TALIA RYDER? Não! É apenas STEVIE ROWE, ela é filha de NIKÉ do chalé DEZESSETE e tem VINTE E DOIS ANOS. A TV Hefesto informa no guia de programação que ela está no NÍVEL II por estar no Acampamento há QUATRO ANOS, sabia? E se lá estiver certo, Stevie é bastante CARISMÁTICA, ENERGÉTICA e CORAJOSA, mas também dizem que ela é COMPETITIVA, ARROGANTE e DESLEIXADA. Mas você sabe como Hefesto é, sempre inventando fake news pra atrair audiência!
Aura de Motivação — Como filha de Niké, Stevie é capaz de inspirar a si mesma e seus aliados ao redor. Seus poderes amplificam a resistência e desempenho físico de quem afetam, deixando o alvo mais forte, mais rápido e mais difícil de derrubar. Quando usados em um semideus, ele se torna praticamente imbatível, por mais que apenas temporariamente. Além disso, a aura funciona melhor em quantidades menores de pessoas, já que expandi-la para vários alvos esgota rapidamente as energias de Stevie e é menos eficaz.
II – HABILIDADES.
Vigor sobre-humano e velocidade sobre-humana.
III – ATIVIDADES.
♡ Esportes — Líder da equipe vermelha da parede de escalada e participante da corrida de pégasos.
♡ Outras — Conselheira de chalé e membro de equipe de patrulha.
IV – ARMA PRINCIPAL.
Invicta (Aήττητη, Aíttiti) é a espada feita de bronze celestial de Stevie, forjada pelos ferreiros do Acampamento Meio-Sangue nos moldes de um gládio. Sua guarda possui o formato de um par de asas aberto, uma alusão à deusa da vitória, que toma vida quando a arma está distante demais da semideusa; com um assobio, ela pode convocar a espada de volta à sua mão, independente do quão longe esteja, contanto que Invicta possa voar até ela. Outras armas e itens especiais aqui.
V – HISTÓRIA.
O pai de Stevie sempre a disse que ela era uma vencedora. A única filha do ex-atleta olímpico começou a ganhar troféus e medalhas desde que alcançou a idade mínima para ser matriculada nas escolinhas de esporte — judô, futebol, vôlei, ginástica, natação e o que mais estivesse a fim de tentar naquela semana —, sempre destacando-se como a melhor entre os coleguinhas. Ao fim do ensino fundamental, bateu o martelo: queria ser uma atleta profissional da escalada, e, sem hesitações, o pai contratou os melhores instrutores do país para treiná-la.
O desempenho extraordinário nos esportes era a única coisa que a safava de problemas na escola, pois, com o TDAH e a dislexia para atrapalhá-la nas provas e a teimosia e a ousadia para puxar brigas no intervalo, não era bem uma aluna exemplar. Para o pai, no entanto, tudo que importava era que continuasse treinando, e isso ela fazia com todo o prazer do mundo. Quanto mais velha ficava, menos a escola a via: estava ocupada em torneios, fazendo escaladas em montanhas ou treinando com um professor de outro estado. E, quanto mais treinava, mais próxima chegava de seu grande sonho: as Olimpíadas. Os jogos de 2020, em Tóquio, prometiam a estreia da escalada olímpica, e Stevie só descansaria quando seu nome estivesse na lista de competidores e, quem sabe, no topo do pódio. Foi aí que sua vida virou de ponta cabeça.
Você não imaginaria que monstros se interessassem em esportes, mas um deles fez questão de aparecer na competição mais importante da vida de Stevie: a que determinaria se ela poderia participar das Olimpíadas ou não. Na transmissão do evento, a imagem passada foi apenas de Rowe desequilibrando-se e caindo desacordada no chão; o que os mortais não viram, porém, foi a grande criatura alada alçando voo da arquibancada e investindo contra a semideusa. O monstro cortou os cabos de segurança enquanto Stevie escalava e, quando ela o viu em rasante e em sua direção outra vez, seu reflexo foi soltar a parede de escalada e cair em queda livre. A última coisa que viu, antes de perder a consciência, foi uma flecha reluzente atingir a criatura e desfazê-la em pó.
Quando abriu os olhos novamente, Stevie encontrou-se deitada no banco de trás do carro do pai, que estava ao volante, mas não desacompanhado. Mais duas pessoas — adolescentes, como ela — estavam no veículo, e embora de início não estivesse compreendendo nada do que falavam, ela conseguiu ouvir qual era seu destino: Acampamento Meio-Sangue, Long Island, Nova Iorque. Era o mesmo nome que estava estampado nas camisetas laranja-vibrante que os dois vestiam, e um que seu pai parecia já conhecer.
Stevie nunca foi uma fã de História, então o sátiro e o semideus que a acompanhavam precisaram de algumas tentativas para explicá-la o que estava acontecendo e o que ela era — e, quando o nome de sua mãe era mais conhecido por uma marca de tênis do que por ela mesma, será que poderiam culpá-la? —, mas a chegada ao Acampamento e a pouca demora para que Niké a reconhecesse fizeram a ficha cair. Assim, depois que a mágoa pelo pai, que escondera aquele segredo por dezessete anos de sua vida, se dissipou, Stevie parou de gritar pelos quatro cantos da colina e permitiu-se conhecer o que o porto seguro dos semideuses tinha a oferecer.
Em quatro anos, seu progresso no Acampamento Meio-Sangue foi excepcional. Apesar da chegada tardia, enturmou-se facilmente com os outros semideuses e logo mostrou que estar em seu time nas competições de esporte era um bom jeito de vencê-las. Provou-se uma duelista habilidosa (embora não tão astuta para estratégias de batalha) e uma aliada útil de se manter por perto, graças aos poderes semi-divinos que motivavam todos ao seu redor a lutar com um pouco mais de garra. Com dois anos, tornou-se líder da equipe vermelha na parede de escalada, e, depois disso, fez de seu objetivo ser instrutora uma vez que alcançasse tempo o suficiente de campista para isso.
