A Ătica voltou a moda, mas de uma forma bem abstrata, ao assistir palestras ou ao acessar os incontĂĄveis tipos de arquivos sobre o tema, vemos como Ă© difĂcil entender o conceito e mais complicado ainda Ă© colocar isso em prĂĄtica.Â
 Ainda bem que temos uma referĂȘncia da moda para nos ajudar a entender e a praticar a Ă©tica! Bom, se Ă© que Ă© possĂvel dizer que um filĂłsofo chinĂȘs que viveu entre 551 a 479 a.C. possa voltar a moda, o ponto Ă© que ConfĂșcio nĂŁo sĂł explica a teoria da Ă©tica como tambĂ©m te ensina a praticar. Antes, acho interessante sabermos um pouquinho mais sobre nosso referencial:Â
HistĂłria e vida de ConfĂșcio
ConfĂșcio (551- 479 a.C.), considerado um dos mais importantes filĂłsofos da China, senĂŁo o mais importante, nasceu no Estado de Lu. Em sua infĂąncia, seu maior entretenimento foi falar com sĂĄbios e idosos. Aos dezessete anos, jĂĄ ocupava uma posição no governo como funcionĂĄrio pĂșblico e em pouco tempo tornou-se muito conhecido. Aos 51 anos de idade ele se demitiu do cargo que ocupava no governo e criou uma escola, que era muito parecida com a academia de PlatĂŁo (428 - 427 a.C.), onde selecionou a dedo alguns discĂpulos. A seleção era feita a partir dos seus valores, tal como honestidade, Ă©tica, disciplina entre outros. Desde entĂŁo ConfĂșcio lecionou atĂ© o fim de seus dias, falecendo aos 73 anos.
ConfĂșcio nunca escreveu uma obra sequer. O livro mais autĂȘntico que temos acesso hoje se chama âOs Analectos de ConfĂșcioâ que Ă© um compilado de diĂĄlogos entre mestre-discĂpulo que seus alunos escreviam.
ApĂłs pedir demissĂŁo ConfĂșcio pega os seus discĂpulos e sai pelo mundo a fora para ensinar. Ele tambĂ©m oferecia seu conhecimento aos governantes que se interessassem de fato pela vida pĂșblica e a harmonia em sociedade. Onde quer que fosse, imploravam-no para ficar mais tempo, mas, invariavelmente, ele respondia:
âEu estou em dĂvida indiscriminadamente com todos os homens, porque considero todos os que habitam a terra como membros de uma mesma famĂlia em que eu tenho a missĂŁo sagrada de instrutor.â
ConfĂșcio fora um reformador incansĂĄvel e estabeleceu uma filosofia e um modo de vida baseados em dois conceitos: justiça e fraternidade.
Ousado, ConfĂșcio elaborou uma espĂ©cie de âgraduaçãoâ para o que seria o homem, o que seria o destino do homem. Essa graduação possui trĂȘs estĂĄgios, sendo eles: o sĂĄbio, o homem completo e o cavalheiro (ou o Homem-Ju). O Homem-Ju era o que ele propunha aos seus alunos. Ele ilustra e descreve todos os detalhes, mostrando que Ă© possĂvel alcançar esse nĂvel.
Eis algumas passagens que ilustravam o caminho para se tornar um cavalheiro, se tornar um Homem-Ju:
O Caminho (Tao) e sua virtude (Te)
âNĂŁo viveu em vĂŁo aquele que morre no dia em que descobriu o caminho.â
ComentĂĄrio: descobri o caminho hoje, se eu morrer hoje jĂĄ valeu. Um dia em que eu vi o caminho jĂĄ justifica uma vida.
âAplico meu coração no caminho, baseio-me na virtude, confio na benevolĂȘncia para apoio e encontro entretenimento nas artes.â
Comentårio: o Tao ou o caminho é muito semelhante a ideia do Dharma. à uma lei que laça todos os seres e os leva em direção ao seu destino, à unidade.
Agora como essa mensagem se manifesta no universo? Ela se manifesta atravĂ©s do âTeâ. O Te Ă© a sombra do âTaoâ no mundo. E a maneira como ele se manifesta hoje Ă© totalmente diferente do que se manifestava no Egito, ou em qualquer outro lugar. O Te, que Ă© a sombra do Tao no mundo, vai ter que se adaptar as possibilidades de compreensĂŁo da humanidade naquele momento. Ă como se fosse o Dharma e a sua sombra, ou ainda, uma Ă©tica atemporal e temporal. Ou seja, uma lei inexorĂĄvel que tem um Ășnico destino e que se manifesta atravĂ©s do Te. A forma como o Te se manifesta se transformarĂĄ num conceito que ConfĂșcio ama demais, que Ă© o conceito do rito.
