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Streets of Positano

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The Big Blue (1988)
She’s Not Afraid (nova versão)
— Louis, me espera. Eu não consigo te acompanhar usando esses saltos! — Diana reclama e eu paro de puxá-la.
Olho para trás, para ela. Parece aflita, abanando o rosto com suas mãos, olhando por cima do ombro a todo instante. Os cabelos estão soltos, balançando levemente com a brisa da noite. O vestido apertado, com um grande decote me faz sorrir, pensando no quanto aquela mulher é linda.
— Você acha que alguém ouviu a gente? — Sua voz me desperta do devaneio e eu balanço a cabeça.
— Não, alguma das suas amigas já teriam ligado.
Ela faz uma careta para o chão e eu ainda estou sorrindo, porque sei o que significa.
— Você deixou o celular em casa, não deixou? — Pergunto, arqueando uma sobrancelha.
Diana assente, depois me olha e nós dois rimos. Ela dá alguns passos para mais perto de mim e pega minha mão. Seus olhos brilham e eu sei que ela está empolgada.
— Essa sensação não é ótima? — Pergunta, nossos dedos estão apertados. Estamos caminhando lado a lado. — Eu acho que nunca vou me cansar de fazer isso!
— De fugir de casa pra passar a noite num pub, com um cara que suas amigas odeiam? — Franzo as sobrancelhas, fingindo que estou curioso pela resposta.
— Louis, elas não te odeiam de verdade… — A olho quando ouço o tom divertido em sua voz, que me deixa realmente curioso. Diana está sorrindo. — Elas só odeiam homens em geral, eu acho.
— Uau, eu me sinto bem melhor.
Ela ri e me dá um beijo na bochecha. Os saltos a deixam alta o suficiente para não precisar se esticar.
— Você entendeu — Fala ela, olhando para os carros estacionados na rua. — Cara, é melhor deixar seu carro mais perto da próxima vez.
O carro está um pouco mais à frente. Quando entramos, ligo o aquecedor. Diana está com as bochechas coradas da nossa pequena caminhada e acho que é do frio da noite, mas ela recusa quando ofereço meu casaco.
— Você é tão… — Franze o nariz, ajeitando o cinto de segurança.
— Tão o quê? — Incentivo, ligando o carro e saindo da vaga, concentrado.
— Tão Louis! Você parece um clichê de namorado.
— Eu poderia ser um clichê de namorado melhor ainda se eu fosse um namorado. — Arqueio a sobrancelha em desafio. Quero que ela responda.
Diana sabe o que eu quero dizer, mas apenas ri, como se eu tivesse contado alguma piada boba e ela só tivesse rido para não me deixar parecendo um idiota. E eu sinto um idiota. Reviro os olhos e sorrio, olhando de relance para ela, fascinado.
— Para onde hoje, senhorita?
— Para o lugar mais badalado da noite, senhor!
Obedeço, seguindo para onde eu sei que Diana vai gostar. E enquanto conversamos sobre tudo, sobre o dia, sobre as aulas da faculdade e qualquer outra coisa, eu me pego pensando no quanto eu queria fazer parte da sua rotina e no quanto dói não poder.
Porque eu sei que ela é viciada na sensação de não me deixar ir. Ela gosta de me ter por perto, mas não o suficiente para me pedir para ficar. Ela gosta disso e ela sabe que me tem na palma da mão sempre que quiser.
***
— Ei, Diana!— Grito, tentando ser ouvido acima da música alta. — Você já quer ir mesmo?
Ela segue, meio dançando, meio desviado das outras pessoas. O lugar está lotado e tento não perdê-la de vista, é difícil e ela não facilita. E eu sei que é um jogo que ela faz comigo. Eu quero alcançá-la e sentir seu beijo de novo, mas se quiser, tenho que jogar.
Diana se vira para mim e para. Alguém esbarra em seu ombro, mas ela ignora. Está sorrindo.
— Louis, já estou cansada — Diz quando a alcanço. Estou perto o suficiente para ouvi-la bem.
Ela puxa minha mão e volta a dançar, me levando junto. Eu a giro e ela ri quando termina em meus braços. Seus olhos brilham maliciosamente e eu me sinto perdido. Diana me beija e quando sente que estou retribuindo, se solta dos meus braços e continua andando em direção à saída.
— Espera! — Corro atrás, mas a perco de vista.
Procuro, olhando em volta e desviando das pessoas ao meu redor, é quase impossível. Continuo andando para a saída, pensando que talvez ela esteja me esperando lá.
Quando a encontro perto da porta, há um homem grande impedindo que ela saia. Ele parece jogar charme, mas é estranho a forma como olha para o decote do vestido.
Diana diz alguma coisa, visivelmente constrangida e o homem ri em desdém. Eu detesto aquilo e me adianto até ela.
— Achei você! — Digo, pousando braço de forma protetora em seus ombros, fingindo não notar o homem. — Vamos?
— Sim, vamos — Responde aliviada, enrolando minha cintura com os braços.
— Ah, o seu namorado — O homem fala desinteressado, saindo da porta.
Diana acena com a cabeça para o estranho e ele logo se mistura as outras pessoas na boate. Ela se vira para me olhar.
— Obrigada — Diz, piscando. Ela me abraça forte e sinto seu coração acelerado — Podemos ir agora?
— Claro, vamos.
Estamos no carro, sua cabeça está apoiada no vidro e seus olhos estão fechados. Uma música toca baixinho rádio e quero deixá-la quieta. Sei que não bebeu tanto, mas também sei que ela dançou muito e talvez esteja cansada, por isso dirijo em silêncio.
— Achei tão fofo como você chegou em mim na saída da boate — Comenta, num sussurro.
Desvio a atenção da rua por um segundo, para poder olhá-la, na mesma posição.
— Só fiz meu dever de namorado. — Respondo rindo fraco, ora olhando a rua, ora olhando para ela.
— Você não é meu namorado.
— Eu sei — Suspiro, parando de rir.
Diana afasta a cabeça do vidro e me olha curiosa. Finjo não notar seu olhar em mim, mas me sinto nervoso.
Quando paro em frente a casa dela, descemos do carro juntos. Não preciso me preocupar com suas colegas de quarto, não aquela hora.
Diana tira os saltos e os segura nas mãos. Saltita um pouco, sentindo o chão. Sorri para mim quando estico a mão e ela segura meus dedos nos seus.
— Não está com medo das megeras? — Pergunta enquanto subimos a pequena entrada da sua casa.
Eu rio, a puxando para mim. Seus braços nus estão frios e ela treme, aninhando a cabeça em meu peito. Estou sentindo seu perfume, distraído, quando sinto seus lábios em meu pescoço e o arrepio corre pela minha coluna.
