Deixe-me Entrar
Epílogo
Três anos depois.....
De pé pela primeira vez sobre a prancha de surf, Murilo vibrou de felicidade. Havia vencido o trauma de água há algum tempo, graças ao acompanhamento psicológico, a natação e claro, a nova família.
Arthur comemorou o progresso do garoto e correu até ele antes que perdesse o equilíbrio.
Quando o menino caiu na água, ele já estava ao lado dele para ajudá-lo a levantar-se.
— Consegui! — O menino gritou, animado.
— Eu disse que o faria. — Arthur o abraçou.
— Esse é o meu garoto!
Murilo estava orgulhoso de si e contente por tê-lo deixado feliz também.
O considerava como um melhor amigo, assim como Isaac. E a cada dia que passava ficavam mais próximos.
Também o considerava um pai... O melhor do mundo, na verdade.
— Posso tentar de novo?
— Só mais uma vez, tudo bem? Precisamos nos aprontar pra a noite.
— Certo!
Arthur saiu da água, mas ficou ali por perto.
Isaac, que já tinha quase a mesma altura do pai, se aproximou e mostrou o vídeo que gravara de Murilo de pé na prancha.
— Pra mostrar pra Luinha. — Explicou.
Arthur assentiu e bagunçou os cabelos do filho.
Ele guardou o celular no bolso da bermuda e voltou a correr na areia com Fantasma e Apolo, o cão que ganharam há uns dois anos.
Depois que Murilo conseguiu ficar novamente de pé na prancha, Arthur o chamou para sair da água.
— Se enxugue e vá para o banho.
Vou ver o que as meninas estão aprontando — Murilo assentiu, obediente.
Débora e a nova namorada Janaína, estavam na cozinha quando Arthur entrou.
Ele sorriu ao vê-las, estava feliz pela irmã ter encontrado alguém.
Depois do último relacionamento, ela havia preferido deixar de lado o coração e focar nos negócios da família, mas acabou encontrando o amor onde menos esperava. Janaína trabalhava na parte administrativa da rede de hotéis e a afinidade entre as duas foi instantânea.
Pouco tempo depois engataram em um namoro que já entrava no segundo ano. Ambas falavam até em se casar.
— Tudo bem por aqui? — Aproximou-se das duas atarefadas no balcão.
— Sim, a Luinha deixou quase tudo pronto, só estamos preparando o salpicão.
— Cadê ela?
— Foi trocar a bebê.
— Nem preciso perguntar se a Analice foi junto...
— E aquela sapequinha desgruda da Luinha e da irmã?
— E nossos pais? Deram notícias?
— Sim, já pegaram a Louise no aeroporto e prometeram chegar antes que anoitecesse.
— Ótimo!
Arthur beijou a testa da irmã e foi ao encontro das garotas.
As encontrou no quarto de Analice e Olívia. O casal havia se mudado com as crianças para a casa na praia depois do casamento.
Concordaram que ali era o lugar ideal para criarem os filhos, pois além do espaço de que necessitavam, era um lugar de paz e tranquilidade, tudo o que Arthur e Lua prezavam.
O homem encostou no batente da porta e cruzou os braços. Ficou observando-as interagirem.
Enquanto Lua limpava a neném, Analice aguardava com ansiedade o momento de colocar a fralda.
Arthur sorriu. Limpar cocô definitivamente não era com ela.
Um filme lhe passou pela cabeça, ali parado observando as três.
Aquilo era sinônimo de felicidade. Considerava-se um homem de sorte e abençoado, pois sabia o significado de amar infinitamente.
Lua notou a presença do marido na porta e sorriu antes de se afastar, para que Analice pudesse colocar a fralda na irmãzinha.
— Puxa só mais um pouquinho pra não ficar frouxa, querida. — Lua a auxiliou.
— Certo. — Analice terminou de ajeitar a irmã e a pegou no colo.
— Olha papai, ficou direitinho.
— A menina se exibiu quando o pai entrou no quarto.
— Você já está expert em colocar fraldas. Só precisa aprender a limpar o cocô.
— Ela fez uma careta, arrancando risada dos pais.
— O Isaac pode fazer isso, papai.
— Seu irmão vai sempre ficar com o trabalho pesado, não é?
— O pai brincou dando um beijo em cada uma das filhas.
Analice se afastou e foi sentar a irmãzinha no tapete emborrachado.
Arthur se aproximou da esposa e segurando-lhe o rosto entre as mãos, deu-lhe um beijo demorado na testa.
Lua fez um carinho na barba do marido, que voltara a crescer, mas não tão grande como costumava usar quando se conheceram.
Nem precisavam dizer nada. Quem olhasse para a linda família que construíram, sentiria o amor transbordando para todos os lados.
Lua encostou a cabeça no peito do marido e os dois observaram as meninas brincando. Olívia, que tinha um pouco mais de oito meses, mordia um brinquedo atenta a irmã que conversava com ela, imitando uma voz de bebê.
O coração da mulher transbordava com a cena. Ela deu um beijo rápido em Arthur antes de se aconchegar nos braços dele.
Em silêncio, agradeceu aos céus por todas as turbulências pelas quais passaram, pois elas os levaram ali, para aquele abraço.
Sentado na cabeceira da grande mesa posta para toda a família, Arthur comemorava os trinta e nove anos de vida. O homem acompanhava em silêncio o barulho das vozes dos convidados se misturando aos gritinhos de Olívia e a tagarelice sem fim de Analice.
Até Murilo, que antes mal conversava, agora falava pelos cotovelos.
Estavam ali presentes as pessoas mais importantes para ele: a irmã; Louise mãe de Anne, que estava na medida do possível voltando a participar da vida dos netos; Cláudia e Olegário; Noêmia e a filha Clara, que agora namorava Isaac, os filhos e a esposa.