Ao fim do verão, entretanto, ainda retornava à casa do pai e à rotina de treinos, com o cuidado e a atenção para possíveis aparições de monstros redobrados. Os planos de tornar-se uma atleta olímpica ficaram de segundo plano, substituídos pela ambição de consagrar-se como uma heroína grega moderna, e tudo que os mortais sabiam era que Stevie Rowe havia se aposentado cedo após a queda que levara aos dezessete anos.
AGORA... Era na casa do pai que estava quando recebeu o chamado de Dionísio. Uma mensagem que, de início, dispensara como uma piada: provavelmente não seria a última vez que Sr. D ameaçaria os campistas de morte. De volta ao Acampamento, porém, Stevie entendeu que a situação era verdadeiramente perigosa quando soube o que havia acontecido com o Oráculo. Agora, diante do clima de inquietação dos semideuses e da falta de respostas dos diretores, ela suspeita que seja lá o que estiver acontecendo é diferente de qualquer coisa que o Acampamento já viu — e, enquanto essa talvez seja a oportunidade para eternizar-se em um livro de mitologia, também pode ser a de queimar uma mortalha da deusa da vitória.
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Toda a situação que estavam vivendo no acampamento estavam tentando estragar todos os seus anos de terapia e controle de raiva, jogando no lixo seu esforço e dedicação. Ira estava vivendo no limite, sentia que todas as amarras que tinha colocado em seu temperamento estavam frouxas e a um trisco de romperem, bastava só mais um puxão. E era por esse motivo que estava agora sentando em frente ao lago de olhos fechados, com uma das crianças de algum deus envolvido com música - que ele não se deu ao trabalho de perguntar qual era - tocando para si uma música calma e relaxante em uma harpa enquanto ele tentava meditar e sentir a natureza ao seu redor. A respiração lenta combinava com a pose de meditação que possuía, tudo estava perfeito até que sentiu uma sombra atrapalhar o sol que aquecia sua pele. Sol esse que foi cuidadosamente escolhido pelo lugar que havia sentado em uma tentativa de fugir do clima de outono. Franziu a testa, facilmente irritado. "Pô, da pra sair aí?" Finalmente abriu os olhos fitando muse, a irritação ficando cada vez mais presente em sua voz a medida que falava. "Se não eu vou ter que me matar bem aqui na tua frente, irmão." Mudou a frase, não ameaçaria uma pessoa aleatória sem motivo nenhum mesmo que seus instintos naturais falassem que sim. Mais um ponto na conta da terapia.
Luz do sol se tornara uma raridade e um luxo, já que o desaparecimento de Apolo condenara a Colina Meio-Sangue a dias nublados e opacos por meses. Então, quando Stevie olhou pela janela do chalé 17 e sentiu os raios solares esquentarem sua pele, ela soube que precisava aproveitar aquele dia. Foi isso que a levou ao lago, os óculos escuros de Victor no rosto e o cabelo preso em um rabo de cavalo que não se dera ao trabalho de pentear. Entre o delicado som de uma harpa e a tentativa frustrada de Ira de meditar, porém, ela rapidamente percebeu que estava se intrometendo no momento alheio — e talvez tivesse somente dado as costas e ido embora, se o filho de Ares não tivesse soltado a frase que arrancou da garota uma risada surpresa.
“Caralho, já pulou direto na ameaça de suicídio? Eu acabei de chegar.” Respondeu ela, sorriso divertido no rosto. Em pé ao lado de seu líder de patrulha, ela pôs os óculos na cabeça para enxergá-lo além do filtro escuro, olhos espremidos diante da claridade. “Você sabe que o sol é um negócio meio coletivo, né? Universal e tal… Entendo que vocês, filhos de Ares, não são muito bons em dividir brinquedos, mas acho que, nesse caso, a prioridade do monopólio seria dos filhos de Apolo.” Apesar de suas palavras, ela se afastou e deixou que o sol brilhasse sobre Ira novamente, mas apenas para se agachar e sentar ao lado dele. “E quem é esse aí?” Stevie apontou para o campista com a harpa. “Seu bardo de bolso?”
FEZ QUESTÃO DE DAR UM TAPA NA MÃO DA OUTRA - como se o toque fosse muito ofensivo e inapropriado , como se não fosse a coisa mais casta que já tinham feito. ❛ sou mesmo muito romântica 'pra sua informação. ❜ rebateu petulante, apesar de saber que não era verdade. podia ser suave, podia ser gentil e até mesmo terna - mas romântica ? não sabia se tinha isso no seu sistema. mas certamente tinha a vontade. ❛ por enquanto. ❜ respondeu com um dar de ombros, como se tirasse satisfação em ser críptica e deixar a outra se perguntando até onde duraria sua boa fé. amanhã mesmo podia estar gritando com ela de novo. ❛ porque não sou, acredito fielmente em violência. ❜ suspirou, as mãos indo aos quadris, sobre a calça bege de cintura alta , a camisa xadrez completando sua roupa que era formal demais, pomposa demais, para o meio do mato. ao menos usava tênis. ❛ mas considerando tudo que está havendo, não vai fazer bem a ninguém se continuarmos a nos atracar. ❜ imediatamente ergueu o indicador , sua feição séria. ❛ e nem pense em fazer piada com isso. ❜
A risada danada e o sorriso presunçoso no rosto eram a prova de que a aversão de Maeve era sua alegria. Seguraria um comentário sujo sobre como já havia a tocado em lugares muito mais comprometedores, apenas porque aquela conversa tinha acabado de começar.
“Ah, sim, você é o cúmulo do romance. Lembra de quando fomos no Túnel do Amor e você quase me jogou do barco?” Stevie certamente se lembrava, embora não fosse uma memória ruim. Poucas coisas podiam estragar um passeio de barco com uma garota bonita que ela podia beijar — e que a odiava em todo o resto do tempo. “E, ainda assim, se diz uma romântica. Bem, Afrodite e Ares se amam, não é?” Provocou. Não estava tão longe de Maeve: desistira do amor depois de inúmeras investidas amorosas fracassadas e se acostumara à violência da vida de um meio-sangue, ao ponto de até gostar dela. De certa maneira, era reconfortante.