Com uma mão em seu queixo, ergo seu rosto para o meu e a beijo. Sem os saltos ela está mais baixa e eu preciso me curvar um pouco, mas ela também se estica, retribuindo.
É um beijo quente, sei disso porque sempre que estou com ela, sinto como se estivesse em chamas. Eu amo a sensação, poderia queimar o dia todo nisso.
Cedo demais ela se afasta e há um sorriso malicioso em seus lábios e então eu sei que perdi.
— Até amanhã, Louis — Diz, abrindo a porta e soprando um beijo antes de sumir dentro de casa.
Fico olhando a porta fechada à minha frente. Eu odiava aquela parte, mas ainda sim continuo sorrindo.
***
Deitado na cama, não consigo dormir. Há pensamentos demais, que me fazem revirar na cama ao ponto de fazer eu me sentir sufocado. Estou pensando em Diana e em como ela faz eu me sentir.
Na mesa de cabeceira, meu celular vibra. Eu sei que é ela, mas demoro a atender porque estou indeciso, porque o pensamento mais frequente é o que mais me assusta. E é Diana.
Não resisto e atendo no terceiro toque.
— Eu estava pensando — começa ela, a voz rouca através da ligação — que talvez você estivesse com medo do filme que vimos mais cedo, no cinema, e então quis ligar pra fazer você esquecer esse medo bobo.
Balanço a cabeça rindo. Eu me sento na cama, apoiando as costas na cabeceira.
— Tem certeza que não é você que está com medo? — Pergunto, ouvindo minha voz ecoar no quarto silencioso.
— Absoluta certeza que não sou eu!
— Aposto que você está toda encolhida debaixo do cobertor, tremendo de medo, talvez até já tenha pensado em correr pra cá só pra poder dormir abraçada comigo, em segurança.
— Há, eu aposto que se qualquer assassino da serra ou, sei lá, fantasma assustador, que aparecesse aqui, ele sairia correndo da Amanda. Você tem que ver a máscara de hoje! — Ouço a risada abafada dela.
— Espera, então já sei do que você está com medo, é da máscara que ela está usando! — Implico, rindo.
— Idiota! — Ela gargalha do outro lado da linha — Já disse que eu não tenho medo de nada.
Ouço Diana suspirar e sinto que ela está pensando em algo sério, mas não quero perguntar o que é.
— Não consegue dormir?
— Não.
Fecho os olhos e passo a mão que não está segurando o celular no rosto, pensando em como falar em voz alta o pensamento mais gritante da minha cabeça.
— Eu gosto de você, Diana. — Digo finalmente.
— Eu sei, Louis. — Responde depois de uma pausa e então depois há mais silêncio. Respiro fundo, já achando que ela vai desligar — Eu só não quero me magoar… — Ela completa, tão baixo que eu quase não entendo o que diz.
Assinto, mesmo sabendo que ela não pode ver.
— Eu acho que não consigo mais, Diana.
— O quê? — Sua voz estava mais alta, curiosa.
— Eu… — Tentei, mas não sabia como continuar.
— Você o que, Louis? — Sua voz parecia aflita e eu me senti mal. — Ei? Tá ai?
— Estou… É que eu fico mal, sabe, com o que fazemos… Quer dizer, eu amo tudo, essa brincadeira nossa, essa aventura…
— Louis, do que você está falando?
— É doloroso amar você.
Silêncio novamente. Eu só ouvia nossa respiração descompassada, nós dois estamos ansiosos.
— Eu preciso desligar, tenho que fazer umas coisas… — Ela diz, voltando a sussurrar. — Podemos resolver isso?
— Sim, podemos. Boa noite, Diana.
Ela desliga antes de mim, sem falar nada. Mais uma vez ela me deixou sozinho. Bloqueio a tela do celular e me ajeito na cama. Está frio, mas o quarto ainda parece abafado demais. Demoro a relaxar, mas quando estou quase dormindo, ouço a campainha.
Sento na cama alarmado, pensando em quem poderia ser. A hora no celular marca três e dezessete. Franzo o cenho sonolento e me levanto esfregando o rosto com as mãos, para despertar.
— Quem é? — Pergunto irritado enquanto procuro as chaves.
— Só abre a porta, idiota! — Ouço Diana falar, sua voz treme um pouco.
Quando acho as chaves eu me atrapalho ao abrir a porta, pensando em todas as coisas ruins que possam ter acontecido para ela aparecer à minha porta quase às quatro da manhã.
— Diana, o qu… — Paro, olhando para ela. — O que você está fazendo?
Diana está segurando uma mangueira sobre sua cabeça, molhada até os pés e está fazendo uma cara exageradamente triste. Ela não aguenta e sorri, mas continua segurando a mangueira. Quando vê minha cara surpresa, fica séria, pelo menos o mais séria que ela consegue.
— Bem, se você não entendeu eu estou encenando uma cena triste, na chuva, onde a pessoa vai a porta da outra pedir desculpas e declarar seu amor. — Explica, baixando a mangueira, parecendo frustrada.
— Não está chovendo — Digo, juntando mais ainda as sobrancelhas, sem entender.
— A mangueira é pra isso, dã!
Fico olhando para ela, sem dizer nada. Quero rir, mas quero perguntar o que exatamente está acontecendo. Lembro do que ela disse, da frase toda.
— Declarar o amor? — Cruzo os braços, desafiando ela a continuar.
Vejo suas bochechas corarem, mas ela abaixa a cabeça e se vira, anda até a torneira e desliga. Volta a ficar de frente comigo e sorri, saltitando de frio.
— Sim, Louis. Isso mesmo. O que estragou meus planos foi o tempo, não está chovendo — Diana olha para o céu parcialmente nublado, dá de ombros. — E eu estou nervosa.
— Você é maluca, Diana, sério. — Rio, baixando os braços.
— Sim, eu sou… — Diz e vejo aquele brilho em seus olhos no momento que ela se precipita em minha direção.
Sua boca está na minha e seu corpo molhado está colado ao meu. Minha blusa agora também está molhada e eu sei que está frio, mas eu me sinto quente. Diana sorri enquanto me beija e eu gosto da sensação.
Ela separa nossos lábios, mas mantém as mãos em minha nuca. Os dedos estão gelados. Ela me olha apreensiva, ansiosa.
— Eu gosto de você, pra caralho. — Ela diz, tirando o cabelo molhado do rosto, sem deixar de me olhar nos olhos. — Eu só tenho medo disso. É tão novo pra mim essa coisa de me apaixonar ou sei lá…
Abraço-a o mais perto que posso, porque ela está tremendo de frio e também porque a quero mais perto. Puxo Diana para dentro de casa, onde é mais quente. Ela se afasta do meu abraço sorrindo e fecha a porta atrás de si.
