Cupido, fique esperto, meu caro. 7
Eu a olhei dormir a noite inteira e era engraçado, porque ela falava demais enquanto dormia, além de se mexer demais. No meio da madrugada, eu me ajeitei do outro lado da cama, sentado, com as pernas esticadas e os braços dobrados atrås da cabeça e Julia, de tanto se mexer, acabou que, no meio da noite, se encostou em mim e um pouco depois jå estava completamente abraçada comigo. Eu não a toquei, mas era bem divertido.
O sol jĂĄ estava começando a despontar no cĂ©u e eu achei melhor acordĂĄ-la, afinal de contas, tĂnhamos de ir para a escola e ela estava na minha casa. Fiquei pensando por um tempo em como seria sua reação ao acordar e se ver totalmente aninhada Ă mim e pensei em sair dali, mas achei melhor ficar, queria que ela soubesse que poderia encontrar um amigo em mim.
â Julia... â a chamei, encostando minha mĂŁo de leve em seu ombro â Acorda, sunshine.
Ela antes de abrir os olhos, soltou um bocejo e coçou os olhos com a mão que antes estava sob minha perna. Assim que abriu os olhos, levantou um pouco o rosto e seus olhos encontraram os meus e eu abri um pequeno sorriso, porque eu havia percebido seu rosto de espanto. Toquei novamente seu ombro, tranquilizando-a e, em seguida, ela soltou um suspiro.
â Pelo visto eu dormi aqui, nĂ©? â apenas balancei a cabeça, concordando. â Desculpe ter te alugado tanto, Damon. Nos conhecemos apenas hĂĄ um dia e eu jĂĄ...
â Shhhh â a interrompi. â Pare com isso, Julia, jĂĄ disse que quero ser seu amigo, entĂŁo pode contar comigo sempre, ouviu? â ela sorriu, iluminando meu dia.
â Vou para casa tomar um banho e me arrumar para a escola â fiquei olhando para seu rosto, que parecia aflito para dizer ou pedir algo, porĂ©m, ela nĂŁo o fez.
â Quer ir para a escola junto comigo? â pedi. Julia rapidamente me olhou e sorriu, como se essa fosse a pergunta que ela quisesse fazer. Recebi um balançar de cabeça positivo e a vi sair correndo do quarto.
Fui em direção ao guarda-roupa e peguei uma combinação e fui para o banheiro tomar um banho tambĂ©m. NĂŁo demorei muito e logo ouvi meu estĂŽmago fazer aquele barulho estranho novamente. Ătimo, precisaria aprender a cozinhar agora? Desci atĂ© a cozinha e comecei a procurar pelos armĂĄrio e geladeira algo pronto e fĂĄcil para que eu pudesse comer. Achei pĂŁo, bolachas, leite e suco. Isso daria alguma coisa.
Sentei à mesa e comecei a preparar meu café da manhã, quando senti uma luz forte praticamente me cegar, obrigando-me a fechar os olhos. Quando os abri novamente, Deus estava diante de mim. Larguei o pão sobre a mesa no mesmo instante e me levantei.
â Ora, filho, continue o que estava fazendo, vocĂȘ nĂŁo pode se atrasar para a escola â Deus disse, sentando-se de frente pra mim em outra cadeira. Fiz o que Ele disse. â Ontem vocĂȘ me fez uma pergunta, mas eu estava ocupado demais, me desculpe. VocĂȘ irĂĄ sentir fome, frio, sede, calor, cansaço, saudade, dor e algumas outras coisas que os humanos tambĂ©m sentem sim.
â Mas por que, Pai? â perguntei, dando um gole no leite.
â Porque para Julia, vocĂȘ Ă© um humano e precisa agir como tal e se vocĂȘ nĂŁo sentir nada dessas coisas, como ela acreditarĂĄ? Imagine um tempo frio, bem frio em que todos saem de casa de cachecol e blusĂ”es e vocĂȘ aparece com uma simples camiseta?
â Entendi. Mas por que eu preciso parecer humano? Por que nĂŁo posso ser como os outros anjos da guarda?
â VocĂȘ entenderĂĄ um pouco mais para frente, filho. Agora, o que eu preciso que vocĂȘ faça, Ă© confortar o coração dela. Me dĂłi muito ver o quanto essa menina sofre por coisas que nĂŁo Ă© ela quem faz. Ela te contarĂĄ tudo com o decorrer do tempo, nĂŁo se preocupe.
â Certo.
