Há algo profundamente perigoso em certas histórias… especialmente naquelas protagonizadas por LI KAI. Aos VINTE E SETE anos, ele carrega o legado de LI SHANG E FA MULAN (MULAN) em cada aspecto de sua narrativa. Ligado a Casa ARSÊNIO, tornou-se conhecido entre outros alunos por sua reputação de FRIO e ARROGANTE — qualidades extremamente valorizadas em Mythborne — ainda que existam rumores persistentes sobre uma natureza DISCIPLINADA e COMPETENTE escondida sob toda essa deturpada perfeição.
HABILIDADE MÁGICA.
DRAGÃO ANCESTRAL — Desde a morte de Mulan, Li Kai carrega consigo o antigo amuleto dos ancestrais da família Fa. Durante anos acreditou tratar-se apenas da única lembrança deixada por sua mãe. Até que algo respondeu. Yinghua, uma dragona espiritual ligada à linhagem Fa, manifestou-se através do medalhão quando Kai ainda era criança. Desde então, tornou-se uma presença permanente em sua vida. Diferente de criaturas comuns, Yinghua existe parcialmente fora do plano material. A maioria das pessoas consegue vê-la e ouvi-la, mas não tocá-la (logicamente, nesses momentos, ela também é incapaz de tocar ou ferir as pessoas). Objetos atravessam seu corpo sem resistência, o que não a impede de reclamar constantemente da falta de educação dos vivos. Na maior parte do tempo, a dragona funciona mais como uma companhia inconveniente do que como uma arma. Ela comenta decisões, critica comportamentos, interfere em conversas e oferece opiniões não solicitadas sobre praticamente qualquer assunto. Em combate, entretanto, a ligação entre ambos torna-se muito mais perigosa. Através de movimentos ritualísticos transmitidos pela própria Yinghua e inspirados nas antigas danças dos dragões ancestrais, Kai é capaz de canalizar parte da energia espiritual da dragona para o próprio corpo. Quando isso acontece, fogo azul ancestral manifesta-se através dos punhos, da respiração e de seus golpes. O fogo espiritual é extremamente destrutivo contra magia, criaturas sobrenaturais e barreiras encantadas, mas exige precisão absoluta. Qualquer interrupção nos movimentos, perda de concentração ou desgaste físico excessivo pode romper a canalização imediatamente. Sob o toque de Kai, Yinghua pode ser sentida das escamas aos espinhos na cauda, e então, domada para a montaria; mas eles precisam estar em contato direto.
LIMITAÇÕES.
Apenas Kai pode montar a dragona.
A dragona não pode permanecer materializada indefinidamente em sua forma de combate.
Quanto mais fogo ancestral é utilizado, maior o desgaste físico sobre Kai.
Estados emocionais extremos podem tornar a canalização instável.
A dragona possui personalidade própria e nem sempre concorda com as decisões de seu invocador.
OCUPAÇÃO.
Instrutor de combate. Ele se destacou tanto em Everafter que foi convidado a ser o monitor e orientador das aulas de combate, junto do docente responsável. E ele recebe para isso! (sob a falsa supervisão de Li Shang).
DESCENDÊNCIA.
A lealdade é uma das virtudes mais perigosas que existem. Não porque torna homens maus, mas porque frequentemente os transforma em ferramentas nas mãos de pessoas piores. Durante séculos, canções foram compostas sobre guerreiros que morreram obedecendo ordens, sobre generais que sacrificaram tudo em nome do dever e sobre impérios erguidos através da disciplina. Poucos se perguntam quantos desses homens foram felizes. Menos ainda se perguntam quantos desejavam algo diferente. Mulan e Shang sobreviveram à queda da antiga ordem. Talvez esse tenha sido o problema. Quando Shan Yu ascendeu ao poder durante a Grande Reescrita e fundou a nova dinastia imperial de Xianzhou, os dois receberam a mesma escolha oferecida a inúmeros guerreiros derrotados: lealdade ou morte. Mulan jamais aceitou verdadeiramente aquela decisão. Shang, por outro lado, pareceu aceitá-la rápido demais. Militarizado desde a infância, e extremamente patriota, não era como se pudesse ser diferente. A obediência estava enraizada em seu cerne. Ninguém sabe exatamente o que aconteceu naquele período. Nem mesmo Mulan compreendeu completamente. O homem que passou anos lutando ao seu lado tornou-se cada vez mais silencioso, mais disciplinado, mais distante. Como se alguma coisa tivesse sido arrancada dele. Como se obedecer fosse mais fácil do que lembrar quem havia sido antes. Enquanto Mulan enxergava uma ocupação, Shang enxergava uma nova hierarquia para servir. Shan Yu percebeu rapidamente o valor dos dois. Não precisava de símbolos. Precisava de guerreiros. E não existiam guerreiros melhores em Xianzhou. Quando a doença começou a consumir o imperador, foi Shang quem permaneceu ao seu lado. Sem herdeiros. Sem familiares próximos. Sem sucessores legítimos. Apenas um general cuja lealdade parecia inabalável. Pouco a pouco, as funções imperiais passaram para suas mãos, até que toda Xianzhou compreendesse uma verdade inconveniente: Shan Yu ainda usava a coroa, mas era Shang quem governava.