— Sem portas para bater… — Sussurra, o rouco da sua voz ecoa até mim e seu sorriso se torna malicioso.
— É, acho que sim — Digo, mas minha testa está franzida porque não entendo o que ela quer dizer.
— Louis, querido, agora não posso bater a porta na sua cara, ou te enxotar do meu quarto depois de transar, ou fugir de você. Sabe por quê?
Suas mãos se agarram as minhas e ela começa a balançar, feliz, como se dançasse uma música lenta comigo. Ela se aproxima mais, me abraçando e logo nós dois balançamos juntos. Ainda não sei a resposta que devo dar, mas ela espera alguma coisa.
— Hum, tudo bem, eu não sei. Por quê? — Desisto, sorrindo enquanto continuamos dançando pela sala, lentamente.
— Porque eu quero ficar dessa vez, quero namorar você e te apresentar pra todo mundo e sair com você sem minhas amigas acharem que a gente vive em pecado ou sei lá o que aquelas malucas pensam.
Sinto o sofá atrás dos meus joelhos, mas não consigo me segurar antes de cair sentado. Diana está me olhando com um sorriso imenso e eu sei que estou com cara de idiota.
— E então? O pedido ainda está de pé? — Pergunta, me olhando de cima. Suas mãos agora estão apoiadas na cintura, o queixo erguido em desafio.
Reviro os olhos, mas há um sorriso. Agarro sua cintura e ela senta em colo, as mãos apoiadas em meu peito. Nos olhamos profundamente, o calor dela me queima e eu amo a sensação.
— Posso refazer agora — Digo me inclinando para roubar um beijo, mas ela segura meus ombros e não consigo alcançar sua boca.
Ela ergue uma sobrancelha, desdenhosa, mas há uma hesitação. Ela quer algo concreto, quer uma certeza do que eu também quero.
— Diana, quer namorar comigo? — Pergunto, pressionando meus lábios para não deixar o sorriso sair.
— Que pergunta idiota. — Responde séria, o que me deixa preocupado, mas então sorri e me beija lentamente, depois se afasta para me olhar, com diversão nos olhos e no sorriso maldoso. — É claro que eu quero.
E me beija de novo. Sua boca se gruda a minha com intensidade. Minhas mãos estão espalmadas em suas costas, apertando-a contra meu corpo, sentindo que não estamos perto o suficiente. Quero estar além disso e ela deixa claro que queremos a mesma coisa.
Yellow Raincoat
TRÊS O sol afagou meu rosto delicadamente, me fazendo abrir os olhos e encontrar a claridade da manhã dançando através das cortinas semi-abertas. O beliche que eu dividia com Ana rangeu levemente quando me sentei para me espreguiçar. O ar no quarto estava um pouco frio demais, porém a cama estava quente e aconchegante, um convite perfeito para voltar a dormir. Puxei o celular de debaixo do travesseiro. — ANA! — Gritei, saltando da cama e cutucando minha amiga. Um pé tentou acertar minha cara. Desviei e acertei um tapa em Ana. — Olha só! Não tenta me chutar não, nanica! — Reclamei, me esquivando mais uma vez dos ataques de Ana. — Não devia ter te dado a cama de cima! Quer ficar alta pra abusar, não é? — Me deixa dormir, vaca! — Ana se enrolou novamente no cobertor azul. — Estamos atrasadas, querida, acorda. — Falei entrando no banheiro. Quando terminei o banho e sai Ana estava sentada na cama de baixo de um dos outros beliches vazios, de uma nossa colega de quarto. — Perdemos os dois primeiro tempos e ninguém veio aqui, que droga! — Resmungou ela se levantando preguiçosamente com a toalha nas mãos. — Amigos, ein? — Tenho certeza que sou a única corajosa a acordar você, Ana — Respondi, colocando o uniforme. — Clara, me diz uma coisa que, tenho certeza, não quero ouvir — Ana saiu do banheiro tremendo na toalha. — Já passou a hora do lanche? — Aham — Sorri ao ver a cara de Ana. — Vamos, se arruma logo, dá pra gente chegar na aula de geografia. Ana tremia de frio sob a blusa de mangas que usava. Sua pele morena parecia um pouco mais avermelhada que o normal, os olhos um pouco menores. No começo pensei que era sono, mas Ana espirrou e fungou, cruzando os braços. — Ana, você está bem? — Perguntei me virando para ela. — Aham, peguei um resfriado, cara. Acho, ou alergia, não sei. — Ela fungou de novo e continuou andando comigo. — Quer que eu pegue um remédio.ou algo assim? — Ana apenas balançou a cabeça e sorriu de leve. Puxei meu grosso casaco de frio do cabide e vesti. Calcei as botas depois de colocar dois pares de meias e peguei na gaveta minha touca azulada. Se estava frio dentro do quarto, o lado de fora deveria estar congelando. Ana colocou mais um casaco por cima da blusa de mangas e calçou seus tênis de lona preto. Decidimos não ir para as aulas do dia. Faltavam apenas três tempos para o almoço, então fomos para o refeitório. Pedi para o cozinheiro, que era um cara bem legal, preparar dois chocolates quentes para nós duas. Ana jogava no celular enquanto eu explicava uma matéria de matemática que ela estava tendo dificuldades. — Ana, presta atenção, por favor. — Peguei o celular da mão dela e bloqueei. — Isso é importante, ok? Ana revirou os olhos para mim e bufou irritada. Apoiando os braços na mesa, prestou atenção à minha explicação. — Bom dia — Shawn Mendes falou, puxando uma cadeira e sentando-se em nossa mesa. — Bom dia. — Respondi, fechando os livros sobre a mesa. — Bom dia, Shawn — Ana resmungou, quase rosnando para o garoto sorridente que nos olhava. — Como tem passado? — Estou bem, Ana. — Seu sorriso se desfez, sendo substituído por uma cara levemente preocupada, mas sincera. — Mas você parece mal. — Estou só resfriada. — Um espirro se seguiu das palavras de Ana, dando ênfase em suas palavras. Fechei a mochila e olhei o relógio de pulso que eu usava. Faltavam poucos minutos para o intervalo de almoço e tinha conseguido fazer Ana entender parte da matéria. — Hum, melhoras, então. — Disse Shawn. — Eu... Vim me desculpar pelo que aconteceu naquele tempo, tá? — Então — Ana se debruçou na mesa, em direção ao garoto de olhos amendoados. — Está admitindo que foi você e sua consciência pesada fez você vir pedir desculpas? Eu ri, e Shawn pareceu um pouco confuso. O cenho franzido o fazia parecer mais sério. Não tinha como deixar de reparar o quanto ele estava bonito. O maxilar forte, bonito e bem contornado combinava com a pele clara e os olhos castanhos, levemente avermelhados. Os lábios carnudos davam o toque a mais em seu rosto bonito. — Humm,eu vim me desculpar, por que sei que estão chateadas ainda, mesmo que nem eu nem Cameron tenhamos fechado a porta lá, ok? — Ele semicerrou os olhos para Ana, que piscou, depois ele me olhou sério. — Ah, tanto faz. Já tem um tempo mesmo. — Dei de ombros, bebericando o chocolate com cuidado para não queimar os lábios. — Mas o que te fez vir agora pedir desculpas? Shawn baixou os olhos para a mesa, quando