â Cuide-se. SĂł uma coisa: vocĂȘ continua sendo imortal, porĂ©m, tome muito cuidado, esse mundo estĂĄ uma loucura!
â Eu percebi, meu Senhor. Mas terei cuidado, nĂŁo se preocupe â respondi de prontidĂŁo.
â Me preocupo sim, afinal, vocĂȘ Ă© um filho meu â entĂŁo Ele se aproximou e me deu um abraço, fazendo-me fechar os olhos. Senti a luz sumir e quando abri novamente, Deus jĂĄ havia partido.
Subi até meu quarto e peguei minha bolsa, trancando a casa inteira e indo em direção à casa da Julia. A chamei e apareceu uma mulher, o que me parecia ser a sua mãe.
â O que quer, rapaz? â ela disse, num tom um pouco nervoso.
â Bom dia, senhora. Sou o novo vizinho e colega de classe da Julia. Vim chamĂĄ-la para irmos juntos para a escola â sorri de canto, tentando ser gentil.
â Ora, que rapaz simpĂĄtico, raro de se ver â ela comentou e eu sorri novamente, envergonhado. Era sĂł o que me faltava! â Ela ainda estĂĄ se arrumando, mas venha, entre e a espere.
â NĂŁo irei incomodar?
â De modo algum, venha! â abri o portĂŁo e caminhei atĂ© a porta, aonde ela se encontrava. â Como Ă© seu nome, jovem?
â Damon, senhora.
â Me chame de vocĂȘ, por favor. E a propĂłsito, me chamo Irene.
â Certo, senh... Irene â sorri, recebendo outro sorriso dela.
Fui até a sala e trombei com Julia com um pedaço de pão em sua boca e segurei a risada.
â Damon? â ela disse ao tirar o pĂŁo da boca.
â Te chamei e sua mĂŁe atendeu e me disse para entrar e te esperar.
â Ah, claro. Eu sĂł vou pegar a minha mochila lĂĄ em cima e jĂĄ desço para irmos â assenti com a cabeça.
Logo ela desceu, me despedi de Irene e fomos juntos para a escola. NĂłs rĂamos e brincĂĄvamos no meio do caminho. Passamos de frente Ă um jardim e vi uma linda rosa caĂda no chĂŁo, como se tivesse sido arrancada, porĂ©m, estava mortinha. A peguei e fechei a mĂŁo sobre ela, quando abri, ela estava viva novamente, chamei Julia e entreguei. Percebi suas bochechas corarem e ela colocou a rosa presa ao zĂper de sua mochila. Ao chegarmos, ninguĂ©m parava de nos olhar, pensando algo. Disse Ă ela que nĂŁo se preocupasse e ela me respondeu que estava "de boa", porque isso era normal.
â Julinha! â Milena gritou e Julia acenou de volta.
â Vai lĂĄ, vou ficar sentado aqui.
â A gente se vĂȘ na classe â ela beijou minha bochecha e saiu correndo.
Como alguém conseguia não gostar desse pedacinho de gente?
Fiquei observando quem chegava no colĂ©gio e vi Gustavo sozinho e resolvi ir atĂ© ele, criar um laço para poder fazĂȘ-lo gostar de Julia tambĂ©m. Ia ter que usar novamente um dos meus dons, porque pelo que parecia, o cara era a arrogĂąncia em pessoa.
â Gustavo, e aĂ! â de onde saiu essa gĂria?
â Hum, fala aĂ...?
â Damon.
â Ah, o novato â eu estiquei a mĂŁo e nos cumprimentamos. Dom, vamos lĂĄ, me ajude. â De boa, cara? â Ponto pra mim.
â Beleza, beleza.
â Te vi ontem vĂĄrias vezes juntos com a Julia e hoje chegaram juntos, ganhou beijo e tudo mais... TĂĄ pegando? â e gargalhou. Coisa feia falar assim de uma mulher.
â NĂŁo, cara, somos sĂł amigos.
â Ă, ela Ă© afim de mim.
â E vocĂȘ nĂŁo Ă© afim dela?
â Ah, "vĂ©i", Ă© complicado. Ela Ă© jeitosinha, gostosinha, mas  é apaixonada. E se eu pegar vai ficar no meu pĂ© e nĂŁo sei se quero isso.Â
â Ela Ă© uma Ăłtima pessoa â toquei seu ombro â, vocĂȘ devia conversar com ela um dia.
Gustavo ficou olhando para Julia por um bom tempo, inclusive tombou a cabeça para o lado.
â Ă, acho que pode rolar uma conversa sim.
Ponto para Damon Arcanjo, senhores.