A gente arruma desculpa para legitimar nossa existência. Tenho um amigo que vive da herança de uma estância e quando cruza comigo inventa que está escrevendo um romance. Faz 22 anos que ele diz: "Estou terminando o livro. Coisa digna de Dostoievski, irmão". Aí ontem apareci lá no bar e ele veio me alugar. Tomei uma dose de três reais, acendi um cigarro e mandei a real: "Chega dessa merda, bicho. Tu não escreve porra nenhuma. Aceita tua vida de herança de estância. Não tenha vergonha. Não tem glamour nenhum em ser escritor. O próprio Dostoievski sofreu pra caralho. Quase foi fuzilado. Sem falar nos problemas financeiros por conta do álcool e vício em jogo. Chega de ficar me alugando com essa ladainha". Aí ele ficou cabisbaixo no balcão até que tomou coragem e colou na minha mesa com uma garrafa de caninha 51 ouro. Encheu meu copo e pá: "Tu estragou minha viagem, mano. Eu nunca quis ser só dono de estância. Vou viajar em quê agora?" "Sei não" aí bebemos mais umas doses em silêncio até que ele levantou meio puto e falou que ia pra casa pensar numa mentira nova. Bebi mais umas doses baratas, abri um sorriso encardido e lembrei da frase do filósofo Albert Camus: "A imaginação oferece às pessoas consolação por aquilo que não podem ser e humor por aquilo que efetivamente são".
Diego Moraes
