me olhou, meio que fez uma careta e depois sorriu. — Não é como se os seus namorados tivessem vindo falar comigo nem nada assim, sabe? — Ele riu, mas pareceu um pouco tímido depois. Arregalei os olhos. Ana e eu trocamos olhares pasmos. Fiquei um pouco irritada e traída. Agora Shawn sabia que odiávamos porque Justin e James foram bater um papo com ele. Que absurdo. Agora eu teria que bater um papo com Justin. — Ai, não. Sério? — Ana pareceu realmente chateada. — Olha, carinha, desculpa, tipo, mesmo. Eu sei que tá parecendo sarcasmo, mas é meu jeito de ser... — Ela se calou quando viu pela minha cara que realmente parecia sarcasmo. — Ok. Calei a boca. — Tudo bem, Ana — Shawn riu. Segundos depois seu rosto ficou um pouco sério e ele ajeitou a postura descontraída para uma mais séria. Olhei para trás e vi Justin entrando no refeitório conversando com Carlos e Grazy. Shawn se levantou sorrindo de forma tímida e extremamente fofa para nós duas. — Bem, já vou indo, então... Mas, foi bom falar com vocês... — Acenou levemente com a cabeça para os garotos e saiu. As mãos de Justin pousaram em meus ombros e senti seus lábios beijarem o topo da minha cabeça envolta na toca fofinha e quente. — Senti sua falta a noite toda. Quase não consegui dormir — Sussurrou ele no meu ouvindo, fazendo minha pele se arrepiar e meu coração dar saltos. Justin sentou-se na cadeira ao lado da minha e segurou minha mão por cima da mesa. — O que Shawn estava conversando com vocês? Virei para olhar seus olhos claros com a intenção de parecer chateada, mas Justin sorriu e deu de ombros. — É, eu sei que está chateada por temos ido falar com ele, mas a gente não fez nada, só fomos conversar. Ele que ficou todo na defensiva e tal. Shawn parece legal. — Justin falou de uma vez, me fazendo rir. — O quê? — Nada, ué, só achei idiota da parte de vocês. — Apertei os dedos dele levemente. — Foi muito idiota, na verdade — Ana reclamou se curvando sobre a mesa para olhar Justin por cima do meu ombro. — O outro idiota está aonde? — Ela olhou ao redor, para ver os outros alunos que entravam no refeitório. — Diretoria. — Carlos falou sem tirar os olhos do celular. — Vocês perderam a melhor parte da aula. Ana olhou de Grazy para Justin procurando alguma outra coisa. Quando não achou, arregalou os olhos e bateu as duas mãos na mesa. — MEU DEUS! Tá falando sério? Em anos de amizade com James... — Uns dois? — Murmurei levando a xícara de chocolate à boca. — ... Eu nunca vi ele ser nem chamado lá! Nem quando brigou com aqueles caras! Quer dizer o que o cara faz? Ele é tão certinho e tudo mais... O sinal tocou e o barulho dos alunos esfomeados encheu o refeitório. James entrou sério, parecendo extremamente irritado com tudo, até com o ar. — Oi, amorzinho. — Ana sorriu e se inclinou para James quando ele sentou ao lado dela. — Vai contar o que aconteceu, ah? James olhou Ana e quase — quase — revirou os olhos. O olhar seguiu para Carlos, Grazy e Justin. — Falei para nem tocarem no assunto — Bufou. — Ninguém falou nada. Só aonde você estava. — Grazy se defendeu, parecendo ofendida. — Vamos conversar em outro lugar? — James perguntou à Ana. — Por favor? Ana ficou séria quando percebeu que não era nada para se brincar. Assentiu e levantou, estendendo a mão para James que ficou olhando-a, mudando o rosto de irritado para triste. Ele segurou a mão da namorada e pareceu mais leve, aliviado. Acenou para nós e os dois saíram de mãos dadas. — O que aconteceu, afinal? — Perguntei sentindo o clima estranho ainda no ar. — Na verdade a gente não sabe, só sei que ele foi chamado. — Respondeu Justin.

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Yellow Raincoat
DOIS Do outro lado da fogueira, o garoto de cabelos castanho escuros conversava animadamente com sua turma. Shawn ria de alguma coisa quando reparou meu olhar irritado. Seu sorriso se desfez e seus olhos me analisaram curiosos. Ergui o queixo, determinada a segurar seu olhar. — Clara, você tá tudo bem? — Justin perguntou, tocando minha mão para chamar minha atenção. Encontrei Justin de cenho franzido, olhando para o mesmo que eu estava olhando segundos atrás. — Estou bem, sim. — Murmurei, tirando a atenção dele de Shawn. — Ele ficou o dia te olhando de longe — Falou Justin, parecendo chateado. Virei para olhar seu rosto. — Não gostei muito disso, não... Eu ri. Justin estava com ciúmes do Shawn. — Amor, fica tranquilo. — Continuei rindo, enquanto ele cutucava a terra escura com um graveto, uma expressão sério no rosto. — A única que sinto por esse garoto é ódio. — Você não me contou como aconteceu, essa história dele ter prendido você no depósito. Ana ergueu a cabeça perto do ombro de Justin e fez uma carranca. — Eu conto, já que a Clara ficou, claramente mais abalada que eu, que não tenho medo algum de escuro! — Pronunciou Ana, levantando e se enfiando entre eu e Justin. — Vamos começar do começo, ah? — Você sempre fica escutando o que a gente conversa? — Perguntei fazendo uma careta, mas ela apenas sacudiu a mão no ar. Revirei os olhos e bufei irritada. Apoiei os cotovelos nos joelhos de Ana e esperei ela começar. Justin sorriu para mim e voltou a atenção para minha amiga baixinha e intrometida. — Acampamento de férias do sexto ano da nossa antiga escola... — Começou, gesticulando de forma exagerada. Agora, James também prestava atenção, olhando para a namorada por cima do ombro. — Anda logo, Ana! Precisamos nos esconder!— Clara arrastava a amiga pela mão, andando o mais rápido que podia enquanto desviava das árvores grandes no caminho. — Eu não quero mais brincar, estou cansada, poxa! — Ana choramingou, tropeçando nas plantas que se erguiam do chão. — Você me forçou a brincar! Clara ignorou a amiga e continuou puxando-a. Ana ia atrás pisando em falso, tentando acompanhar os passos rápidos da amiga. A mata parecia se fechar conforme elas adentravam na mistura de verde e marrom do lugar. A claridade diminuía rapidamente com as densas nuvens. — Ouvi passos ali, devem ser elas, Cam. — A voz infantil de Shawn Mendes fez as duas garotas se virarem. Dali de onde estavam, não podiam ver ninguém. Clara e Ana se abaixaram entre as samambaias altas e esperam em silêncio. O barulho de galhos se quebrando passou perto de onde estavam. Abaixadas ali, as duas viram apenas de relance Shawn e Cameron. Os garotos cochicharam algo e saíram correndo. — Acho que já foram. Vamos, eles não vão nos encontrar. — Clara riu baixo e se levantou limpando os joelhos dos jeans sujos de lama. — Ana! Ana levantou e fez cara feia para a amiga. — Vamos, por favor? — Clara pediu fazendo bico. — Eu te dou minha sobremesa hoje, ah? — Não quero sua