BAĂTI
um texto de marcela dias.
O vento agudo insiste em apitar lĂĄ fora. Alto. As vezes Ă© sĂł mais um detalhe desses dias de inverno tĂpicos de uma cidade litorĂąnea prĂłxima a Linha do Equador. Em Salvador, 25 graus. Em meus pĂ©s, meias.
Numa dessas noites frias, a bebĂȘ do casal vizinho do colo de sua mĂŁe deu seu primeiro boa noite a mim. Coisa de aquecer a gente por dentro, nessas horas o frio faz todo o sentido. Todo mundo ao redor dela se iluminou. Sorrisos se desenharam. "Deu boa noite, mĂŁe!!" ouvi lhe perguntarem, no que ela mais uma vez respondeu "BaĂŽti".
Simples assim. Como um copo de chocolate quente cremoso e morno e uma manhã de desenhos de TV para acompanhar. A vida toda se ouve sobre a magia da infùncia, mas só depois de sair dela a gente entende sobre o que ouvia pequeno. Ver alguém crescer é como olhar para o céu. Aquela luz celestial que nos fascina, anos-luz de distùncia. Uma viagem no tempo.
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Sei que seu nome é Tainå. Sua risada fåcil e ampla enchem bons segundos de åudios que mando à tarde principalmente, não que eu não a ouça pela manhã também, depende muito do horårio que ela acordar. Pouco tempo atrås, havia quem fizesse mais barulho que ela, mas justo na hora dela dormir. E aà algumas noites ela fazia festa também, todo mundo ficava acordado. Acredito que ela ainda vå fazer muita, jå até me acostumei.
Inclusive, fiquei sabendo que a prĂłxima jĂĄ estĂĄ marcada para esse sĂĄbado. Ela que veio me entregar o convite, claro. Me dei conta de que como eu, ela Ă© de leĂŁo. Ensolarada. Quando perguntei, TainĂĄ me disse que faria dois anos com os dedinhos erguidos e mais um sorriso.
MĂĄgico, realmente.
Exatamente daqui uma semana é meu aniversårio de vinte e cinco anos. Tenho pensado nisso desde que Tainå me deu boa noite. Isso jå tem algumas semanas. Hoje ela passou o fim da tarde gritando "mamãe! papai" e foi respondida todas as vezes. Tå crescendo. E curtindo cada momento disso. Tenho pensado muito sobre. Provavelmente é isso que me falta e é por isso que estou indo buscar. Não sorrir para estranhos, gritar a plenos pulmÔes ou chamar por meus pais o dia todo. Mas aproveitar o caminho. Sentir o vento na cara, ter calafrios, tecer e moldar a própria liberdade.
Ainda que com respeito Ă s curvas. Mesmo que em alguns momentos o mar a frente Ă© uma gota comparada a um pranto entalado, deixado para depois.
Crescer tem que ser algo parecido com tudo isso. Deve ser a mistura homogĂȘnea de todas essas coisas, com uma quantidade Ășnica de cada uma delas. O mais equilibrado possĂvel. Ou pode nĂŁo ser nada disso e tudo bem, mas Ă© o que acho agora.
Em breve Tainå provavelmente vai começar a ir à escola, sei que bem mais råpido do que parece. E tudo pode ter mudado, ela pode inclusive, deixar de ser minha vizinha. Mas espero que não, porque quero aprender com ela ainda.
Quero lhe dar um bom dia em algum dia de aula e sorrir.