“Aww, você leu minha mente!” Respondeu Stevie, que já estava com a piada na ponta da língua quando ela a repreendeu. Concordava, porém, com o que ela dizia. Mesmo que uma parte sua lamentasse, com tudo que estava acontecendo no Acampamento Meio-Sangue, sua rivalidade podia tirar férias para que focassem em problemas maiores. “Tudo bem. Não vou dizer que você tá certa, porque não quero te dar a satisfação, mas eu concordo. Precisamos nos atracar com outras coisas no momento.” Não perdeu a oportunidade, mas foi com sinceridade que aceitou a trégua. “Então… em que pé isso nos deixa? Amigas, ou…?”
— Nem na minha, eu hein! Além de participar, ela é minha convidada, fica feio se apostar na minha derrota, então abre uma exceção aí para ela apostar na sua — pediu, levando a azeitona da bebida até a boca para, então, comê-la. — Não sei sobre feitiço, não é bem assim que ela costuma calar minha boca, mas a gente pode forçar ela a aprender. Quero dizer, não forçar, mas pedir com jeitinho e incentivar porque essa ideia de uma bolha é genial! Assim não vamos ter que nos preocupar com ninguém nos ouvindo, mas vamos precisar rezar para que Hécate, Hades e mais sei lá quem não decidam atacar o acampamento bem nessa hora — as palavras saiam com rapidez da boca de Aslan e se enrolavam em seu sotaque, mas a empolgação era nítida. Se Stevie não o segurasse, era bem capaz do semideus ir naquele instante até o acampamento tentar roubar temporariamente um dos pégasos. — Vai me derrotar? Cadê a amizade verdadeira que estávamos nutrindo agora mesmo, ô filha dos tênis? Tu já foi mais minha parceira antes — reclamou, bebericando sua bebida enquanto também erguia as sobrancelhas para ela. — Botas aladas? Você tem botas com asas? Esse tipo de tênis tua mãe não vende! Isso é sério? Posso ver? Tenho como conseguir uma para mim? — nem sabia onde ou para quê precisaria de botas aladas, mas parecia ser um item bem útil de se ter ou pelo menos de experimentar uma vez na vida. — Olha, se vai ter leão, touro de ferro, cavalos e pégasos, acho que nada mais justo do que abrir espaço para objetos mágicos também. Que vença o melhor nessa corrida maluca! — sua voz soou mais alta do que deveria e atraiu alguns olhares, os quais Aslan dispensou com comentários aleatórios sobre todo e qualquer tipo de corrida existente, de carros até maratonas, para despistar os ouvidos curiosos. Novamente em um tom mais baixo, Aslan voltou a responder às questões de Stevie. — Eu sabia que tinha vindo atrás da pessoa certa na hora que decidi compartilhar esse meu desejo com você, tu é genial, Stevinha! Coloca o perdedor para limpar cocô de cavalo, para que melhor?! — elogiou, erguendo a mão para que ela tocasse a sua em um high-five super animado. — Vamos fazer assim: você convida 5 pessoas, eu convido 5 pessoas e depois nos unimos para organizar tudo certinho. Combinado? Acho que vai ser bem mais fácil planejar e fazer acontecer quando já soubermos quem vai participar.
“Por que eu tenho que abrir uma exceção? Ela pode apostar em outras pessoas que não nós dois, ué! Sai fora!” Respondeu Stevie, tão indignada que esticou a mão para roubar o palito com a azeitona dos dedos de Aslan bem quando ele estava prestes a comê-la. Sem hesitação, meteu a azeitona na boca e entregou de volta o palito sem nada. “Ok, primeiro: nunca fale de novo sobre como Pietra cala sua boca. Eu literalmente vomito nos seus pés.” Era uma exigência e uma ameaça. “Segundo: se qualquer deus, Cão do Inferno ou o que for atrapalhar isso, eu juro que saio na porrada com ele. Já não basta a festa dos conselheiros? Ah, não, não, não! A gente vai fazer isso acontecer e vai dar certo.” A confiança na voz da garota era sua forma de manifestar as próprias palavras, quase como se, internamente, pedisse aos deuses para que os deixassem ter pelo menos uma distraçãozinha boba sem interferência, fosse divina ou infernal. Não negaria o medo da possibilidade, no entanto — todas as vezes que os semideuses tentaram se animar nos últimos meses acabaram em tragédia, desde o Festival de Natal.
“Amizades verdadeiras são forjadas em competições, Aslan! É como eu faço amizade com todo mundo.” Retrucou, e não era uma mentira completa. Stevie tinha o hábito de puxar competições, brigas bestas e apostas com seus amigos ou com quem queria ser amiga, o que muitas vezes se transformava em rivalidades amigáveis que muito a entretiam. “Sim, é sério, sim, você pode ver, e não, não tem como conseguir uma. Os próprios deuses me presentearam com elas, sabe? São itens limitados.” Se gabou, jogando o cabelo para trás com um aceno do dorso da mão. Quando as recebera como recompensa de sua missão fracassada, porém, não sentira tanto orgulho de tê-las. “Elas ficaram no acampamento, mas eu te mostro depois.”
Corrida maluca era o descritor perfeito para aquele plano, cada vez mais complexo e impossível. Ela, contudo, não desistiria de executá-lo, mesmo depois que o álcool abandonasse sua corrente sanguínea. Felizmente, Aslan era tão maluco quanto ela e seu projeto ambicioso.
“Combinado. Convidarei o conjunto mais esquisito de pessoas que eu conseguir pensar.” Stevie assentiu com a cabeça, sorriso abobalhado no rosto. “Sabe, Aslan, estou gostando de fazer negócios com você.” Ela estendeu o próprio copo, oferecendo um brinde.
