"Ulisses, Estou lhe escrevendo mais uma vez e sei que esta carta talvez nĂŁo chegue atĂ© vocĂȘ, mas os propĂłsitos que trazem minhas palavras sĂŁo os mesmos propĂłsitos de outrora. Prometi a mim mesma, nĂŁo me recordo quantas vezes que lhe escrevi dessa forma. Talvez eu tenha escrito muitas vezes, mas apaguei pois havia esperanças. Estou lhe deixando, Ulisses. Como jĂĄ o deixei muitas vezes sem ao menos tĂȘ-lo tido para mim. Um belo dia o coração jĂĄ nĂŁo sangra, jĂĄ nĂŁo chora, jĂĄ nĂŁo geme, porque acostumou-se com a dor. Eu, Ulisses, nĂŁo posso me calcar no mesmo erro e nos mesmos enganos, meu coração nĂŁo pode sobreviver assim. Ă difĂcil e penoso deixĂĄ-lo, mas ao mesmo tempo eu penso que nĂŁo serĂĄ assim tĂŁo doloroso, porque afinal de contas vocĂȘ nunca foi meu. Convivemos poucas vezes, mas foram o suficiente para que eu absorvesse certas manias suas, como a maneira com que vocĂȘ lava os talheres. Sim, Ulisses, uma Ășnica vez que o vi lavar os talheres, em seguida eu me vi lavando da mesma maneira que vocĂȘ, passando a esponja duas vezes, de cima para baixo no cabo das facas, garfos e colheres. E por falar em facas, tenho meus sonhos destroçados. SĂŁo migalhas, Ulisses. Migalhas infames, destruĂdas e arrasadas. Eu sempre lhe fui devotada e fiel, preocupando-me com seu estado de saĂșde, psicolĂłgico e seu coração. Mas veja Ulisses, agora que atravesso um mar de dĂșvidas onde gostaria de lhe contar tudo, onde estĂĄ vocĂȘ, Ulisses? VocĂȘ acha que sĂł vocĂȘ sofre, mas veja bem, Ulisses, vocĂȘ Ă© o maior causador dos seus problemas. Esqueceu-se dos planos de Deus e entregou-se ao rancor dos seus sonhos devastados. Sou a Ășltima pessoa do mundo que lhe desejaria mal, sou incapaz disso muito embora jĂĄ tenha me esforçado para tanto, mas vejo vocĂȘ errando Ulisses, mais uma vez. EntĂŁo, depois que vocĂȘ chorar e amargurar mais um insucesso na sua vida amorosa, eu estaria ali, esperando para lhe acolher em meus braços, qual mĂŁezinha amorosa, que deseja seu bem acima de tudo. E talvez assim, Ulisses, vocĂȘ me veria daquele jeito que eu sempre sonhei, do jeito em que vocĂȘ me olhava naquela tarde na França, onde nos conhecemos e nos perdemos, mas nem sabemos quando. Ah, Ulisses, eu vou deixĂĄ-lo a prĂłpria sorte, muito embora em minhas oraçÔes vejo seu rosto sorrindo e rogo a Deus para que lhe proteja e lhe faça enxergar a verdade. Sei que ainda tornarei a vĂȘ-lo muitas vezes em meus sonhos que se repetem com vocĂȘ, mas Deus vai resguardar meu coração dessas lembranças turbulentas e felizes, as quais eu nunca mais poderei vivĂȘ-las. Ele me darĂĄ forças e fĂ©. Eu resistirei as lĂĄgrimas ao acordar. Seja feliz, Ulisses, pois o sorriso que nunca foi meu, hoje Ă© de alguĂ©m. Mas que ele nunca se apague, muito embora eu saiba que vocĂȘ ainda irĂĄ chorar. Eu o estou deixando, sem nunca tĂȘ-lo tido. Digo adeus as mĂșsicas que ouvi pensando em vocĂȘ, aos sonhos melancĂłlicos de outrora, as esperanças vĂŁs e frĂĄgeis que fertilizaram meus sonhos de mulher por todo esses tempo. NĂŁo poderei mais alimentar meu coração de esperanças desventuradas, que se esvaem como areia ao vento. Ulisses... Meu coração Ă© um vale de lĂĄgrimas. Que um dia Deus se apiede da minha alma e mostre os sagrados motivos de termos cruzado nossos caminhos, onde meu coração foi crucificado por este amor. Adeus, Ulisses. Que Deus vele por nĂłs... Clarice."