O frio cortante do chão metálico da TARDIS pressionava-se contra sua bochecha, uma sensação gélida que contrastava violentamente com o calor de seu corpo recém-regenerado. Ele piscou algumas vezes, sua visão ainda turva, enquanto o cérebro tentava processar as novas sensações. Cada célula vibrava com a energia de seu novo eu, um formigamento percorreu sua pele como eletricidade estática.
Com esforço, puxou-se para cima, buscando apoio no corrimão metálico atrás de si. O contato com o aço gelado enviou um arrepio por todo o corpo, e seus dedos - ainda estranhos para ele mesmo - fecharam-se instintivamente ao redor do metal, como se temessem soltá-lo.
Ele ergueu uma mão, e depois a outra na altura do rosto, como se as visse pela primeira vez. Seu olhar percorreu o próprio corpo, verificando cada detalhe: pernas, pés, braços, cabeça... tudo parecia estar no lugar.
O desconforto da regeneração pulsava em sua mente, e memórias emergiam como reflexos distorcidos na água. Cambaleando, aproximou-se do console central - que exibia botões e alavancas familiares quanto novos. - pois seus olhos foram atraÃdos pelo espelho embutido e, quando chegou mais perto, seu rosto iluminou-se em espanto e alegria.
— Ah, finalmente! — exclamou, os olhos brilhando. — Sempre quis ser ruivo!
Mas isso durou pouco. Pois um tremor sacudiu a nave, trazendo-o de volta à realidade. A TARDIS oscilava descontroladamente, faÃscas saltavam de cabos soltos e um pequeno incêndio começava nos controles, enquanto o rugido dos motores crescia em intensidade, e luzes em âmbar piscavam sem parar.
No desespero, agarrou um extintor próximo e apontou para as chamas. Um jato branco cobriu o painel, abafando o fogo e deixando para trás apenas fumaça densa e o cheiro de queimado.
Ignorando o caos mental, concentrou-se no essencial: lembrar quem era, pois mal sabia seu próprio nome, e estabilizar a TARDIS.
— Droga!! por que não consigo me lembrar de quem sou?!! — gritou em frustração, pressionando as mãos contra a cabeça.
Entre flashes desconexos, rostos e lugares surgiam. Um nome sobressaÃa. Ela. Sabia que sempre estaria ao seu lado, sempre disposta a correr perigo por ele. Ele sabia que ela nunca o deixaria viajar sozinho, que jamais se afastaria da vida extraordinária que ele lhe mostrou. Mas ele não podia permitir que ela pagasse o preço de sua imprudência. Por isso, precisou afastá-la - e até apagar algumas lembranças, como o seu verdadeiro nome. Ainda assim, ela lembrava das aventuras que viveram juntos, do pseudônimo que ele usava e, da cabine telefônica policial azulada que ele chamava de TARDIS.
Era melhor assim, por mais que doesse. Mesmo que isso significasse carregar o peso da solidão. Afinal de contas, sempre foi assim, não é? Essa era a maldição dos Senhores do Tempo: o fardo de quem viaja entre estrelas e planetas majestosos, testemunhando civilizações nascerem e caÃrem, perdendo pessoas que jamais deveriam ter sido perdidas.
Por que desta vez seria diferente? Ele já estava acostumado a se afastar antes que os outros se machucassem, antes que o inevitável acontecesse.
Ele não queria perder mais ninguém. Não outra vez. Por isso, teve que fazer o que fez.
Com um suspiro, ele sacudiu a cabeça, focando-se na TARDIS, que girava sem rumo pelo tempo e espaço. As mãos se moveram por instinto, mas um toque errado em uma alavanca fez a nave inclinar-se abruptamente, jogando-o contra o chão e arrastando-o em direção à porta. Junto dele, caiu um diário de capa azulada, da mesma cor da TARDIS, que ele conseguiu apanhar assim que se chocou contra a porta, que seu ombro bateu com força, arrancando-lhe um grunhido de dor.Â
 — Se essa porta abrisse... sabe lá onde eu iria parar... — murmurou aliviado.
Mas isso durou pouco. Pois a porta se abriu repentinamente. Com a mão que não segurava o diário, ele agarrou-se a um cabo grosso que vinha do interior da TARDIS, impedindo-se de cair em direção à escuridão do oceano, que ele pode ver alguns metros de distância, a grandiosa silhueta do RMS Titanic sobre as águas escuras do Atlântico, o que indicava que estava em 1912.
— Essa foi por pouco! — ele reuniu o que restava de sua energia, para que voltasse para dentro da TARDIS, fechando a porta atrás de si.
Ofegante, deixou o diário sobre o painel de controle antes de apoiar os dedos na superfÃcie quente, inclinando-se sobre ela. A respiração vinha descompassada, mas ele fechou os olhos por um instante, permitindo-se apenas sentir a vibração da nave ao seu redor, na tentativa de acalmá-la.
— Calma, garota vai ficar tudo bem... — ele murmurou, acariciando o painel de controle da TARDIS com a mesma ternura com que trataria um ente querido.
Ele estalou os dedos, lembrando de algo.
— Ahá! — exclamou, um sorriso surgiu em seus lábios.
Mergulhou a mão no bolso interno do sobretudo e retirou sua chave de fenda sônica.
— Hora de consertar isso! — disse, apontando o aparato para o console e ativando-o. Um som baixo se espalhou, preenchendo a sala ampla arredondada.
Aos poucos, os tremores diminuÃram, as luzes piscantes se estabilizam e o motor, antes rugindo em protesto, passou a fazer seu som caracterÃstico e a nave parou de girar.
Ele soltou um suspiro, sentindo a tensão se dissipar por um instante. Pelo menos por agora, tudo parecia sob controle.
Uma tela brilha em uma série de dados desconexos e padrões temporais distorcidos, piscando freneticamente diante dos olhos do Doctor. Ainda assim, depois de alguns segundos de esforço tentando identificar o que era aquilo, ele consegue decifrar o que via: aqueles sinais denunciavam a presença de um ser atemporal na Terra, naquela época.
— Bem... isso ficou interessante... — disse rindo baixinho. — Vamos ver onde e quando acabamos desta vez.
Ao sair, foi recebido por um silêncio reverente. O ambiente era amplo, iluminado por focos suaves que destacavam diversas relÃquias antigas, em vitrines de vidro.
Seus lábios se curvaram em um sorriso.
— Ah, um museu! — exclamou, os olhos brilhando em entusiasmo. — Londres, eu presumo. Sempre é Londres...
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