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Mary nunca mediu sua bravura pela ausência de medo, pois os deuses sabiam que grande parte de seu tempo se sentia aterrorizada por todas as trágedias e caos ao seu redor. Para ela, a coragem era agir apesar do medo, uma força que vinha não da falta de temor pela morte, mas da incapacidade de suportar a sensação de impotência. A perda de Carter ainda era uma ferida aberta — tudo aconteceu tão rápido, um piscar de olhos e ele estava morto. E sua perna? Foi a mesma coisa. Num segundo, tudo estava bem; no outro, uma criatura horrenda esmagava os ossos de sua perna em suas mandíbulas. Segundos, frações de tempo que mudavam tudo. Mary sabia que o fechamento da fenda seria outro desses momentos — vida e morte, sempre vida e morte. A cada dia que passava, ela tentava se acostumar mais com a ideia de morrer.
Quando o chão começou a tremer, um arrepio subiu por sua espinha, mas ela engoliu o medo e fez o que sempre fazia melhor: ajudar os outros. O que não esperava era que, ao tentar socorrer um campista, se aproximasse demais da borda da fenda. Mais uma vez, segundos. Ela ouviu alguém gritar seu nome, mas o pânico tomou conta de seu corpo. Seria aquela sua morte patética? O fim dela? Sentiu o braço de Stevie a segurar, e, desesperada, Mary se agarrou com toda a sua força. Seu medo estava escancarado nos olhos azuis, que pareciam tempestades prestes a desabar. Tentou falar, mas as palavras não saíram. Apenas assentiu, respirando com dificuldade.
"Não me machuquei," ela finalmente conseguiu dizer, ainda chocada por estar viva e bem. Seus olhos correram para Stevie, que a havia segurado no último momento. "I think you just saved my life," sussurrou, a gratidão misturada com o resquício do medo que ainda a envolvia.
Stevie sentiu o alívio preencher seus pulmões quando o ar se esvaiu em um suspiro. Mary-Louise parecia assustada, mas ao menos não havia se machucado. O aperto das mãos de Stevie, tanto no braço da garota quanto ao redor do punho de sua espada, aumentou, mas, contrariando a tensão de seus músculos, ela abriu um sorriso. “Then we’re even.”¹ Respondeu ela.
Secretamente, ela admirara a filha de Zeus desde o momento em que a vira pela primeira vez. Bem, talvez um pouquinho depois disso, porque quando abriu os olhos e encontrou-se deitada no banco de trás de um carro, o pai, uma semideusa e um sátiro discutindo sobre o caminho que deveriam pegar até a Colina Meio-Sangue, ela estava ocupada demais com a própria raiva e confusão para se encantar por sua salvadora. Depois disso, porém, passara a observar Mary de longe — e às vezes de perto —, uma luz que de repente se apagara quando Carter Jones voltara ao acampamento sem vida, mas que ainda piscava de vez em quando.
“Ok, eu vou tirar a gente daqui, tá? Não me solta!” Exclamou Stevie. Calculadamente, ela desenterrou Invicta do chão para impulsionar-se à frente, com toda a resistência e velocidade que suas botas aladas tinham a oferecer. Então, em vez de continuar segurando Mary-Louise pelo braço — e temendo machucá-la dessa forma —, agarrou-a de lado, pela cintura, para que a fenda não a puxasse de novo. Aos poucos, conseguia deixá-las cada vez mais distantes do buraco e de seu campo de gravidade, até os olhos da filha de Niké finalmente encontrarem uma árvore antiga que se recusava a ser arrancada do solo. Sem hesitação, jogou o próprio corpo contra o tronco da árvore, para fazê-lo de escudo contra o puxão da fenda. Enquanto ficassem atrás dela, esperava, estariam seguras. “Você tá bem?” Perguntou novamente, mas agora permitindo-se respirar fundo e descansar nem que por meros segundos.
Soltou uma risada sincera com a tentativa de conforto da irmã, afirmando com a cabeça algumas vezes em afirmação de que havia a ouvido "Ok, anotado, nada de jujubas pra mim." solta um suspiro falso como se aquilo fosse um sacrifício apesar de os dois saberem que não era lá o maior fã de doces. Demorou um pouco até que falasse sua resposta para Stevie, claramente hesitando por um tempo antes de abrir a boca "Eu só levei minhas apostas com a sorte muito longe, minha inconsequência é o que vai me levar a morte e essas coisas que eu finjo todo dia que não sei." da de ombros, um sorriso um pouco incontrolável surgindo nos lábios apesar de não alcançar os olhos. Ele era mestre em encarar tudo pegando fogo com um sorriso nos lábios e talvez as vezes funcionasse em o convencer de que estava bem mas aquela vez o ato foi falho, imaginou por um segundo se talvez o problema apenas não fosse grande o suficiente para o fazer rir.
O sorriso se desfez lentamente após algumas tentativas de o fazer ir, encarando a irmã por um tempo com atenção antes de perguntar "O que eu fiz no seu sonho?"
Leo e Stevie compartilhavam o péssimo hábito de levar tudo com um sorriso no rosto. Era instintivo para ela àquele ponto, uma reação involuntária aos problemas que jogavam à sua frente — afinal, se não tentasse encontrar a graça neles, o que lhe restaria seria ter que lidar com eles, e não havia nada mais desesperador do que isso.
Infelizmente, para Leonardo, aquela similaridade também significava que a garota havia aprendido a identificar quais de seus sorrisos eram genuínos e quais eram meramente involuntários. Seus medos também eram parecidos: um filho da vitória só aceitaria a derrota no dia que morresse, inconsequência disfarçada de bravura. Ainda assim, somente a ideia de perder o irmão fez um arrepio viajar por sua espinha. “Você não vai morrer.” Disparou Stevie, quase não deixando o irmão terminar de falar. Então, percebendo o desespero no próprio tom de voz, respirou fundo e ajeitou a postura. “Essas visões foram só um jeito de mexer com a gente. Elas não estavam certas. Além do mais, se você morresse, eu te mataria.” Ela deu um empurrãozinho de ombro nele, novamente dançando ao redor da questão: não podia levar a situação completamente a sério sem perder a cabeça.
