alexei, ainda carregados pela intensidade da noite anterior, fitaram os dele com firmeza, sem vacilar. “Você acha que pode falar o que quiser, não é?” Sua voz saiu baixa, mas com uma clareza afiada como vidro. “Acha que está acima das consequências só porque se esconde atrás de sarcasmo.” Alexei não esperava uma resposta. “Eu sou o escolhido de Volkov.” Continuou, dando um passo à frente. “Você pode não gostar disso. Pode duvidar disso. Mas é fato. E você faria bem em lembrar disso antes de abrir a boca da próxima vez.” Então Alexei apenas respirou fundo, ajeitou os óculos no rosto e disse, com a voz gélida. “Cuidado com as palavras, você pode não acreditar em destino, mas eu acredito em consequências.”
Viktor não sabia ao certo quanto tempo havia ficado fora do seu quarto, já tendo descartado a improvável possibilidade de conseguir pegar no sono aquela noite. Quando finalmente se levantou para voltar aos seus aposentos foi simplesmente porque já tinha se cansado de observar o movimento fraco do saguão do hotel àquela hora da madrugada. Caminhava até seu quarto com um semblante tranquilo até Vox aparecer em sua frente — com aquele olhar de quem não o deixaria em paz até terminar o que quer que tivesse para fazer — e então Viktor deixou escapar um suspiro derrotado. Sabia que tentar usar qualquer uma de suas desculpinhas não funcionaria agora com aquele Alexei.
Apesar do cansaço, Viktor não vacilou. Manteve a postura firme enquanto ouvia as palavras duras do colega como se elas não estivessem sendo usadas para atingi-lo diretamente. Seus lábios se curvaram em um sorriso discreto e um tanto provocador ao ouvir sobre a predileção de Volkov por Vox. Era sua maneira de disfarçar o quanto aquilo, na realidade, o fazia invejá-lo. "Eu expressei meu pensamento, Vox, e, para sua informação, ele ainda não mudou," controlava o tom para que sua voz não soasse mais carregada do que gostaria. Embora a proximidade o incomodasse, Viktor manteve os pés fincados exatamente onde estavam. "Todo mundo já tá cansado de ouvir que você é o escolhido, mas você não é Volkov," de modo arrastado, repetiu o que já havia dito a ele algumas vezes antes. "Me desculpe por achar que você não tem o que é necessário para substituí-lo como líder, mesmo que temporariamente," ironizou, sem levantar o tom de voz. Sabia como o peso daquelas palavras podiam ser mais fortes do que qualquer grito. Por mais que ele sentisse um teor de agressividade, as palavras de Alexei não o atingiram. Podia invejar sua função dentro do grupo, mas gostava de pensar que, apesar disso, ainda era superior a ele. "Isso é uma ameaça?"
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⏾⋆.˚ Permanecer fincada ao chão a confortava, mas a possibilidade de fazê-lo na companhia de alguém que despertava sua confiança lhe parecia ainda melhor. Por este motivo, suspirou com alívio ao ver Viktor se deitar ao seu lado, sem que precisasse se humilhar com um pedido formal. Atraído pela pergunta, seu olhar se encontrou com o dele, agora na mesma altura. A visão do semblante alheio era muito mais nítida àquela distância. O interpretava como um bom rapaz, talvez bom demais para estar ali, sem sua companhia. ── Concluí que não faço a menor ideia. ── A liberdade para ser sincera era estranha a ela, causando em Sofiya um desconforto sutil, que se perdia em meio à inquietação acentuada que experienciava ali. Inconscientemente, sua mão ensaiava alcançar a dele, causando um resvalar suave entre seus dedos. ── Talvez por essa sensação estranha ainda estar alojada aqui. ── O indicador oposto ao rapaz apontou para a própria cabeça.
Atraídos pelos movimentos que os lábios dele performavam enquanto falava, seus olhos pareciam hipnotizados por eles, tal como tivessem encontrado um espetáculo psicodélico de luzes em meio ao breu. Apesar disso, não se deixava distrair demais, ainda absorvendo cada uma de suas palavras. Preocupada com o que poderia poderia significar o consternamento de Viktor, seu cenho se franziu. O movimento negativo com a cabeça não confirmava a inocência no alívio que o acometia, mas sua ausência de propriedade para oferecer uma resposta satisfatória. Quem era ela para censurá-lo, quando, em certas ocasiões, também preferia a ausência de Volkov? ── Por que diz isso? Se sente sobrecarregado? Arrependido? ── Sussurrou em retorno. Não tentava ditar os sentimentos dele, apenas listando possíveis motivações para a insegurança e o desejo que revelava com tanta honestidade.