sobremesa, quero voltar pra clareira onde as outras crianças estão brincando de coisas mais calmas. — Retrucou Ana. — Sério? — Sério o quê? — Não quer minha sobremesa? — Clara sorriu. — Hoje é torta de chocolate! — Hummm. — Ana gemeu irritada. — Ok, você me venceu. Clara riu e puxou a amiga pela manga do casaco vermelho. Recomeçaram a correr. Avistaram a casinha dos botes ao mesmo tempo que ouviram alguém atrás delas. As duas apertaram o passo, sentindo a emõção da brincadeira de pega. Elas quase não podiam ver mais o caminho que tinha vindo, de tão escuro que estava agora. Nenhuma delas conseguia saber quem estava perto, mas não esperam para ver. — Vamos, Ana, pra casinha! — Ana quase tropeçou quando Clara usou um pouco mais de força. Ana também sorria agora, a tensão do momento estava contagiando as duas garotas. — Fecha a porta! — Sussurrou Ana rindo. As duas empurraram a porta grande de madeira pesada e correram para se esconder entre os botes. Com a porta fechada e nenhuma iluminação, o lugar era só breu. Ana e Clara deram as mãos e esperaram em silêncio. Alguém parou do lado de fora. O silêncio era quebrado apenas pelo coaxar dos sapos do lago. As garotas esperam os amigos descobrirem seu esconderijo. Depois de um tempo, ouviram risadas conhecidas e logo após o clique da fechadura externa. Quem quer que estivesse do lado de fora, já havia saido quando Ana levantou e foi espiar pela pequena fresta. — Ufa, está limpo. — Avisou para que Clara pudesse sair. Clara ajudou Ana a puxar a porta, mas não conseguiram abrir. O coração das duas se acelerou quando perceberam que estavam presas. — Ai, não! — Clara gemeu baixinho, tremendo de medo, depois de mais tentativas vãs de abrir a porta. — Está trancada! — Aqueles chatos fecharam a porta! — Ana reclamou, parecendo levemente irritada, mas o medo ainda era maior. Quando as meninas sentiram a garganta doer, depois de tanto gritar por ajuda, sentaram-se no chão, perto dos botes, e dormiram aninhadas uma na outra. Clara demorou um pouco mais a adormecer, sentindo o ardor na garganta e a raiva dos amigos pela brincadeira boba. — Não acho que tenha sido culpa deles — Justin comentou, quando Ana parou um pouco. — Eram crianças, só estavam brincando. — Ah, está do lado deles agora? — A garota fez uma careta irritada para Justin. — Eles fizeram de propósito! — Bem, amor, no dia seguinte eles falaram que não tinham sido eles! Podiam ter falado a verdade, pelo menos! — Defendi nosso ponto de vista. — Desde aquele dia a gente não tinha se falado mais, até hoje. Justin olhou para Shawn do outro lado da fogueira. — E o outro garoto? Cam? — Também não falamos com ele, mas era mais babaca. O Shawn fazia tudo que ele mandava, na maioria das vezes, sabe? — Ana suspirou e pegou uma bala no bolso do casaco. — Não acho que vocês tem que sentir raiva deles até hoje — James disse, concordando com Justin. — Olha, temos que repensar nosso relacionamento, querido. Claro que temos! — Ana mastigava a bala enquanto falava. — Eu tenho trauma de lugar fechado por causa disso! — E nenhum dos responsáveis por vocês foi procurar as duas? — Justin perguntou. — O instrutor foi verificar o depósito nove horas, mas como a gente estava dormindo não ouviu ele entrar e sair, nem ele nos viu. No dia seguinte Shawn e Cameron "propuseram" que fossem procurar a gente lá. — Ana revirou os olhos quando terminou. — Eles deviam ter falado que foram eles, sei lá. — Humm, me lembrem de não fazer nada que deixem vocês irritadas — James sorriu para Ana — Sabem guardar ressentimento. Naquela noite eu me revirei na cama, inquieta. Ouvindo a história novamente, me senti mal. Talvez Shawn não fosse realmente o culpado, nem Cam. Eramos crianças e quando a gente se ressente de algo, fica na mente quando crescemos. Quando desisti de dormir, levantei e andei até a varanda do chalé. O casaco que eu usava não parecia suficiente para a noite, mas ignorei o frio, aproveitando o ar que parecia gelar a ponta do meu nariz. Debruçada sobre a cerca da varanda, eu respirava o ar limpo. Fechei os olhos e inspirei, sentindo meu corpo apreciar o oxigênio das montanhas. Ouvi um barulho vindo do outro lado. — Temos mesmo que voltar? — Sussurrou uma voz conhecida. — Está tarde, amanhã tem aula... — Respondeu um garoto, a voz familiar me fez prestar mais atenção. — Mas amanhã a noite, depois que todos dormirem, só precisa esperar eu vir, ok? Tentei ver o casal que conversava aos sussurros, mas estava escuro e eu não conseguia reconhecer as vozes. — Já estou esperando. Boa noite. — Boa noite. Eu não estava procurando fofoca, só estava ali por acaso, por querer um pouco de ar limpo, mas eu estava curiosa para saber quem estava ali, fugindo escondido a noite para sair com alguém. Demorou pouco menos de um minuto e Grazy subiu a escada do chalé. Um sorriso bobo pairava em seus lábios. — Grazy? — Chamei, totalmente surpresa. Grazy pulou de susto quando me viu. Olhou-me assustada. — Clara? Ah, oi... Ah, acordada agora? — Perguntou confusa, parecendo pela primeira vez sem palavras fluindo o tempo todo. — Eu não consegui dormir e vim respirar um pouco de ar fresco. — Respondi, meio sem jeito, sob o olhar tímido dela. Grazy sorriu, ficando vermelha e andou até a porta. Parou com a mão na maçaneta. Quando me olhou, não parecia a Grazy de sempre. A Grazy falante e otimista de sempre. Não que não estivesse otimista. Só estava mais... Pensativa. — Você ouviu? — Perguntou, me olhando nos olhos. — Não muito. — Respondi. — Não estava xeretando, tá? Foi sem querer. Grazy se virou para a porta de novo, mas não entrou. — Está chateada? — Virou os olhos castanhos para me olhar novamente. Não soube identificar o que eles diziam. — Por que estaria? Ela me olhou de lado, se perguntando se era sincera minha pergunta. — Clara, pode falar se estiver... Foi meio que do nada, sabe? A gente estava conversando e então ficamos e hoje de novo e... — Uma pausa — Olha, só não quero que fique chateada comigo nem com ele. — Grazy pareceu sem jeito ao completar. — Ele quem, Grazy? — Perguntei, sem entender de quem ela falava, afinal, eu não tinha visto rosto algum. — Carlos! — Ela exclamou o mais baixo que podia, para não acordar ninguém. — Humm — Carlos, meu ex. Por isso ela estava perguntando se eu estava chateada. — Estou bem, Grazy. Sorri, contente pelos dois estarem juntos. Abracei Grazy sem aviso algum e a apertei. — Juro que não vou contar nada pra ninguém, ok? — Falei, quando soltei uma Grazy sorridente. — A menos que queira que os outros saibam que estão saindo. Ela negou avidamente, sem tirar o sorriso presunçoso do rosto. — Por enquanto fica só entre nós três.

