No verão de há quatro anos atrás
Embarquei, em embarcação nenhuma
Pois a pé fui, em patas de puma
De tão firme, a ascensão felina.
Mas desbravei mares esverdeados,
Outros esforços em adrenalina,
Relevos acidentados, que agrados!
De tripulação reduzida a pouco,
Dois amigos, um são e um louco.
Companheiro e conselheiro, não,
O testemunho, a Natureza pagã,
Do aspirante a poeta, o calão
Que cantará a jornada no amanhã,
Experimente-o quem consiga!
Íamos sós pela floresta amiga,
Verso este que não é nada meu,
É de António, o chora-chuvas
Que na sua só solidão morreu.
Pra fome, uns cachos de uvas
E água boa pra matar a secura,
A bagagem básica, mas que dura.
Explorávamos a mata de Belas,
Quilómetros num pisco d'olhos,
A silvestre aventura daquelas
Que nos traz suor aos molhos!
Saltámos troncos e rochedos,
Ruínas urbanas, tudo sem medos.
No verão de há três anos atrás
Escalei meio mapa português,
No Norte estive no sétimo mês,
Quanta saudade por lá deixei,
O lisboeta sentiu-se em casa,
Quão bom foi, que terra de rei.
Aquela gente cospe e bebe brasa,
Nasce logo com pimenta na boca,
Nunca fica rouca e não se choca.
Sotaque aquele, típico e rico
Que de Viseu adiante se produz,
Tanto o quis que do meu abdico
Se noutra vida me derem à luz.
Fui a noroeste, fui ao Porto,
Tripeiro serei antes de morto.
Viver a História, paixão minha,
Das iguarias, do vinho vosso,
Ao deliciar-me na francesinha
Prato mentiroso, pois é nosso.
Não deleitei somente a barriga,
Também o olhar viu coisa antiga.
Pelo claustro da bela gótica Sé
Aos andares das ruas mercantes,
Vagueei contente, e assim o é
Quem dos Clérigos vê as amantes.
Requer gosto a ribeira nortenha,
Que a veja apenas quem o tenha.
No verão de há dois anos atrás
Adoeci, e o que faria eu então
Se do mal soubesse de antemão.
Confiança e fé sempre as perco,
O diagnóstico fora conclusivo.
Furou-se-me o pulmão esquerdo,
Ia-se o ar, pra vida o incentivo.
Valha o fado, entidade estimada,
Que fracote, pus-me à estrada!
Fui pro Centro um dia inteiro
Onde se combateu há longa data.
Na Batalha, o glorioso mosteiro
É jóia que Santa Maria quilata.
Cheiros comuns da pedra secular
Que bem me curavam, ao respirar.
Rumei pois a sudoeste, desta vez.
Cravaram-me comovidos, com pena,
Inês e Pedro, caídos em sensatez
Para comigo, em angústia plena.
Em Alcobaça o morto tem empatia,
Jaz sofrido mas os vivos vigia.
Atraquei à costa vindo da terra,
Na Nazaré vi pescadores e varinas,
A gargalhada que o morbo encerra,
No momento o sol abriu neblinas.
As dores, logo disso me esqueci.
Quedei-me enfermo mas estou aqui.
No verão de há um ano atrás
Senti praias, muralhas, Portugal,
O ambiente harmonioso e desigual.
No sétimo mês, no seu sétimo dia,
Os amores pra cima do Mondego vão.
Cupido, senhor, menino, quem diria
Que a flecha acertaste no coração!
Todo o mundo medieval me sossega
E a pessoa que não o preza é cega.
Percorrer os pedregulhos grisalhos
Das áreas do castelo de Trancoso,
É belíssimo, assim são os retalhos
Do seu trajeto florido e caloroso.
Nada há de melhor que noite fria
Gozada numa feira que época cria.
Visitei o passado de quatrocentos
No forte do Magriço ou Penedono,
Sítio milenar no qual os ventos
Sopraram fogos que tiram o sono.
Tempos vieram, mudara entretanto
De local, agora sobre Sul canto.
Tavira gira com a comprida ria
Que abre portas pra se despejar
A virtude e a essência algarvia
No leito profundo do nosso mar.
Vi Castro Marim, vila guerreira,
Não pelas salinas, havia feira.
No verão deste ano,
Não sei que farei.