O rapaz deixou escapar um riso fraco com a resposta. Não sabia se o humor estava na sinceridade sem filtros da afirmação ou na forma como ele próprio se identificava com ela. Uma certa melancolia voltou à sua expressão quando ouviu Sofiya compartilhar o que sentia. Foi em um movimento quase involuntário que seus dedos tocaram o rosto dela suavemente, afastando uma mecha de cabelo que repousava desleixada em sua testa. Uma mera desculpa para que pudesse se sentir mais próximo a ela. "Teremos tempo para processá-la nos próximos dias," o tom era tranquilo, como se quisesse passar para Sofiya aquela mesma sensação. Por um instante, na tentativa de tranquilizá-la, quase conseguiu se convencer de que tinha domínio das próprias emoções.
Viktor franziu as sobrancelhas enquanto negava com a cabeça as hipóteses levantadas. Não o fazia de modo julgador, aquelas palavras simplesmente não passaram pela sua cabeça enquanto pensava no motivo pelo qual preferia manter distância de Volkov. "Desvalorizado, talvez," falou, incerto, estudando como se sentia sobre aquela palavra. Poderia continuar: testado, humilhado, diminuído; mas optou por não dizer aquilo em voz alta. "É como se eu fosse bom o suficiente para entrar no grupo, mas não para continuar nele," explicou. Na maior parte do tempo, ele usava esse desconforto a seu favor. Sabia que Volkov o tratava assim para que ele pudesse se tornar alguém melhor, se superar. Naquele momento, porém, era reconfortante desabafar sobre os aspectos negativos daqueles sentimentos com Sofiya. "Às vezes, eu sinto que estou prestes a descobrir o que finalmente vai fazê-lo ficar satisfeito comigo e então ele me prova o contrário," havia uma fragilidade evidente em sua expressão quando olhou para ela novamente, mas Viktor não parecia incomodado em expor isso. "Você não sente o mesmo?" Quis saber.
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ㅤㅤㅤㅤO cigarro entre os dedos parecia a única coisa no mundo que não estava escorrendo. Tudo ao redor tremeluzia como se fosse feito de tinta fresca. As cores se invertiam, mais vivas e brilhantes do que deveriam, e seus passos pareciam afundar levemente no chão. Por isso os tragos vinham lentos e longos, como se cada puxada o mantivesse ancorado à realidade. Havia algo reconfortante na familiaridade da nicotina entrando no corpo, e foi por isso que não apenas ofereceu o cigarro a Viktor, mas o levou até os lábios do outro e segurou ali, com cuidado, até vê-lo tragar.
Naquele instante, parecia que todas as portas do mundo estavam abertas. Poderia fazer qualquer coisa, mesmo sabendo que precisariam voltar para o hotel antes que alguém do Instituto desse por falta deles. Mas aquilo era um problema do depois.
Ele olhou para Viktor, olhos marejados pelo vento frio, mas um sorriso travesso brincando nos lábios. Apertou o casaco mais junto do corpo. " Acha que conseguimos chegar em algum dos cais para ver o Neva de pertinho? Aposto que está lindo uma hora dessas... " Comentou em um tom sonhador que não aparecia com frequência. " Podemos ir trocando segredos no caminho. Já fez isso antes? " Parecia engraçado naquele momento, contanto com a alta possibilidade de não lembrar de mais de metade da noite no dia seguinte.
A sensação do cigarro tocando seus lábios foi o que trouxe Viktor de volta para a realidade. Ele tragou com vontade, apreciando a forma como a fumaça queimava sua garganta em uma sensação estranhamente reconfortante. Só então levou o olhar até Grigori, como se quisesse confirmar a identidade de quem o acompanhava. Soltou a fumaça com uma risada desleixada e um certo alívio ao notar que se tratava de um rosto familiar. "Não devemos estar muito longe," encorajou a ideia, ainda que não soubesse ao certo onde realmente estavam. Ele estreitou os olhos, num esforço inútil de reconhecer qualquer coisa que pudesse fazê-lo se localizar, mas a sugestão de Grigori o fez virar o rosto novamente. "Nunca," admitiu, achando estranho que alguém pudesse se divertir compartilhando segredos, mesmo que de brincadeira. "E você? Tem algo a confessar?" Perguntou em um tom instigador. Em outras circunstâncias, talvez Viktor tivesse apenas desconversado, mas a ideia parecia divertida o suficiente naquele momento. Desde que, é claro, não fosse ele a começar.
