gdebenhamâ:
NĂŁo Ă© ela.Â
Mas a risada Ă© a dela. A voz Ă© a dela. O rosto Ă© o dela.Â
TalvezâŠ
NĂŁo.
O calor dentro de si poderia facilmente ser atribuĂdo Ă bebida, porĂ©m Debenham sabe melhor. Sabe quem Ă© que de fato estĂĄ causando esse rebuliço do qual estĂĄ bastante consciente, e, mais que isso, sabe que precisa parar com tudo aquilo. A discussĂŁo interna pesando prĂłs e contras a respeito de revelar ou nĂŁo quem Ă© estĂĄ bem perto de lhe fazer perder a cabeça. A coragem e velocidade causadas pelo ĂĄlcool nĂŁo somam para um resultado positivo. NĂŁo. âExistem algumas, mas me falta interesseâŠâ forçou uma risada, como se fosse ajudar a aliviar o peso em seu peito, ou lhe tirar da espiral descendente na qual se encontra.Â
E diante do passado a se revelar com suas palavras, veio o toque em seu ombro e Georgiana sentiu uma ligação se quebrando. NĂŁo entre ela e Amy, mas entre ela e qualquer rastro de controle dentro de si. Deixou a caneca na mesa diante de si e sorriu para a outra, minimamente, quase dolorosamente, caindo em um silĂȘncio profundo. Se falasse, seria a coisa errada. Se seguir a onda que lhe abate agora, decerto, se encontrarĂĄ sobre os grĂŁos de areia que serĂŁo os restos de todas as decisĂ”es tomadas durante essa noite.
Ou poderia falar sobre comida.
Gigi coçou a nuca, finalmente encontrando o olhar alheio â nĂŁo poderia ignorar aquela linha. Mas nĂŁo Ă© ela. âEuâ nĂŁo posso.â Ela se levantou com um suspiro, mas o fez devagar pois sabia que qualquer movimento brusco agora faria o apartamento girar violentamente. Ficou de costas para a anfitriĂŁ, a canhota fechada em punho enquanto o polegar da mĂŁo direita caminhava pelos outros dedos, como se contando-os; Precisa se acalmar. Se causar uma cena agora pode destruir o gelo fino no qual ela mesma se encontra. Respirou fundo outra vez. Caminhou atĂ© sua bolsa, onde tirou seu celular e permaneceu ali, parada, enquanto procurava por algo.
O arquivo estava escondido, a Ășnica pessoa com acesso era Georgiana e sua digital. Faziam anos que ela nĂŁo acessava aquela pasta, tantos que por pouco nĂŁo se reconheceu nas fotos. Abriu uma em particular, de duas jovens, nos seus vinte anos, diante de um prĂ©dio onde elas moravam, e sĂł entĂŁo entregou o aparelho Ă Amy.Â
âQuando vocĂȘ teve o seu acidente, seus pais foram apontados como seus guardiĂ”es legais e me proibiram de te visitar. Eu consegui te ver uma vez, mas⊠vocĂȘ nĂŁo me reconheceu. Depois disso, eu descobri que vocĂȘ se mudou com sua famĂlia e nunca consegui descobrir para onde vocĂȘs tinham ido.â Pausou. âAmy, eu nunca parei de pensar em vocĂȘ. Quando aconteceu, foi como perder os meus pais de novo e eu nĂŁo sabia o que fazer, eu deveria ter insistido, ter continuado te procurando, mesmo se os seus pais me ameaçassem com infinitas ordens de restrição⊠Mas eu nĂŁo sabia o que fazer.â
A esperança era de que as fotos esquecidas pudessem suavizar o impacto de uma completa estranha contando a respeito de algo que, para Amy, nunca aconteceu. Havia tido essa conversa consigo mesma milhares de vezes, sonhado com o reencontro e até com o milagre de que a outra sequer passaria por isso porque se lembraria de Gigi num passe de mågica. Perante ter de usar da realidade, deixou a voz embargada em emoção confessar as desculpas que vieram primeiro, esperando do seu lado pela reação alheia.
Amy era uma mulher feita de coração. SensĂvel e que sempre tomava as dores dos outros para si mesma e talvez fora exatamente por isso que sua expressĂŁo tornou-se abatida e de sorrisos amarelos depois que o assunto tornou-se a antiga noiva de Georgiana. Que pelo tom proferido pela outra, ela jĂĄ nĂŁo estava mais entre os vivos. E a mudança repentina de expressĂŁo e comportamento da convidada lhe deixou preocupada, sentindo-se culpada por tal assunto que imaginava ser deveras doloroso. NĂŁo tardou a levantar-se e ir atĂ© a cozinha em passos tĂŁo rĂĄpidos quanto jamais poderia imaginar, buscando um copo de ĂĄgua para Gigi.
E em sua volta estava ali algo que jamais poderia imaginar e que mudaria toda a sua vida naquele exato instante. A fala alheia era confusa, na cabeça da Wright passou a existir uma grande interrogação ao passo que se aproximava de uma Georgiana inquieta, passando o copo de ĂĄgua fresca para ela e seus olhos descendo atĂ© a tela do celular apontada para si. O corpo de Amy gelou na mesma hora que se reconheceu naquela foto... Ao lado da vizinha recĂ©m conhecida? A boca era aberta e fechada inĂșmeras vezes, tentando proferir alguma palavra. Mas nada saĂa. Por um instante sentiu o apartamento rodar ao seu redor, se obrigando a buscar apoio no sofĂĄ e sentar-se lentamente com os olhos fixos na tela. â â O-o que Ă© isso? Ă alguma brincadeira comigo? â â a voz saiu baixinha e falha, levando seu olhar para a morena.
EncarĂĄ-la por alguns bons instantes nĂŁo era suficiente para trazer de volta a sua memĂłria e apagar de dentro de si tamanha confusĂŁo. Era informação demais para processar e por um momento sentiu-se como na primeira vez que seus pais pararam para narrar toda a sua vida apĂłs sua recuperação do acidente. A cabeça doĂa tĂŁo forte que fechou os olhos, encolhendo seu corpo contra o sofĂĄ, desejando que aquilo fosse apenas um sonho. Um sonho. Praticamente ouvira um estalo vindo de sua cabeça, fazendo-a tomar o celular alheio novamente para observar melhor o rosto de sua companhia na foto. Parecia ser um casal. â â Eu... Eu acho que jĂĄ vi esse rosto antes. â â parou mais uma vez confusa, intercalando seu olhar para a Georgiana a sua frente. â â Esse rosto... â â de repente, levantou-se e correu atĂ© o quarto, onde possuĂa uma caixa de desenhos antigos, em sua maioria saĂdos de seus constantes sonhos esquisitos. Havia uma pasta apenas ligadas a uma tal mulher desconhecida que costumava aparecer em seus sonhos, desde a Ă©poca do acidente. â â Como isso Ă© possĂvel... â â murmurava para si mesma, folheando os inĂșmeros desenhos que eram guardados ao longo dos anos, logo retornando para a sala com eles nos braços.

