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YELLOW RAICOAT
UM
O suor escorria pela minha nuca, ensopando minha camisa de mangas longas e grudando-a no corpo. Meus pés já estavam doloridos e os tênis pareciam mais desconfortáveis do que quando os coloquei duas horas antes. Eu corria da melhor maneira que podia, mas meus passos desengonçados não ajudavam. Um barulho ao meu lado quase me desequilibrou. Me virei, vendo Ana se levantar da poça de lama no chão. Parei e me curvei, rindo e tentando respirar normalmente. — Não ri não! — Resmungou Ana, tentando tirar lama dos olhos, mas piorando a situação. — Sua cara... — Gargalhei, apontando para a cara dela. — Tá maravilhosa! Ana fez bico. Endireitou os ombros e se abaixou novamente. Começou a correr, me deixando rindo sozinha. Quando me recuperei, recomecei a corrida, tentando acompanhar minha amiga. Alcancei Ana e viramos na última curva. A maioria das outras pessoas já estavam sentadas no chão, bebendo água aos montes e conversando. Desacelerei e parei ao lado de Ana, que já tinha se sentado no chão. — Ai, tô cansada. — Reclamou ela, depois de beber umas goladas de água da garrafa que tinha pegado no isopor. — Foi bom hoje. — comentei, olhando em volta, procurando meu namorado. — Não me sinto tão cansada quanto nos primeiros dias. — Ah, eu sinto. Estou dolorida da escalada ontem, assim não aguento. Queria ser um espeto igual tu, pra ver se aguentava mais essas maratonas todas. — Ana se levantou e me entregou a garrada. Andamos entre os outros alunos, procurando nossos amigos entre eles. O frio da manhã me fez tremer quando o calor da corrida deixou meu corpo. — Nossa, tá ficando frio aqui. — Reclamei passando as mãos nos braços, tentando mantê-los aquecidos. Mãos me pegaram pela cintura, me puxando de encontro a um abraço conhecido. Justin me virou de frente para ele. Seus olhos estavam nos meus e seu sorriso sedutor pairava nos lábios. — Posso esquentar você, amor — Seus olhos foram para minha boca e seu sorriso aumentou um pouco mais. — Do jeito que preferir. Revirei os olhos rindo. Sentindo meu rosto corado, me afastei meio sem jeito. Justin manteve os braços em minha cintura, cumprindo a promessa de me manter quente. Quando ele estava perto, não existia parte minha que não ficasse com calor. — Ai, não. Cadê meu namorado pra eu não ficar de vela aqui? — Ana ficou na ponta dos pés, procurando entre as pessoas altas, James, seu namorado. — Jesus! Cadê aquele garoto? — Oi, lindos! — Grazy brotou do nosso lado, me fazendo saltar. — Opa, desculpa, Clarinha. Terceiro dia de corrida e sinto uma maravilha nas minha pernas. Grazy girou nos calcanhares, se exibindo com seu corpo incrível, — bem, eu também faria isso, se tivesse um corpo lindo como o dela — o cabelo castanho de Grazy brilhava com o sol da manhã, contrastando com sua pele levemente amendoada. — Ok, já me humilhou, agora chega. — Ana ergueu os braços. — Viu aquele idiota do meu namorado? James desceu uma pequena encosta correndo. Sua camisa cinza estava molhada de suor. O rosto vermelho da corrida fazia parecer que ele tinha acabado de voltar de férias numa praia ensolarada. — Até que enfim, criatura! — Falou minha amiga, jogando os braços em volta do pescoço de James e beijando sua boca com avidez. Independente do suor na sua nuca ou não, ou da lama na roupa da minha amiga. — Bem melhor assim. Ela se virou e me encarou, como se competisse pra saber qual namorado era mais charmoso. Eu ri, e todos me acompanhara. Ana bateu na minha mão rindo, num cumprimento divertido. — Ei, vamos caminhar um pouco antes do almoço? — Perguntou Justin no meu ouvido, quando todos estavam distraídos. — Vamos, sai antes que eles reparem. — Sorri para Justin e o empurrei pela cintura. Grazy nos viu e apontou, fazendo os outros nos olharem e sorrirem. Ana me deu a lingua. Justin pegou minha mão e fomos andando pelo caminho de terra molhada. — Três dias e ninguém pediu pra voltar pra casa. — Comentou Justin, olhando nossos tênis pisarem na lama. — Aqui está ótimo. Posso passar muito mais tempo com você e olha, — Ele se virou para me olhar. — Minhas pernas e braços querem cair, mas estão mesmo ficando bonitos, não acha? — Acho que os músculos estão é inchados. — Ele riu. Soltei a mão dele e coloquei as minhas mãos na cintura, fazendo uma cara de raiva claramente forçada. — Posso me desculpar com um beijo? — Perguntou, chegando mais perto de mim. Revirei os olhos e mostrei a língua. Peguei sua mão e recorçamos a andar por entre os outros adolescentes sentados na grama seca, ou mais seca que possa estar a grama depois de uma chuva forte. — Clara? — Uma voz desconhecida chamou meu nome. Me virei e encontrei um garoto me olhando sorridente. Como eu conhecia aquele rosto, mais maduro agora, mas o mesmo sorriso. O mesmo buraquinho charmoso no queixo, as mesmas bochechas levemente rosadas. — Shawn. — Falei, entre dentes. O garoto de cabelo castanho sorriu mais amigavelmente. — Que coincidência, não? Nos encontramos num acampamento de novo! — Comentou, me olhando de cima a baixo. Justin se virou para me olhar, depois de analisar o garoto de todas as formas, com os olhos. — Vocês se conhecem? — Perguntou ele, alternando olhares entre eu e Shawn. — Sim, — Resisti a vontade de revirar os olhos só de olhar para o garoto bonito à minha frente. — Esse é Shawn Mendes, que me fez ter traumas de acampamentos. Shawn virou a cabeça meio de lado, como se tentasse se lembrar de algo. — Ah, uau! — Exclamou, surpreso de verdade. — Eu nem lembrava daquilo. — Daquilo o quê? — Justin questionou, curioso. — De quando ele me prendeu no depósito dos botes e passei uma noite lá, só eu e Ana. No escuro. — Lancei um olhar assassino ao garoto.
