âLembro como se fosse ontemâ Ă© uma frase meio clichĂȘ, mas eu gosto de coisas clichĂȘs, entĂŁo... Como se fosse ontem, me lembro daquela tarde fria de Setembro, onde o frio cortava lĂĄ fora e a garoa aumentava a cada instante. Conversas vem e vĂŁo numa questĂŁo de segundos, onde eu mesma sabia que sua atenção nĂŁo poderia ser voltada somente para mim, nĂŁo ali, num lugar onde vĂĄrias pessoas conversavam ao mesmo tempo, bebiam e curtiam o som que estava soando pelo recinto, onde nem mesmo a mĂșsica alta e o tagarelar de cada uma daquelas pessoas nĂŁo tinham a capacidade de me desviar a atenção um minuto se quer do timbre da sua voz, do balançar dos seus longos cabelos, da sua risada nas brincadeiras que fazĂamos. Trocamos WhatsApp e aquilo pra mim nĂŁo passava de um sonho, sĂł por ter conseguido o seu nĂșmero, bobagem. Mas no fundo, eu sabia, que tinha que ser ali, eu sabia que algo dentro de mim dizia que eu nĂŁo poderia desistir. NĂŁo poderia desistir de um sonho que naquela tarde estava perto de se tornar realidade. Era uma grande batalha entre a cabeça e o coração. Deu sua hora, vocĂȘ precisava ir, arrumar suas coisas, comer e ir pra casa, ter sua vida e sua rotina. Me propus a te levar atĂ© a porta daquele âbarâ? NĂŁo sei se pode ser nomeado como bar, mas aquele local que estava rolando uns sons de uns amigos nossos em comum, onde a galera podia se distrair um pouco. Te levei atĂ© a escada, seu amigo foi na frente e decidiu te esperar no carro. Minhas amigas, puff, desapareceram num passe de mĂĄgica. Ficou somente, eu e vocĂȘ. E claro, as pessoas que ainda estavam lĂĄ... Mas com vocĂȘ ali, com nossas brincadeiras e indiretas, vocĂȘ acha mesmo que eu sentiria a presença de mais alguĂ©m, alĂ©m de vocĂȘ, parado bem na minha frente, com pressa de ir embora, mas ao mesmo tempo esperando para saber o que eu tanto precisava falar contigo? Na real, eu nĂŁo queria falar nada, aliĂĄs foi uma coisa tĂŁo besta, eu queria pedir mil coisas ou atĂ© mesmo fazer, mas tinha receio, sei lĂĄ. NĂŁo saberia qual seria a sua reação. E se vocĂȘ nunca mais olhasse na minha cara? E se vocĂȘ reagisse de uma forma imprevisĂvel? E se vocĂȘ me tacasse o famoso âbalde de ĂĄgua fria?â Eu perderia meu chĂŁo. Mas, naquela tarde fria de Setembro, em meio a tantas brincadeiras, sorrisos, vergonhas e indiretas, foi quando nossos lĂĄbios se tocaram pela primeira e (precisamente) uma Ășltima vez e minha vida parou de fazer total sentido, pelo menos por uns momentos. Quando vocĂȘ me soltou, minha cabeça girava, nada mais fazia sentido, eu nĂŁo sabia o que tinha acontecido, eu estava realmente perdida, perdida em sentimentos, perdida em pensamentos, perdida nas horas, tempo, tudo. Tudo pra mim tinha parado, era vocĂȘ e nada mais. VocĂȘ foi embora, eu estava fora de mim, fora de Ăłrbita, nĂŁo sabia exatamente para onde ir... Mas como tudo acontece de uma forma repentinamente sĂșbita e estranha, foi dessa vez pra nunca mais. NĂŁo posso dizer nunca mais, afinal nĂŁo sabemos o dia de amanhĂŁ, mas com uma determinada evidĂȘncia de que isso nĂŁo iria se repetir, nem naquele dia, nem no prĂłximo, nem outro qualquer... Do mesmo jeito que vocĂȘ chegou mexendo com meus sentimentos, vocĂȘ foi e deixou eles totalmente caĂłticos e sem rumo. Mas eu agradeço, agradeço por esse Ășnico dia, tarde ou mais certamente, comecinho de noite, agradeço pelos simples segundos que vocĂȘ me desiludiu, porque sim, eu fui iludida por gestos, palavras e açÔes, que pior do que uma frase, foram atitudes bem clichĂȘs.