Tinha um sorriso bobo pregado na cara quando Lua se aproximou e depositou um pequeno bolo confeitado sobre a mesa.
Ela fazia questão de comemorar o aniversário de todos, nem que fosse apenas com um bolinho.
Arthur, que antes nem ligava muito para celebrações, aprendeu a gostar de tanto ver a animação dela ao fazer um bolo, ou decorar a sala com bexigas coloridas.
Isaac puxou os parabéns e foi acompanhado pelos demais.
Arthur soprou as velinhas e abraçou Lua pela cintura.
A mulher deu-lhe um beijo no topo da cabeça e se ocupou em ajudá-lo a partir o bolo.
Horas depois, os pais de Arthur e Louise se despediram.
Eles ficariam hospedados na antiga casa de Arthur. Cláudia, o marido, a cunhada e a sobrinha partiram em seguida.
Débora e Janaina também se recolheram e as crianças já estavam na cama. O casal foi então para a cozinha ajeitar a bagunça.
— Esse era o último.
— Arthur informou, enxugando o prato e o guardando dentro da gaveta.
— Vamos subir? — enlaçou-a pela cintura — Quero aproveitar um pouquinho antes que a Olívia desperte.
— Pode me esperar na canoa... — Arthur enrugou a testa ao ouvir aquilo.
— Na canoa?
— Uhum. Toma, leva a babá eletrônica.
— Tudo bem. — O homem a beijou nos lábios e pegou o objeto.
Caminhou em direção a velha embarcação e encarou, com surpresa, a manta e o balde com uma garrafa de vinho e duas taças.
Parecia que a esposa tinha outros planos.
Arthur colocou a babá eletrônica sobre a manta e cuidou de abrir a garrafa.
Quando estava enchendo a segunda taça, Lua se juntou a ele.
Fizeram um brinde e depois de beber apenas um gole, pois estava amamentando, ela colocou a taça de lado e ergueu a manta, pegando debaixo dela um embrulho em papel dourado.
— Pra você. — Entregou o pacote ao marido.
— Não precisava me comprar nada.
— Mesmo que não se importasse com presentes, ficou ansioso para abri-lo.
— Eu não comprei.
Arthur rasgou o embrulho e se deparou com o que parecia um caderno enfeitado artesanalmente com fitas e tecidos coloridos.
Ele sorriu para a esposa e o abriu.
— Caderno de Recordações. — Leu as palavras escritas na primeira página.
— Sim. Eu coloquei algumas lembranças felizes aí, mas deixei espaço pra você colocar as próprias lembranças.
— Lua informou, animada.
O homem assentiu e passou para a página seguinte.
Nela estava a fotografia de Anne grávida com Isaac, a mesma fotografia que entregou a Lua no dia que a pediu em casamento. Ergueu os olhos para a mulher ao lado com um misto de surpresa e admiração.
A amou um pouquinho mais pela sensibilidade de compreender e aceitar que Anne sempre seria uma parte dele, jamais esquecida. Lá no fundo, também sabia que onde ela estivesse, os abençoaria. Virou a página e sorriu ao ver o cartão que havia mandado, junto com o arranjo de tulipas, depois do primeiro encontro deles. Na página seguinte estava uma pétala de tulipa seca. Foi passando as páginas e encontrou fotos deles juntos, das crianças, uma imagem de ultrassom da pequena Olívia, desenhos feitos por Analice. Parou em uma página em que havia o desenho feito por Murilo do primeiro dia dos pais que passaram juntos.
Ter participado ativamente do progresso daquele garoto tão especial era uma emoção sem tamanho.
O pequeno era um presente, assim como a mãe...
E quando pensou que a felicidade estava completa, foi presenteado com outra dádiva, Olívia. Era muito grato a Deus por tudo aquilo.
Vários outros desenhos das crianças enfeitavam o caderno.
Uma pequena mãozinha de tinta enfeitava a última página.
Quando o homem fechou o caderno tinha lágrimas nos olhos.
— Esse é, sem dúvida, o melhor presente que já ganhei na vida — Arthur deixou o caderno de lado e a puxou para um abraço. — Obrigado, meu amor.
Lua assentiu, satisfeita. Era apenas um presente simbólico, mas que possuía um grande valor sentimental para todos. Inclusive os filhos, que amaram participar da confecção do caderno.
Olhou para o marido que, emocionado, enxugava os olhos, e também agradeceu silenciosamente por ele e pela família linda que a ajudou a construir.
Beijaram-se com paixão. Embora já estivessem juntos há alguns anos, o amor dos dois só crescia, se solidificava.
Lua apoiou a cabeça no ombro do marido, que abriu novamente o caderno.
Os dois permaneceram ali, naquela canoa, que possuía um significado especial para os dois, conversando sobre cada uma daquelas lembranças, até que um chorinho conhecido ecoou da babá eletrônica.
— Nosso tempo acabou.
— Lua sorriu, pegando o aparelho eletrônico.
— Nosso tempo só está começando, minha querida.
— Ela absorveu aquelas palavras.
— Teremos todo tempo do mundo para amarmos um ao outro,Luinha.
— Te amo.
— Também te amo. — Olharam-se apaixonadamente e então se levantaram, seguindo para dentro de casa.
Mesmo que não tivessem terminado a noite se amando entre os lençóis como era o desejo de Arthur, sentia-se completo.
Aquele chorinho era a prova da grandiosidade do amor deles, a prova de que estava curado e tinha seguido em frente.
FIM..........
Pois é amores… A web chegou ao fim. Dedico esse Capítulo final as minhas leitoras lindas…