Da mesma forma, ela também levou alguns instantes para responder. Não sabia como dizer “você me humilhou, esmagou meus sonhos e aí eu morri” de um jeito que não soasse tão escroto, mesmo que soubesse que aquele Leo da visão não era o Leo que estava agora ao seu lado. No fim, decidiu que era melhor não dizer coisa alguma. “Nada que você de verdade faria. Ele só usou sua aparência para me deixar mal.” Respondeu. “Enfim, desculpa por cutucar esse assunto, é só que… Essas semanas têm sido um inferno.”
A adoração de Stevie à mãe não podia ser questionada: tudo sobre ela gritava o nome da deusa da vitória, fosse o brilho ganancioso em seus olhos ou o vigor imprudente que a preenchia sempre que um desafio lhe era apresentado. Tudo que a semideusa almejava era o reconhecimento da mulher que lhe dera a vida, uma que passaria correndo atrás de troféus, medalhas e fotos em pódios.
Mas o rumo à glória era mais complicado quando se era metade deus, metade mortal. E, por mais que Stevie tivesse certeza que a mãe nunca deixava de observá-la, ela nunca havia ouvido sequer o som de sua voz. Em quatro anos, quatro verões passados no Acampamento Meio-Sangue, Niké não lhe dera qualquer sinal de sua satisfação — ou mesmo de seu desapontamento. Talvez preferisse que ela lhe dissesse que estava decepcionada do que continuasse naquele insuportável silêncio.
Teresa Palmer is Nike, goddess of victory.
Talia Ryder is Stevie Rowe of cabin seventeen.
Eu queria saber o que Poseidon acha do resort da Circe. Ele é a favor ou é contra a privatização da praia na ilha dela? Ele vive de praia! Cês não tão curiosos pra saber não?
A imagem de Poseidon surgiu com o som de ondas quebrando ao fundo, e ele estava reclinado em uma poltrona feita de conchas, com uma água de coco na mão. Seus olhos brilharam de diversão ao ouvir a pergunta de Stevie. — Ah, o famoso resort da Circe... — Ele deu um gole exagerado no coco, fazendo o som do canudo reverberar na mensagem de Íris. — Privatizar praia? — Ele soltou uma risada curta, balançando a cabeça com deboche. — Ah, claro, porque limitar o acesso ao mar é uma ideia fantástica. — Sua voz transbordava sarcasmo. — Quer saber? Eu sou totalmente a favor... Deixa as ondas com passe livre, o vento não precisa de crachá e as marés vêm e vão como querem, mas os humanos? Ah, sim, vamos colocar uma bela cerca na areia e dizer: "A partir daqui, só com VIP!" — Ele fez um gesto como se desenhasse uma linha no ar, rindo de si mesmo. Poseidon tomou um gole exagerado do coco e piscou para Stevie. — Circe e suas excentricidades... deixar os campistas entrarem foi uma surpresa, e tenho certeza de que ela vai se arrepender. Especialmente com os homens, ela deve estar mordendo a língua até agora. Talvez já tenha começado a transformar uns em porcos de novo, só para manter o controle. — Ele sorriu com malícia. — Mas privatizar o mar? — Poseidon repetiu, indignado, mas riu alto desta vez, jogando a cabeça para trás. — Boa sorte com isso. O mar é meu, e sempre será livre. Quem achar que consegue controlar as ondas... bem, talvez precise de um banho gelado para cair na real. Eu me encarrego disso. — Com um aceno despreocupado, ele se desfez na espuma das ondas, sua risada ainda ecoando.
fechamento da fenda @silencehq.
menção: @nemesiseyes.
Stevie sabia o que estava por vir. Todas as tentativas anteriores de fechar a grande fenda que partira o Acampamento Meio-Sangue em dois, na fatídica celebração secreta dos conselheiros, haviam terminado em falha e ataques de monstros. O resto dos campistas e os diretores também sabiam, pois novas armas foram colocadas nas mãos dos semideuses e a expectativa era de uma batalha certa. Também era, porém, da possível aparição do outro traidor e, quem sabe, da revelação de sua identidade.
Ao comando de Quíron e de seu líder de patrulha, ela se colocou a postos — com a mão direita agarrava o cabo de Invicta e, com o braço esquerdo, apoiava Contenda. O torso estava protegido pela armadura forjada em Waterland, recentemente modificada e agora com a propriedade especial de tornar-lhe resistente a ácido e venenos (e, deuses, como era longa a lista de monstros que soltavam um ou outro). Na cintura, Conquistadora e sua mais nova arma, o bumerangue que apelidara de Ventania encaixavam-se em um cinto de couro; e, finalmente, nos pés, usava as botas aladas que ganhara como recompensa após sua fracassada missão.
Ela jamais poderia prever que, em uma questão de minutos, estaria sendo — literalmente — arrastada para o inferno.
Não fosse pelos bons reflexos e pela velocidade sobre-humana concedidos à filha da deusa da vitória, Stevie certamente teria saído voando junto às árvores e aos brinquedos do parquinho. Mas, em um ato de raciocínio rápido, ela fincou a espada no chão e agarrou-se a ela enquanto as asas das botas batiam contra o puxão da fenda. Foi assim que salvou não só a si mesma como a outros semideuses pelo caminho, escalando o solo como se fosse a parede da sala de treinamento e levando os outros a locais que eram distantes o bastante da fenda para não serem engolidos por ela.
“Alguns de nós são mais honrados que outros, pelo visto.” Tadeu a dissera. “No seu caso, chega a ser doloroso o quanto você é obviamente uma heroína.”
Poucos meses atrás, ela concordaria. Modéstia nunca fora uma qualidade cultivada por Stevie Rowe, cujos olhos famintos olhavam para figuras como Percy Jackson, Annabeth Chase e Leo Valdez e cobiçavam o poder que eles possuíam sobre o Acampamento. Quando Percy e os amigos eram citados, os campistas estremeciam. Quando entravam em um cômodo, todas as cabeças viravam em sua direção. Era isso que ela desejava ser: uma heroína, do tipo que os nomes paravam em livros de História e as figuras eram transformadas em estátuas.