Catching Feelings
30. Final
Quinze dias depois. O diretor da escola decidiu fazer algo diferente para o nosso último ano na escola. Um mês antes das aulas começarem estávamos no auditório da escola, sentados nas cadeiras duras e desconfortáveis, esperando nossa treinadora começar a falar. Meus pais e os de Ana estavam sentados nas primeiras fileiras, junto com os pais de todos os adolescentes do nosso ano. — O que acham que o diretor vai propor? — Sussurrou Ana, olhando para os professores conversando em voz baixa no palco. — Não sei... Ano passado eles tiveram aquela ideia horrível de decoração na escola pelos alunos do último ano, lembra? Ana fingiu um arrepio e fez uma careta. — Os corredores ficaram horríveis, sem contar os banheiros pintados de rosa-choque. E ah, o baile... Ah, foi o pior de tudo! — Ela abanou as mãos no rosto, depois me olhou e riu. — Ei, fiquem quietas ai. — James, sentado na fileira de trás, cutucou nossas costas. A treinadora foi à frente do palco e bateu duas vezes no microfone. Todos que estavam conversando logo se calaram. Ana me cutucou com o cotovelo quando Justin entrou no auditório, seguido dos pais. Quando me viu, ele sorriu e andou até onde eu estava. Sentou-se na cadeira que eu tinha guardado pra ele. — Oi. — Falou me dando um beijo na bochecha. — O que eu perdi? — Humm, nada, nadinha mesmo. — Respondi, ajeitando seu cabelo bagunçado. — Onde estava? — Eu acordei tarde. — Justin me olhou e sorriu de novo. Pegou minha mão. — Passei a noite ajudando meu pai com a mudança. Ana bateu o cotovelo nas minhas costelas. Prestei atenção ao que a treinadora dizia. Mesmo pegando pela metade, entendi qual seria o projeto desse ano. Fiz uma careta, querendo chorar como uma criança. Eu não faria aquilo nem que meus pais me obrigassem. — ...e seria uma forma de fazer eles gostarem de passar mais tempo ao ar livre, ao invés de enfurnados nesse aparelhinhos que os prendem dentro de casa. — Concluiu a treinadora, balançando seu celular para a platéia de pais que assistia. Ana se virou pra mim de olhos arregalados, seu rosto numa careta semelhante a minha. — Acampamento?! — Ela exclamou, alto o suficiente para fazer todos se virarem na nossa direção. Ana se encolheu na cadeira e vi seu rosto ficar vermelho. A mulher no palco pigarreou, fazendo todos prestarem atenção novamente. — Não é apenas um acampamento, Ana. — Ela falou, guardando o celular no bolso da calça de corrida. — Vai ser muito mais que isso, mas vou deixar os detalhes para o diretor Rob. O diretor pegou o microfone e sorriu. Um sorriso que odiei. Só por ele ter aceitado aquela ideia maluca. — Bom dia! — Exclamou, simpático como sempre, mas um pouco mais exultante. — Foi uma ideia totalmente da nossa querida treinadora Eliza, que decidiu dar essa ideia como forma de ensinar nossos alunos a tratar melhor da natureza, de mostrar para eles como a vida livre de todas as tecnologias nem sempre é ruim e como eles podem se conhecer melhor quando precisam ajudar uns ao outros. Grande parte dos alunos ali começaram debater se seria uma boa ideia mesmo. Nenhum de nós queria passar duas semanas numa mata sem celular nem internet. Ou repelentes elétricos. — Pessoal, vai ser bom, acreditem. Eu sei que vão gostar e vão querer repetir. — A treinadora Eliza disse, segurando seu microfone. — O que queremos com essa reunião é tirar essa ideia do papel e torná-la concreta. — Prosseguiu o diretor, quando todos ficaram em silêncio novamente. — Vamos aos detalhes. No papel que os professores estão distribuindo agora vocês podem ver como queremos o ano letivo. Já temos as instalações e todo o material necessário. Quando o papel chegou em minhas mãos, meu queixo caiu. Não seriam apenas duas semanas. — UM ANO? — Ana gritou, se levantando. — Olha, eu não posso passar um ano num acampamento não, treinadora Eliza! Eu tenho um Blog! Os pais de Ana a olharam com olhos em brasa. Ela se sentou irritada, com os braços cruzando sobre o peito. — Ana, eu não disse que os alunos iam ficar sem internet nem nada disso. — A treinadora falou, parecendo um pouco ofendida. — Nosso objetivo não é isolar vocês do resto do mundo, é só aproximar vocês da natureza e de vocês mesmo. Eu lia o papel em silêncio, quase não prestando atenção no bater irritante dos sapatos de Ana no chão. — Vamos ter as aulas tradicionais do ensino médio e vamos adicionar atividades novas. Atividades ao ar livre. — Eliza olhou para Ana de relance. — Temos elas listadas ai, podem dar uma olhada. O que ela dizia, eram atividades comuns de acampamentos. Seriamos fogueira todas as quartas e sextas. Escalada, trilhas, corrida... Sábado e domingo podíamos escolher um lugar para acampar fora dos chalés, em qualquer lugar da mata desde que fosse dentro do perímetro estabelecido. Ou seja, tudo seria uma grande chatice, como era quando eu tinha doze anos. — O que foi, amor? — Justin perguntou, me olhando preocupado. — Nada... É só que, tanto Ana quanto eu não tivemos boas experiências com acampamentos. — Respondi, baixo para ele ouvir, e sentindo meu estômago se revirar com lembranças. — Com tudo isso, precisamos apenas do consentimento dos responsáveis, já que seus filhos ficarão fora todo o ano letivo. — O diretor continuou. — Os pais que aceitarem podem assinar os papeis necessários com a treinadora Eliza. Qualquer duvida estamos aqui. Meus pais foram andando até a mesa da treinadora, seguidos dos pais de Ana. Agarrei a mão da minha melhor amiga e corri até eles, arrastando Ana e Justin comigo. — Vocês não podem fazer isso! — Gritei, me enfiando no meio dos meus pais e parando na frente deles com as mãos erguidas. — Deem meia volta agora