Vale a pena citar que o interesse dele nĂŁo era religioso, o interesse dele era uma Ă©tica prĂĄtica, vivencial que humanizasse as pessoas. E portanto, o rito para ConfĂșcio era qualquer coisa que vocĂȘ fizesse tentando plasmar o caminho no mundo, tentando fazer uma ponte entre cĂ©u e terra. Ou seja, toda vida do homem era sagrada. Muito parecido o conceito de religiĂŁo, embora ele nĂŁo fosse religioso.
O CĂ©u (Tâien) e o Decreto do CĂ©u (Tâien ming):
âO CĂ©u Ă© o autor da Virtude que hĂĄ em mim.â
ComentĂĄrio: quando tentam matĂĄ-lo, dizem que ele fala essa frase âFulano nĂŁo poderia me matar porque mataria o que em mim? A Virtude? O cĂ©u Ă© o dono da virtude que hĂĄ em mim. Quem poderia atentar contra o cĂ©u?â
âAos cinquenta anos, eu entendi os Decretos do CĂ©uâ
Comentårio: para ele os decretos do céu são essa lei que é o Dharma reduzida à måximas morais, por exemplo, o dever ser justo, o dever ser fraterno, o dever respeitar a sabedoria que se tem o dever ser coerente com as palavras que se pronuncia. Tudo isso são os decretos do céu que os homens não poderiam discutir. E os desvios dos decretos do céu vão gerar as correçÔes do céu. à mais ou menos como a ideia do Dharma e do Karma.
Voltando ao Rito, entendemos entĂŁo que Rito Ă© o momento em que vocĂȘ aplica dos decretos do cĂ©u na tua vida, Ă© o momento em que vocĂȘ anda pelo caminho.
âVoltar-se a observĂąncia dos ritos, sobrepondo-se ao indivĂduo, constitui a benevolĂȘncia. NĂŁo olhe a menos que esteja de acordo com os ritos. NĂŁo escute a menos que esteja de acordo com os ritos. NĂŁo fale a menos que esteja de acordo com os ritos.â
ComentĂĄrio: em outras palavras, se nĂŁo for algo digno de se contar, de se compartilhar, ou ainda se nĂŁo Ă© algo que serviria como oferenda, entĂŁo Ă© sinal de que vocĂȘ nĂŁo deveria fazer. Nesse trecho podemos pensar que ConfĂșcio era rĂgido, mas muito pelo contrĂĄrio, ConfĂșcio nĂŁo era nada rĂgido. Ele sempre via a necessidade de criar novos ritos de acordo com o momento, com o contexto, sempre com o bom senso e discernimento e percebe essa reconstrução como uma necessidade.
A benevolĂȘncia Ă© uma virtude importante para ConfĂșcio. A benevolĂȘncia Ă© sempre uma disposição positiva em direção ao outro, mas a benevolĂȘncia junto a inteligĂȘncia, pois ele dizia âa benevolĂȘncia sem a inteligĂȘncia vira tolice.â.
O Rito (Li) e a RetidĂŁo (Yi):
âSe eu mostro um canto de um quadrado a alguĂ©m e essa pessoa nĂŁo consegue encontrar os outros trĂȘs, nĂŁo mostro uma segunda vez.â
ComentĂĄrio: Ă© basicamente como PlatĂŁo dizia âque de uma situação que dĂĄ certo, vocĂȘ pode abstrair uma lei geral e entĂŁo vocĂȘ a aplica em umas cem outras situaçÔes e funciona tambĂ©mâ. Ou seja, ConfĂșcio queria pessoas que entendessem o rito a ponto de aplicĂĄ-lo em diversas situaçÔes e nĂŁo sĂł naquelas que os discĂpulos viam em aula. ConfĂșcio nĂŁo queria rĂgidos e nem fanĂĄticos que sĂł fizessem o que o rito diz ao pĂ© da letra, mas sim pessoas que soubessem interpretar e adaptar o rito a diversas situaçÔes.Â
O Cavalheiro ou Homem-Ju:
ConfĂșcio considera que esse Cavalheiro a humanidade teria que ter como meta, teria que buscar e Ă© o que ele ensina aos seus discĂpulos. Serem Cavalheiros, serem Homens-Ju.
âNĂŁo imponha aos outros o que nĂŁo deseja para si prĂłprio.â
ComentĂĄrio: aquilo que vocĂȘ deseja de mente elevada, claro.