Mulan jamais recebeu o mesmo privilégio. Expulsa do exército após engravidar, viu-se reduzida à única função que a nova ordem reservava às mulheres: gerar futuros soldados. Cercada por luxo, confinada dentro do próprio palácio e privada da única vida que havia escolhido para si, assistiu o império transformar seu marido em um estranho e seu filho em um projeto político. Quando Li Kai completou cinco anos, Mulan tirou a própria vida. Tudo o que deixou para trás foi um medalhão ancestral da família Fa. E uma história que ninguém em Xianzhou gosta de contar.
SOBRE.
Algumas pessoas passam a vida tentando descobrir quem são. Li Kai passou a vida inteira tentando descobrir quem lhe permitiriam ser.
Filho do homem mais poderoso de Xianzhou e da guerreira mais famosa de sua geração, nasceu cercado por expectativas que jamais escolheu. Antes mesmo de aprender a escrever seu próprio nome, já existiam generais discutindo seu futuro, cortesãos observando seus gestos e conselheiros calculando aquilo que ele poderia se tornar. Não era uma criança. Era um sucessor. Sua infância foi construída entre pátios militares, salões imperiais e treinamentos intermináveis. Enquanto outras crianças aprendiam histórias sobre heróis vilões, Kai aprendia estratégias de guerra. Enquanto outras descobriam o mundo, ele aprendia a dominá-lo. A morte de Mulan tornou-se apenas mais uma lição.
Assim como seu pai, então, Kai cresceu exatamente como esperavam. Obediente. Competente. Impecável. A imagem perfeita de um futuro imperador. O problema é que máscaras usadas durante tempo suficiente acabam se fundindo ao rosto. Hoje, poucos conseguem afirmar conhecer verdadeiramente o herdeiro de Xianzhou. Alguns o descrevem como frio. Outros como disciplinado. Há quem o considere arrogante. Há quem o considere inalcançável. Todos estão parcialmente corretos.
A verdade é que o herdeiro Li aprendeu cedo que afeto cria vulnerabilidades. Pessoas abandonam. Pessoas morrem. Pessoas mudam. Impérios permanecem. E isso anda totalmente de acordo com a nova ordem narrativa, sendo valorizado pelo Conselho da Reescrita. Talvez por isso sua relação mais sincera seja justamente com uma dragona ancestral que não deveria existir.
A dragona é a única presença constante que atravessou todas as fases de sua vida. A única criatura diante da qual não precisa desempenhar o papel de sucessor, general ou herdeiro. E talvez seja por isso que a compensa com uma devoção que raramente demonstra por qualquer outra pessoa.
Enviado para Everafter como representante oficial de Xianzhou, Kai chegou à academia carregando o peso de um reino inteiro sobre os ombros. Oficialmente, está ali para aperfeiçoar seus estudos e fortalecer relações políticas. Extraoficialmente, para aprender, observar e retornar pronto para assumir o lugar que todos acreditam lhe pertencer. Mas existe uma pergunta que o acompanha há anos: Se toda sua vida foi construída para transformá-lo em sucessor de um império que destruiu sua mãe, o que restará dele quando finalmente alcançar aquilo que esperam?