Naquele momento, porém, ela não se sentia uma heroína. Não era o típico sorriso convencido que adornava seu rosto enquanto ela voava de um lado para o outro, recolhendo colegas e lutando contra o campo de gravidade da enorme rachadura no solo — era uma expressão de terror. De medo de ser picada por Campe ou envenenada por uma das cabeças da hidra, mesmo que as vozes ao seu redor gritassem que os monstros não eram reais. Se tinha medo deles, eram reais o suficiente. E, mais que isso, o olhar em seus olhos era do choque de alguém que assistira não só Elói, mas outro de seus amigos, Héktor, ser dominado pela consciência de Hécate e cair no chão, desacordado, sem demonstrar sinal algum de que se ergueria de novo.
Nada do que sentia lhe parecia heroico. Voar na direção oposta dos monstros em vez de enfrentá-los com certeza não era heroico. E, ainda assim, ali estava ela.
Então, de repente, tudo cessou. Ela viu a grande explosão de magia, o vermelho e o dourado misturando-se na nuvem pesada de poeira. Viu os monstros serem sugados para dentro da fenda, seus olhos tremeluzentes, como se as criaturas se desligassem. E, quando a poeira se desfez no ar, viu a terra costurada novamente, sem abertura alguma para dividi-la ao meio. Por um segundo, o silêncio se instaurou no campo de batalha enquanto as cabeças dos semideuses se levantavam para admirar as luzes verdes a flutuarem sobre suas cabeças.
Gritos vitoriosos irromperam, os semideuses correndo para se abraçarem e acudirem seus feridos. Stevie libertou um suspiro aliviado e, finalmente, sorriu. Havia sobrevivido à tormenta. Se fosse continuar a se martirizar, poderia fazê-lo depois.
Mas uma comoção diferente se criou entre a multidão de campistas. Alguns começavam a se mover apressadamente entre o restante, nomes sendo berrados sem resposta. Ela os conhecia, mas um em específico fez seu sangue gelar.
Rapidamente, ela olhou para trás, de onde havia se separado de sua equipe de patrulha.
“Tadeu.” Sussurrou Stevie.
Logo ela mesma afastava os outros semideuses com pequenos pedidos de licença e desculpas, esbarrando em ombros, quase tropeçando em pedras e galhos. Quanto mais procurava, mais tinha certeza de que ele não estava ali.
Não.
“Não, não, não, não, não…”
Uma pisada em falso e ela caiu sobre os próprios joelhos, palmas da mão na terra. Stevie não falhou em perceber onde elas estavam apoiadas: no mesmo pedaço do acampamento que, há meros minutos, a fenda se abria e esticava. E, agora, o lugar no qual seis semideuses foram vistos pela última vez antes de serem puxados para o abismo.
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defeitos fatais @silencehq.
menções: @santoroleo & o ilustre sr. d.
Em um instante, Stevie estava no bosque, espada em mãos e equipe de patrulha ao seu redor. Tinha saído às pressas, armadura posta desengonçadamente sobre o pijama e pés descalços na terra úmida noturna. À distância, gritos horrendos de dor faziam os pelos de seu braço eriçarem e o coração em seu peito bater mais rápido.
Mas, no seguinte, as árvores do bosque e o céu noturno, desprovido da luz da lua, não eram mais o que a cercavam. Elas giraram e deslizaram para longe, derreteram-se lentamente em sua visão periférica enquanto ela sentia o corpo pendendo para trás. E então, em vez delas, Stevie viu paredes brancas.
Estava parada no centro da sala de estar de uma casa estilo colonial, do tipo que enfeitava quadros de filmes e séries sobre famílias estadunidenses suburbanas. Era manhã, e o sol entrava pelas janelas que mostravam, lá fora, um gramado verde e uma cerca tão branca quanto as paredes, perfeitamente esculpida e alinhada. Contudo, apesar da visão, não havia barulho algum vindo do lado de fora — nenhuma buzina de carro, nenhum canto de pássaro, nenhuma criança brincando na calçada —, nem da casa que, apesar do tamanho notável, parecia vazia além de sua presença.
Stevie estudou as paredes. Elas estavam decoradas por estantes com retratos e estatuetas, plantas e cacarecos. Via uma ampulheta, uma escultura de porcelana de um cachorro e jarros de cerâmica. Também via diversas fotografias: ela mesma, com o pai, com McCartney ou sozinha. Com pessoas que não conhecia ou não se recordava, mas que estava abraçando no momento da foto. Com uma beca e diploma na mão, cores e símbolo de uma universidade que sabia não ser de Nova Roma.
“O que…” Deixou escapar, em um sussurro, mesmo que não houvesse concluído a própria pergunta.
As fotos eram de uma vida que não tinha, cheia de pessoas que não conhecia e coisas que nunca havia feito. Viu em cada retrato seu próprio envelhecimento, fotos que só seriam tiradas daqui a dez, quinze, vinte anos. Uma vida como mortal. Finalmente, entendeu ser isso.
“Stevie.” Uma voz masculina chamou às suas costas. Em um pulo assustado, ela se virou para encontrar Leo — mais velho, rugas ao redor dos olhos e na testa, fios brancos misturados à cabeleira cor de areia. Seus olhos demoraram alguns segundos para assimilar a imagem, mas, ainda assim, reconheceria o irmão em qualquer lugar.
“Leo. O que… O que tá rolando? Onde a gente tá?” Perguntou ela.
“Não é uma questão de onde. É uma questão de quando. Essa é sua vida, Stevie, seu futuro.”
A semideusa soprou uma risada.
“Ok, tá. Mas sério, o que é isso? Como a gente parou aqui?” Ela insistiu.
A expressão do irmão assumiu um ar debochado, um sorriso torto nos lábios.
