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[10/2012 e revisado 2021] [AUTOFICÇÃO]
Respiravam como se houvesse ar preso há muito tempo. Tempo demais pra alguém que precisa respirar.
Não era comum estar acordado por um motivo tão frívolo, mas acima disso as intenções estavam definidas quando um dos garotos soltou a frase inoportuna no ar:
— Vou com você. Tem algum problema em dormir na sua casa?
O “não” foi espontâneo, e a forma de raciocínio já estava pré-definida pela bebida — não que isso justificasse alguma coisa.
Os meios jamais justificam os fins, mas temperam bem a história. E era essa: um relacionamento ao vento e uma noite de bebida com algumas cabeças quentes.
Assim como escrevo, estavam eles lá. O tempo se contraiu e cuspiu aquele momento, sem forma ou razão. Às vezes espantavam o questionamento de porquê, como ou qualquer outro tipo de pergunta.
Realmente, TV de manhã é prejudicial. As imagens vinham turvas e as vozes embaralhadas.
Era questão de tempo, mas havia a necessidade de um começo. Enquanto um fingia interesse pela tela justamente pra poder sentar ao lado do outro no chão, encostados na parte baixa do sofá, a mãe de um dormia no outro quarto — e esse era o menor dos problemas, se realmente fosse algum.
O outro, que também não prestava atenção na TV, já mantinha a ideia sacana em andamento. Tirava o cinto e se ajeitava pra ficar mais confortável, supostamente por ter chegado da rua. Desabotoou a calça e pôs a mão dentro da cueca, enquanto o outro fingia que aquilo era uma situação normal, como em um vestiário.
Não que não soubesse que iria rolar, mas era parte vital: o começo. Às vezes torna mais interessante se convencer de que foi pego de surpresa.
Outubro de 2012 — Eu vivia em romances impossíveis e impróprios, regados a sacanagem.