e vamos sair daqui antes que eles nos vejam. — O quê? — Meu pai me olhou como se eu fosse louca. — Claro que podemos, Clara. — Minha mãe falou, segurando minha irmã no colo. — E vamos fazer isso. — Se me amam, não façam isso! — Choraminguei, batendo o pé como uma criança. — Por favor? Meu pai virou para minha mãe, parecendo querer dar meia volta e fazer o que eu queria, que era não me inscrever naquele projeto idiota. — Vamos, sim, Clara. Isso vai fazer você superar o que aconteceu da última vez. E não são as mesmas crianças. — Ela tocou a ponta do meu nariz. — E você não tem mais doze anos. Fechei a cara e cruzei os braços, decidida a impedi-los de chegar a mesa onde a treinadora recebia as assinaturas dos pais. — Ana, você vai sim, Clara vai estar lá, James, Justin... Para de bobagem. — Ouvi os pais de Ana logo atrás, discutindo o mesmo assunto. — Isso mesmo. — Concordou minha mãe, se virando para os pais da minha amiga. Quando percebi que tínhamos perdido, fechei mais ainda a cara. Ana fez a mesma coisa, parecendo muito mais irritada que triste, como eu estava. Mãos circularam minha cintura, me abraçando. Justin sorriu para mim, aliviando um pouco minha carranca. Ele beijou meu pescoço, me fazendo rir de leve. — Eu acho uma boa ideia a gente ir, amor. — Justin disse, beijando minha bochecha. Alguém pigarreou. Meu pai nos olhava sério. — Não acho que seja uma boa ideia mandar a Clara, não. — Falou ele, me dando uma chama de esperança. — Claro que vai ser. — Minha mãe passou por mim e foi até a mesa. — Olá, treinadora, onde eu assino mesmo? — Clara, certo? Aqui, no x. Você precisa mandar até próxima semana os atestados atualizados, ok? — A treinadora foi rápida, explicou o que faríamos e o material necessário. Eu tinha perdido. Tanto eu quanto Ana tínhamos. Era nosso fim. Um acampamento de um ano, no meio do mato, sem pais, sem vida na cidade. *** O sol nem tinha nascido ainda e minhas malas estavam do lado de fora de casa. Eu estava totalmente estressada e sonolenta. Ana estava do meu lado, sentada numa de suas malas, jogando no celular. Meus pais estavam ajeitando as últimas coisas que eu levaria. — Ih, lá vem. — Ana se levantou, olhando para o ônibus que virava a rua. — Clara, aqui, ia esquecendo sua mochila com material da escola. — Meu pai me entregou a grande mochila nova, cheia de cadernos e tudo que eu precisaria. — Desculpe, é tanta mala que me esqueci dessa, pai. — Despejei sarcasmo na frase, pra demostrar o quanto estava magoada por me mandaram naquela viagem idiota. O ônibus parou na nossa frente e o motorista e a treinadora desceram para guardar as malas. Entramos no ônibus velho desanimadas. No final, Justin e James acenaram para nós duas. Nos bancos da direta, ao lado dos reservados para nós duas vi Carlos olhando pela janela. — Oi, pessoal. — Resmunguei, me sentando ao lado de Justin, na fileira de cinco lugares no final do ônibus. Todos nos cumprimentaram sorridentes, o que me contagiou e logo eu estava mais leve, mais feliz. Paramos na frente da enorme casa de Grazy. Ela subiu no ônibus sorridente, falando com todos os amigos. Sentou-se ao lado de Carlos, no lugar vazio e depois de falar com todos nós, ela ofereceu barras de chocolate. A viagem foi longa. O ônibus deslizava pela estrada, rodeada de grande pinheiros, seguindo para nosso destino. Já era quase noite e estava ficando mais frio conforme subíamos. Ana e James jogavam no celular, exclamando de vez em quando coisas sobre o jogo e quem ganhava. Justin dormia no meu ombro, segurando minha mão o tempo todo. Grazy conversava com Carlos, que prestava total atenção e se divertia com o que quer que ela dizia. Percebi que ele parecia diferente. Interessado demais nela. Sorri, gostando da ideia dos dois juntos. — Boa noite, pessoal! — A treinadora ficou de pé, quando o ônibus virou numa estrada de terra e desacelerou um pouco. Os alunos que cochilavam se remearam e despertaram, olhando a loira falar. — Estamos chegando, faltam pouco mais de cinco minutos. Quero que se organizem antes de sairmos. Mantenham-se juntos, até a apresentação, ok? Outra escola está no mesmo projeto que a gente, então, por favor, não se percam, não arranjem brigas por lugares e tudo mais. O diretor se levantou de sua cadeira com uma cara animada. — Estão ansiosos? — Perguntou. — Sim! — Respondeu grande parte dos alunos, fazendo barulho e batendo nos bancos da frente. — Eu não estou nem um pouco. — Falou Ana se virando para mim. Concordei com ela. Seguimos o resto do percurso ouvindo os outros alunos animados, conversando sobre como seria o lugar. O ônibus parou num estacionamento velho, onde três outros ônibus tinham acabado de estacionar. Ordenadamente, quase atropelando uns aos outros, todos descemos do ônibus. A noite fria me atingiu. Justin manteve os braços em meus ombros enquanto esperamos descarregarem as malas. Quando todos seguravam suas bagagens pequenas, carrinhos de golfe rodavam por todo lado, lotados das malas maiores. O diretor e os outros professores nos guiaram até um arco de madeira exibia uma placa — também de madeira — na entrada do lugar. — Sejam bem-vindos à Reserva Rio Norte. — Anunciou Eliza animada, de braços abertos. Olhei para Justin, que me olhou risonho. Ana, James, Grazy e Carlos pararam do nosso lado. Nos entreolhamos curiosos. Nossa atenção foi chamada para a trilha de lanternas seguindo para dentro da mata, num caminho grande. Grilos faziam barulho em algum lugar ali perto. O coaxar de sapos era irritante, tão perto deles que era capaz de estarem perto de suas botas de caminhada. — Que saudade da minha cidadezinha barulhenta. — Ana falou, fazendo os amigo rirem.