enquanto a professora de física recitava o alfabeto,
eu rascunhava meu próprio gibi deformado com a caneta
as letras do quadro pareciam fórmulas tentando escapar da prisão de um quadro negro
alguma coisa sobre inércia e velocidade
eu preferia observar o ventilador torto no teto,
girando como um helicóptero bêbado,
empurrando o calor de um lado para o outro
sem realmente expulsá-lo da sala
James, o personagem que só se fodia,
e ameaças de morte rabiscadas na carteira,
sempre tinha uma doença rara nova,
e acordava no quadrinho seguinte,
James pronto pra se foder de novo
desenhei ele beijando uma garota dentuça parecida com a mônica,
desenhei ele com trombose,
desenhei ele jogando futebol e sofrendo uma fratura craniana,
desenhei ele morrendo umas três vezes na mesma página
desenhava na velocidade da luz, sem saber que luz tinha velocidade
jazendo num túmulo velho em algum lugar da inglaterra
a maçã caía sobre a lápide
gostava da cabeleira dele
e mais ainda do fato de tocar violino
um homem que era capaz de dobrar o universo
ainda precisava encostar o rosto num instrumento
para produzir algo bonito
a professora continuava falando
menos eu, petrus e leonardo,
que também rascunhavam seus gibis ao meu lado
cadernos abriam e fechavam
eu, petrus e leonardo só viravamos as páginas
um alfabeto que só crescia
mudando a ordem das letras
o muro da escola parecia mais inteligente que a turma inteira
transformei cientistas em personagens secundários,
me parecia um sarau de poesia da álgebra
porque eu ainda não sabia escrever finais