Ela ainda continua a cantar aquela mĂșsica com a melodia suave e dança ao ouvir-la tocar como se fosse uma bailarina, sem nenhum peso nos pĂ©s e com a delicadeza de uma pena ao cair flutuando no chĂŁo. Mas mesmo assim, ela cresceu, disso eu posso te afirmar. Tudo bem que ela ainda frequenta os mesmo lugares a noite e se perde no meio da imensidĂŁo sĂł porque acha que a noite Ă© um eterno mistĂ©rio. Tudo bem. Tudo bem tambĂ©m que ela ainda goste do vento batendo no seu rosto por achar que isso a faz bem. E isso, talvez a faça mesmo. E nĂŁo tem problema nenhum em ela ainda gostar do silencio para que ela assim, possa ser escutada. AliĂĄs, nĂŁo tem problema nenhum em ela ainda ser muitas coisas, porque ela ainda Ă©. Mas ainda sim, eu te juro, ela cresceu. Ela ainda gosta de discos de mĂșsicas desconhecidas, e se duvidar, mais ainda de ser uma desconhecida tambĂ©m. Gosta de viver no mundo dela, porque sabe que o mundo dos outros Ă© egoĂsta demais pra ela. Ela ainda gosta de coisas que quase-ninguĂ©m gosta e eu sei que vocĂȘ vivia reclamando por causa disso, mas pensa bem, no meio dessas coisas que ela gosta e que quase-ninguĂ©m gosta, vocĂȘ Ă© a primeira delas. E por ultimo, acho que essa, atĂ© vocĂȘ-que-Ă©-vocĂȘ vai gostar: O sorriso dela nĂŁo mudou em nada, Ă© o mesminho â Ainda bem. Diria atĂ©, que ela sorri como se nĂŁo tivesse nada a perder, porque jĂĄ perdeu quase tudo. Ela ainda gosta de vestidos floridos, de batom vermelho e de ler enigmas. Ainda tem as mesma manias e gestos. Ela ainda Ă© teimosa e odeia que alguĂ©m fale o que ela deve fazer, mesmo que nem ela mesma saiba. Ainda gosta de frio, chuva, mar, cĂ©u, livros, revistas, jornais e atĂ© poesia. Ă, realmente, ela ainda Ă© muita coisa, sĂł o que ela nĂŁo Ă© mais Ă© boba. Ela aprendeu que a gente deve pular mais alto quando se tem uma pedra no caminho, porque se nĂŁo essa pedra quebra a nossa cara. Ela aprendeu a ouvir enquanto vocĂȘ repetia pela milĂ©sima sĂ©tima vez âVĂȘ se cresce, menina, vĂȘ se cresceâ. E ela cresceu. E sofreu. E aprendeu a passar pelo longo e sombrio caminho do sofrimento sem precisar do calor da sua mĂŁo segurando a dela. E Ă© por isso que essa, Ă© a ultima vez que vou repetir em toda a minha vida: Ela realmente cresceu. Disso eu tenho certeza. E eu sei que ela cresceu, porque ela aguentou a luta sem sujar a roupa com nenhuma gota de sangue e aguentou o luto sem ao menos vestir uma roupa preta.