⏾⋆.˚ O cuidado que encontrava nas palavras do rapaz colocou um sorriso sutil no semblante exaurido. A princípio, como resposta, os dedos frios tocaram o espaço ao seu lado, o convidando para se sentar ou deitar ali — como preferisse. Naquele momento, a companhia de Viktor lhe soava como uma boa ideia. Desejava se levantar para encontrá-lo, mas ainda não estava pronta para deixar a segurança do chão. ── Estava apenas revisitando alguns detalhes do acabou de acontecer. ── Ainda que os detalhes da purificação continuassem desconexos e confusos, alguns fragmentos dele pareciam se reconstruir com mais facilidade em sua memória. Os mais palpáveis deles evocavam a sensação dos toques distribuídos por sua pele, alguns mais ardentes que outros. ── E decidindo como me sinto a respeito deles. ── Espontaneamente, assumiu um timbre mais grave ao admitir, uma evidência ainda discreta da vulnerabilidade nas palavras. ── Como você está? ── Cuidadosos, seus olhos estudaram a expressão de outrem, buscando nela as respostas que os lábios dele poderiam hesitar em revelar.
Seu olhar acompanhou os dedos de Sofiya, o convite sendo respondido com um gesto igualmente silencioso à medida que o rapaz esparramava o corpo pelo chão até se deitar ao lado dela. O frio proporcionado pelo contato com sua pele causou incômodo — ainda que tentasse disfarçá-lo —, a sensação sendo acentuada pelo efeito insistente dos alucinógenos. Viktor levantou o olhar quando a jovem lhe deu uma resposta. "E o que decidiu?" Questionou em seguida. Ao ouvir a pergunta de Sofiya, ele franziu as sobrancelhas, como se precisasse de um pouco de esforço para chegar a uma conclusão sobre aquilo. A pergunta era simples e ele poderia respondê-la com qualquer mentira ou omissão, como comumente fazia, mas gostaria de dar a Sofiya um pouco mais de honestidade. "É errado me sentir aliviado por ele não estar aqui?" Perguntou baixinho, como uma confissão. Havia sido o primeiro a confrontar Vox sobre a ausência do professor enquanto o grupo discutia sobre o ritual, mas, por mais que respeitasse a autoridade do homem, não conseguia esconder que se incomodava com sua presença. Seu instinto sempre foi de desafiá-lo, mas nunca teve coragem para isso. "Acho que parte de mim deseja não precisar voltar para o instituto."
⏾⋆.˚ O conceito da realidade sempre fora abstrato para Sofiya, que se equilibrava sobre a linha tênue entre o que era real e o que não passava de uma alucinação. Mas os efeitos da purificação alcançada naquele ritual se prolongava, turvando a visão já confusa da garota, cujo olhar permanecia fixo em um ponto qualquer do tento que encarava. A temperatura gelada do chão se espalhava pelo corpo deitado sobre ele, uma sensação tangível que acalentava o coração agitado. Alguns fragmentos de memórias se confundiam na mente, carregando com elas sentimentos igualmente destoante. Se concentrava na respiração, no caminho que o ar fazia até os pulmões e para fora deles, quando — ao longe — escutou a voz de muse. Sem forças ou vontade para se levantar, apenas ergueu a cabeça e estreitou os olhos para encontrar a figura alheia. ── Está falando comigo? ── Tomadas pela rouquidão, as palavras tocaram o ar com languidez. ── Sua voz soa distante. ── Talvez o corpo purificado ainda se adaptasse ao novo estado.
Não se lembrava das palavras desimportantes que havia dito apenas para chamar a atenção de Sofiya. Sentado ao seu lado, observava sua expressão distante, uma imagem familiar, embora agora ele próprio também se sentisse um pouco alheio à realidade. O sorriso discreto estampou seu rosto de maneira involuntária quando seus olhares finalmente se encontraram. Viktor não soube o que responder por um instante. "Você parece pensativa," observou, curioso para saber que pensamentos vagavam pela mente de Sofiya naquele momento. "Interrompi alguma reflexão importante?"
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