“O que é tão engraçado? Você acha que é boa demais para isso?” Ele gesticulou para a sala, a casa, a vida exposta nas molduras. “O que você esperava? A glória dos heróis?” Leo riu. “Você acha mesmo que merece ela?”
De repente, o rosto de Stevie enrijeceu. Rapidamente percebeu: aquele não era seu irmão. Mas, se não era ele, então quem? Ou o quê?
“Você é tão medíocre, Stevie. Só mais uma semideusa que acha que salvará o mundo. Você não conseguiu nem concluir uma missão. Heroína? Não. Você é uma fracassada. Jogou a carreira fora antes de conquistar qualquer coisa de valor e agora vai provar a todo mundo que é uma semideusa incompetente também. Esse…” Ele indicou a sala mais uma vez. “É o único legado que você vai ter. Uma vida qualquer para uma pessoa qualquer. E você devia ficar agradecida.”
Stevie sentiu uma lágrima solitária deslizar por sua bochecha. Aquelas palavras eram terríveis por si só, mas ouvi-las saírem de Leo… Era um sentimento estranho e angustiante, que lhe apertava o peito e amarrava a garganta, porque, por algum motivo, em seu âmago, estivera esperando por aquele momento. O dia em que seria desmascarada pelos que amava, em que eles finalmente perceberiam a farsa que era e o quão despreparada estava para a guerra ao horizonte.
A imagem de uma filha de Niké orgulhosa e arrogante era reconfortante — era a armadura que trajava para enfrentar a realidade de que tudo aquilo era novo demais para ela. Ao mesmo tempo em que ansiava pelo campo de batalha, pela chance de provar-se digna e habilidosa, também pedia aos deuses para que ela ainda não viesse. Que esperasse ela estar pronta, segura, com mais algumas contas em seu colar e histórias para contar aos campistas mais novos ao redor da fogueira. Que tivesse a chance de amar e ser amada, de entender quem era quando não precisava dos treinadores, dos troféus e medalhas, dos diretores do Acampamento ou dos deuses para dizê-la.
“Não. Você não é o Leo. Ele nunca falaria essas coisas para mim.” Stevie balançou a cabeça. Engolia o choro para que a voz conseguisse sair. “E você tá errado! Eu não sou… Só porque não cheguei lá ainda, não significa que não posso. Eu não sou medíocre, e eu vou provar!”
A gargalhada ecoou pela sala, pelos ouvidos de Stevie, dentro de sua mente. A figura não soava mais como seu irmão. Tinha a voz dele, mas também tinha outra por baixo, grossa e distorcida, como um disco tocado de trás para a frente. De repente, ele parecia maior, e ela, menor. A sombra da criatura recaiu sobre a garota quando ela disse:
“Muito bem. Prove, então.”
Ele ergueu a mão e estalou os dedos. Como o bosque, as paredes da sala giraram e derreteram, tinta branca tornando-se cinza e depois desaparecendo. Em vez dela, verde: o verde do gramado e das árvores que rodeavam a Colina Meio-Sangue. Embora se recordasse de estar no bosque à noite, era dia, e ela estava de pé no centro do Acampamento. O que a surpreendeu, porém, não foi o local ou a hora, mas sim o que acontecia à distância. A queima de uma mortalha criava uma nuvem de fumaça, que subia ao céu ensolarado.
“Melhor agora?” Outra voz masculina ao seu lado perguntou. Quando Stevie virou a cabeça, encontrou Dionísio em vez do irmão, camisa de leopardo com alguns botões abertos e uma lata de Coca Diet na mão.
Ela não o deu atenção. Em vez disso, caminhou lentamente colina abaixo para aproximar-se do funeral. Semideuses se reuniam ao redor do fogo, alguns chorando e outros consolando os amigos, oferecendo-lhe palavras de conforto e condolências. Via algumas faces familiares, mas foi apenas ao perceber a concentração de campistas do chalé 17 que a curiosidade despertou. E então, ao mirar a mortalha novamente, percebeu os detalhes em dourado e branco no tecido, os bordados de asas e coroas de louros o enfeitando.
“Esse é… meu funeral?” Stevie perguntou, em voz alta. Nenhum dos semideuses percebia sua presença, mas ela sentia Dionísio — ou o que quer que estivesse tomando sua forma — próximo a ela. “Eu morri?”
“A glória dos heróis vem com um preço, senhorita Rowe.” O deus respondeu. Era a primeira vez que ela o ouvia falar seu sobrenome certo. “Isso é o que você queria, não era? Uma morte heróica. Ser imortalizada na História.”
Olhar fixado na fogueira, Stevie negou com a cabeça.
“Não… Isso não é o que eu queria.”
Ela continuou a encarar as chamas, apenas o som do choro de seus amigos e do crepitar da madeira ao fundo.
Arfando, Stevie acordou na terra molhada do bosque. Ela rolou para o lado, barriga no chão, e tossiu — o ar em seus pulmões parecia sujo, como se ela houvesse inalado fumaça. O coração palpitava tão violentamente que conseguia senti-lo nos tímpanos, mas, depois de alguns segundos, arranjou força nos braços para apoiar-se neles e levantar.
Gradativamente, os semideuses saíam de seus transes e ajudavam uns aos outros a se erguerem. A garota procurou instintivamente por sua equipe de patrulha, mas achou-a não muito longe dela, tal como estava antes de apagarem. A visão dos campistas restantes, no entanto, era horripilante: olhos pálidos, bocas abertas, veias vermelhas marcadas na pele. Também estivera daquela maneira?
Com as horas, descobriria que tudo havia sido mais um ataque do traidor. O último, se ele cumprisse com sua ameaça. Contudo, o que vira e ouvira naqueles terríveis minutos de visão ficariam em sua memória por dias, o calor das chamas que engoliam sua mortalha e o cheiro da fumaça pegando-lhe de supetão em momentos aleatórios nas próximas semanas, como um lembrete — do que seria e do que poderia ser.
