Ă sete chamas errantes da abĂłbada antiga, nĂŁo vos contaram por nĂșmero, mas por assombro.
Foi a Lua quem primeiro dobrou o infinito em quatro respiraçÔes de prata; e o homem, humilde diante da noite, aprendeu a repartir os dias como quem divide um cùntico para que o coração pudesse recordå-lo.
Assim nasceu a semana: nĂŁo do ferro das mĂĄquinas, nem da vontade dos reis, mas do lento acordo entre o olhar humano e a paciĂȘncia dos cĂ©us.
E hoje, olhando para os homens, ouço uma silenciosa e profunda oração.
Vem a mim, Ăł MĂŁe de todas as ĂĄguas, força sem nome que faz dos mares um brinquedo e das marĂ©s a respiração do mundo. Ensina-me a mover-me sem violĂȘncia, a ceder sem me perder e a permanecer sem endurecer.
Que eu aprenda com os rios a encontrar o caminho sem disputar com as pedras; com a Lua, a aceitar que toda plenitude tambĂ©m conhece o declĂnio; com o oceano, a compreender que a verdadeira grandeza nĂŁo estĂĄ no estrondo das ondas, mas na profundidade que as sustenta.
Livra meu pensamento do ruĂdo que confunde e da pressa que empobrece. DĂĄ-me um espĂrito vasto como o horizonte, onde cada dĂșvida seja uma estrela e cada silĂȘncio, uma resposta ainda por nascer.
Se hĂĄ um templo, que seja a consciĂȘncia desperta. Se hĂĄ um altar, que seja a bondade oferecida sem testemunhas. E, se existe uma eternidade ao alcance do homem, que ela habite o instante em que o pensamento se torna claro, o coração se aquieta e a alma reconhece, enfim, que faz parte do mesmo mar que contempla.
MĂŁe branca, que se faz negra ao abraçar o Sol, o Ășnico grande o bastante para ofuscar-te sem jamais apagar-te; sei que tua ausĂȘncia Ă© apenas outro nome para a espera. Quando te escondes, permaneces inteira, invisĂvel apenas aos olhos impacientes.
Ensina-me também a desaparecer sem deixar de existir. Que eu aceite as sombras como quem aceita o repouso depois de uma longa travessia. Pois nem toda escuridão é queda; algumas são apenas o ventre onde a luz aprende um novo nascimento.
Que eu compreenda que o céu nunca perde suas estrelas; apenas as entrega ao olhar de outro tempo. Que o mar jamais abandona suas åguas; apenas as transforma em nuvens para que regressem com outro nome. E que o homem, quando ama o infinito, aprenda que viver é aceitar as partidas sem renunciar aos retornos.
Quando o Ășltimo pensamento abandonar meu peito como uma ave cansada procurando o mar, nĂŁo permitas que eu tema o silĂȘncio. Recebe-o como a noite recebe a Lua: sem perguntas, sem promessas, apenas com a paciĂȘncia de quem conhece o ciclo de todas as coisas.
Ă MĂŁe das marĂ©s invisĂveis, se ainda guardas um sopro antes do amanhecer, entrega-mo sem alarde. NĂŁo peço uma esperança que vença a noite; peço apenas aquela que ousa nascer dentro dela.
Que ela seja como a efĂȘmera, cuja vida inteira cabe entre dois crepĂșsculos, mas cujo voo basta para justificar o cĂ©u. Que eu aprenda com ela que nem toda eternidade se mede pelo tempo; algumas existem apenas porque foram intensamente verdadeiras.
Se o mundo tiver de esquecer meu nome, que nĂŁo se esqueça do meu respirar. Que cada fĂŽlego devolvido ao vento seja uma pequena gratidĂŁo ao invisĂvel. Que cada inspiração recorde que tambĂ©m eu fui feito das marĂ©s, do sal antigo, da poeira das estrelas e do silĂȘncio que existia antes da primeira palavra.
E quando a aurora dissolver teu rosto nas ĂĄguas do cĂ©u, nĂŁo me reveles o fim. Conserva em mim a santa ignorĂąncia dos horizontes, onde toda chegada parece apenas o princĂpio de outra travessia.
Porque talvez os sonhos nĂŁo terminem quando despertamos; talvez despertem de nĂłs e continuem caminhando sozinhos pelo universo, procurando outros olhos onde possam novamente florescer.
E, se um dia eu voltar a encontrar-te, que nĂŁo seja porque cheguei ao destino, mas porque aprendi a caminhar sem exigir que o caminho terminasse.
Assim entrego meu pensamento ao vento, meu silĂȘncio ao oceano e meu respirar ao infinito.
Faze dele apenas mais uma onda.
apenas o intervalo entre duas marés, onde o universo ainda hesita antes de voltar a respirar.