Se no mundo físico a música experimental não é totalmente explorado ou comum, então no virtualmusic esta se torna ainda mais rara e difícil de ser apreciada. Isto porque a música experimental, dito como o próprio nome sugere, não traz nada além do que grandes riscos para um artista, bem como, a subjetividade deste pode desencadear as mais diversas emoções aos ouvintes, incluindo as negativas.
É fato que temos álbuns como Reverie [Venus James], Freak Disco [Beth Thunder] e Yemanyá [Vanessa Clark] no virtualmusic que correspondem ao termo de "Experimental" (vasto, que pode englobar de tudo), mas estes mesmos, são projetos que vão do 8 ou ao 80 quando questiona-se o apreço do público ao mesmo. Normalmente, projetos que vem em forma de mixtape ou simplesmente sem grandes expectativas comerciais, embora, nestes três casos, tenham funcionado bem quando a receptividade do público e da crítica.
Carmim chegou no final de 2019 e logo lançou seu álbum de estreia ELETROPLASMA. Embora novata no pornopop, Carmim já tem uma trajetória longa do Impop, anteriormente conhecida como Tammi Dallas, que possuia a popular e aclamada trilogia de álbuns: Locomotiva, Pandemia, Cosmogonia; O primeiro, dado como um dos melhores da história da virtualmusic, e que levou prêmios de grande peso, incluindo alguns Radio Station Grammy Awards, premiação de maior importância do meio virtual.
A estratégia de abandonar a persona Tammi e toda a escuridão do universo de Locomotiva e seus sucessores, talvez tenha sido muito inteligente, embora arriscada. É fato que Tammi passou de uma das artistas desconhecidas a uma das mais aclamadas no impop, e abandonar a esta zona de conforto pode ser arriscado, mas interessante para ela. CARMIM, não busca mais mesclar o espaço sideral com o velho oeste, ou a epidemia de uma doença com uma distopia no século XX. Em Eletroplasma, Carmim constrói um cenário natural, mas ao mesmo tempo robótico, uma imagem orgânica mas também mecânica. É o contraste da natureza e dos avanços tecnológicos, em constante discrepância e guerra. Um formato interessante e consequentemente muito original, afinal, em um mundo onde artistas tentam a todo custo parecer conceituais mas acabam por cair em suas próprias metáforas, Carmim aborda uma imagem que, mesmo arriscada, torna-se madura e interessante.
Todavia, nem só o visual e a história por trás das mitologias criadas sustentam um universo. Na verdade, este mesmo deva ser, ao mesmo tempo, o maior acerto e maior erro do disco. Isto porquê Carmim, em certos momentos do disco como se veem em Pluridimensional e SOLARIS, perde-se tanto em tentar trazer o subjetivo e o óbvio, que tudo torna-se uma bagunça. São canções que, embora acrescentam estéticamente ao universo, sonoramente, tornam-se cansativas e sufocantes. É óbvio que partes mais comerciais são necessárias para divulgar toda uma obra, e em Tons do Ar, Tons do Mar, Invisibilidade e Linhas Brancas, Carmim traz a tona os elementos e as músicas que possivelmente ficarão no repeat comparado a outras. O que torna-se irônico é que, embora estas, mais comerciais e de fácil consumo, são ao mesmo tempo muito mais profundas e interessantes que outras partes do disco que deveriam carregar a imagem mais difícil a ser digerida e complexa do álbum, já que estas, como antes mencionado, na verdade só tornaram-se muito bagunçadas.
No final, Carmim dificilmente, em Eletroplasma, conseguiu superar Locomotiva ou Pandemia, álbuns que são grandes marcos, e que, inevitavelmente, sempre serão comparados quando ela divulgar um novo material. Não é um álbum ruim, mas também não é 100% um acerto, visto que o próprio ideal da cantora era de trazer algo experimental, mas que também pudesse ser consumido. Provavelmente, Carmim só quer explorar mais sua nova imagem e ver onde poderia chegar, buscando seu próprio conceito. Já ficou nítido que a cantora pode trazer grandes obras-primas, não esquecemos que a cantora participou de Farsante no mais recente álbum de Beth Thunder e Inferno Pessoal presente em De Outro Mundo de Gabi. Não só nestas canções, mas em outras do próprio Eletroplasma, Carmim traz sim grandes obras-primas, todavia, se a própria cantora se perde em algumas partes de seu próprio universo, imagine aqueles que estão a ouvindo e também a tentar descobrir este universo.