porque se fosse sobre mim, traria as marcas do meu corpo, e elas não estão aqui. se fosse sobre mim, contaria a dor da minha alma, o espinho na carne, o sangue cru, a voz inaudÃvel. o que trago é o sábado que passei andando de bicicleta pelo bairro, fotografando pessoas. os skatistas pararam e posaram para a foto, eu sorri, guardei a imagem, pedalei: onde estive? não é sobre mim porque não traz o desejo pelo erro, a necessidade do absurdo, o refúgio no escuro, o escape no outro lado: não traz. não sou eu. isso não é sobre mim, é sobre a exposição do leminski que visitei semana passada: é sempre sobre visitas, é sempre sobre a ida, nunca sobre a volta. não há volta: não é sobre mim. é sobre os poetas alegres e também sobre os sofridos que falaram comigo sem ao menos me notarem ali naquela casa. o que tem aqui é a tinta desperdiçada nessas telas sem nexo, o tempo despendido,  a ânsia de pintar - e não a frustração pelo resultado final. é a redundância engraçada: a face aceitável da fala direta e dolorosa. nada do que faço é sobre mim, o que não faço é. eu não faço. não aconteço. tudo o que é sobre mim não aparece. você não me conhece e nunca irá conhecer. você me toca, fala comigo, procura sentido em cada traço dos meus olhos, não encontra: existo? existo e vivo num nÃvel do qual não consigo me fazer emergir. existo por trás disso que você toca, do que você entende, do que interpreta. vivo comigo e comigo nunca errei. comigo me ganho, me vivo, nunca morro. isso é sobre a minha parte morta. tudo é sobre a minha parte morta.