âA prĂĄtica da benevolĂȘncia depende inteiramente de si, e nĂŁo dos outros.â
âA prĂĄtica da benevolĂȘncia começa na famĂlia e se estende Ă sociedade: ser um bom filho faz um bom sĂșdito, ser um bom pai faz um bom governante.â
ComentĂĄrio: ele dizia que o Estado Ă© uma famĂlia estendida onde para o prĂncipe toda a sociedade sĂŁo seus filhos e o mesmo amor filial do prĂncipe para com o povo deveria ser correspondido pelo mesmo amor paternal do povo para com o prĂncipe, e que isso NĂO SERIA difĂcil. Ele dizia âo prĂncipe nĂŁo tem que se preocupar muito em fazer com que as pessoas o estimem ou o obedeçam, basta preocupar-se em ser uma moral impecĂĄvel, pois a moral impecĂĄvel, mais cedo ou mais tarde tocarĂĄ o coração dos homens.â
Chung (dar o melhor de si):
âNaquilo que fiz pelo bem estar do outro, falhei em ser chung?â
ComentĂĄrio: Ou seja, Ă© uma revisĂŁo diĂĄria dos seus feitos durante o dia. Ă perguntar-se todos os dias antes de dormir âeu dei o meu melhor? Eu fui benevolente no dia de hoje?â
âO homem sĂĄbio nunca fica indeciso;
o homem benevolente nunca fica aflito;
o homem corajoso nunca tem medo.â
ComentĂĄrio: o homem sĂĄbio nunca fica indeciso, pois nĂŁo existem muitos caminhos contanto que o homem seja homem. Se o homem realmente quer ser homem o caminho Ă© claro. Quando ele tem dĂșvidas e deseja ser outras coisas, que nĂŁo um ser humano aĂ surgem muitas alternativas. Para aquele que quer humanizar o seu caminho Ă© sempre claro e um sĂł; o homem benevolente nunca fica aflito, pois a aflição Ă© sempre um regatear naquilo que vocĂȘ deveria ter dado. Algo que sobrou, pois guardou aquilo egoisticamente; o homem corajoso nunca tem medo, mas atenção, se o homem Ă© apenas corajoso, nĂŁo Ă© benevolente, bondoso, moral ele pode virar um rebelde, um astuto, um rude. A coragem Ă© necessĂĄria, pois nĂŁo crescemos sem coragem, sem enfrentar o desconhecido.Â
âConheça os homens; promova os justos e coloque-os acima dos corrompidosâ
Comentårio: o såbio coloca a bondade acima do egoismo, a integridade acima da corrupção. Dentro e consequentemente fora sempre que ele pode interferir na historia da humanidade.
âGuie-o pela virtude, mantenha-o na linha com os ritos e o povo, alĂ©m de ser capaz de sentir vergonha, reformarĂĄ a si mesmoâ
ComentĂĄrio: Ă© um apoio ao âdar o exemplo atravĂ©s das suas atitudesâ e uma crĂtica as sançÔes, a ineficĂĄcia das sançÔes. Isso acontece pois ConfĂșcio acreditava que enquanto houver sançÔes o povo farĂĄ, porque Ă© obrigado. Quando nĂŁo houver sançÔes, o povo farĂĄ qualquer coisa.
âA virtude de um Cavalheiro Ă© como o vento; a virtude de um homem comum Ă© como a grama. Que o vento sopre sobre a grama, e ela com certeza se dobrarĂĄ.â
ComentĂĄrio: quando sopra a virtude do cavalheiro, do Homem-Ju e ignorĂąncia se dobra, porque reconhece a sabedoria e se envergonha de ser tĂŁo pequeno.Esse contraste gera consciĂȘncia e desperta nos homens comuns um referencial, um desejo de ser melhor.Â
Quando os JesuĂtas chegam a China e conhecem o Confucionismo eles chegam Ă conclusĂŁo de que aquilo nĂŁo era uma religiĂŁo, mas sim um cĂłdigo de moral, um cĂłdigo de Ă©tica, uma Ă©tica prĂĄtica, e que inclusive o ocidente precisava daquilo.
E para encerrar esse pequeno estudo sobre a Ătica segundo ConfĂșcio, vejamos a seguinte passagem:
âAos quinze anos, dediquei-me de coração a aprender; aos trinta, tomei uma posição; aos quarenta, livrei-me das dĂșvidas; aos cinquenta, entendi o Decreto do CĂ©u; aos sessenta, meus ouvidos foram sintonizados; aos setenta, segui o meu coração sem passar dos limites.â
ComentĂĄrio: no final o âo que eu queriaâ e âo que eu deviaâ eram uma coisa sĂł, por isso seguia o seu coração sem passar dos limites.Â
Os Analectos de ConfĂșcio, o podcast da semana da filosofia da Nova AcrĂłpole e a palestra da professora Lucia Helena GalvĂŁo.