Roupas para Stevie são uma mera questão de praticidade e conforto. Ela veste o que se sente bem usando, não só em relação a estilo como, principalmente, à liberdade de se mexer como quiser, sem firulas ou medidas justas para a atrapalharem. Isso não significa, no entanto, que não é estilosa — sua vaidade não é nenhum segredo, tampouco seu gosto por estampas coloridas e roupas de marca. A vantagem de uma carreira bem-sucedida no esporte — e o legado de um pai ex-atleta olímpico — é o acesso a artigos de esporte das melhores marcas, muitos de seus tops, shorts e tênis assinados por marcas como Adidas, Puma, Fila e, sua favorita, Nike.
Ela também é frequentemente vista usando regatas de times de basquete, e, em certo verão, trouxe uma leva de regatas autografadas para os amigos amantes do basquete no Acampamento Meio-Sangue. Quanto às camisetas do Acampamento em si, bem, nenhuma em sua mala manteve as mangas, pois ela já transformou todas em regatas, croppeds, tops e até bandanas.
Stevie não é, de forma alguma, uma pessoa noturna. A rotina rigorosa de treinamentos desde a infância não lhe permitia tempo nem energia para passar noites em claro, exceto pelas festinhas de fim de semana em que se enchia de álcool ou energético. Nunca misturem os dois, crianças, é perigoso!
Não muita coisa mudou desde que começara a passar os verões no Acampamento Meio-Sangue, já que gastava o dia em treinamento e à noite preferia não ser engolida por harpias. Contudo, se antigamente dormia a noite inteira e acordava plenamente descansada, nos últimos tempos, seu sono se tornou leve. Ser atacada em plena madrugada gera algumas inseguranças. Portanto, não é incomum que acorde no meio da noite por conta de qualquer barulhinho e aproveite para pegar um lanchinho em sua gaveta secreta de guloseimas no chalé de Niké, que ela só compartilha com os de verdade.
Família é um dos aspectos mais importantes de sua vida, se não o mais importante de todos. O apego ao pai é inegável e uma das partes mais difíceis de estar a tanto tempo longe de casa, ainda mais sabendo do quão descontrolado está o mundo mortal, e o amor pelos irmãos de chalé é tudo que precisa para lutar com unhas e dentes se necessário.
Além do pai, porém, não possui tanto contato com a família paterna, mesmo que a ame — os Rowe passavam o ano viajando para que Stevie participasse de competições, e, mesmo antes disso, o pai já se mudou várias vezes antes do nascimento da garota e em seus primeiros anos de vida. Sendo assim, ela não tem muitas oportunidades para visitar os avós, tios e primos, com quem na maior parte do tempo conversa apenas por mensagens e chamadas de vídeo. O tio é com quem fala mais frequentemente, irmão gêmeo de seu pai e o eterno tio descolado.
A amizade com a ex-cunhada poderia ser estranha, já que Stevie é extremamente apegada ao irmão mais velho, mas cresceu e desenvolveu-se além da conexão com o rapaz: Pietra é, hoje em dia, alguém que guarda próximo ao coração e por quem faria inomináveis loucuras se ela a pedisse. Embora não sejam o tipo de amigas que dividem sentimentos profundos ou grandes segredos — o que não é estranho para Stevie, que raramente fala com seriedade sobre o que a aflige —, nutrem um carinho inconfundível uma pela outra e, de certa forma, a filha de Niké a enxerga como uma figura de irmã mais velha. Foi por isso que, nas semanas em que o Acampamento estava decidido a julgar e oprimir os Filhos da Magia em resposta aos ataques do traidor, ela arrumou várias discussões e dispersou debates desnecessariamente estúpidos sobre a garota e o chalé de Hécate, ainda que nunca tenha falado a @pips-plants sobre.
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Stevie nunca enxergara a si mesma como uma covarde. Desde jovem, mesmo sabendo dos riscos que uma lesão ou fratura poderiam trazer à sua carreira no esporte, arriscava-se nos desafios e aventuras com perfeita confiança de que sairia ilesa. Também não lhe assustava a ideia de falar em público, até quando várias luzes e câmeras estavam sobre ela, e aproximar-se das pessoas ou fazer investidas amorosas — fracassadas, muitas vezes, mas ainda assim divertidas, pois tudo via como esporte — lhe vinha com naturalidade. E, desde que chegara ao Acampamento Meio-Sangue até poucas semanas atrás, enfrentara o perigo e as dificuldades de ser um semideus com um sorriso no rosto e uma determinação nos olhos.
Contudo, depois do ataque noturno do traidor — ou traidores, como agora sabe — e dos acontecimentos consequentes ao fechamento da fenda, a audácia em seu coração tem se ofuscado. Pela primeira vez em sua vida, Stevie Rowe entende o que é estar apavorada, e ela ainda não descobriu o que fazer com o sentimento. De repente, tudo é real demais, incluindo a possibilidade de perder: os amigos, a iminente guerra e todo aquele fantástico universo que ela, ao longo de quase cinco anos, descobriu amar.
Poucos são os hobbies de Stevie não conectados a esportes. Quando criança, passou por quadras de tênis, tatames de luta, campos de tiro ao alvo e pistas de atletismo antes de finalmente optar pela escalada, mas nunca deixou de praticar outras modalidades. Atualmente, a natação é sua favorita, além de ter encontrado amor pela corrida de pégasos no Acampamento Meio-Sangue.
Se tivesse que falar de outros hobbies, porém, provavelmente citaria colecionar. Gosta de ter coleções de várias coisas, desde ímãs dos locais que visita e ingressos de shows, convenções e sessões de cinema até action figures caras e edições limitadas de sapatos. Desde que fora elegida conselheira do chalé de Niké, transferiu todas as estantes com suas pequenas coleções que mantinha no antigo quarto para o novo, lotando suas paredes de coisas como conchinhas da praia da Colina Meio-Sangue, presentinhos que recebera de outros campistas e, claro, as medalhas e troféus que conquistara ao longo dos anos (e que não foram derretidas para refazer a estátua da mãe no lado de fora do chalé). Além disso, agora que possui várias armas e artigos mágicos, faz questão de expô-los quando não estão sendo usados.