A gramática tradicional e seu (não) uso cotidiano.
Por muito tempo, as pessoas vêm reproduzindo um discurso que a gramática tradicional – ou culta, como é popularmente conhecida – deve ser seguida a risca, com todas as regras exceções, como se fosse algum tipo de lei. Reproduzem esse discurso sem ao menos se darem conta que, quase sempre, o “culto” não faz a menor diferença desde que seus objetivos de comunicação e resultado final de alguma meta são compreendidos e finalizados.
Em palavras mais simples, algumas pessoas subjugam a capacidade intelectual de um indivíduo por sua gramática – Oral e escrita. O que é um tremendo equívoco, como pode observar no livro “Preconceito Linguístico” de Marcos Bagno, onde ele cita mitos a respeito de nossa língua nacional. Este em questão trata-se do mito de numero quatro, que diz exatamente o que milhares de brasileiros repetem, sem ao menos se darem conta de que essa afirmação não tem base científica alguma: “As pessoas sem instrução falam tudo errado”.
Todos são dotados de grande potencial no intelecto; qualquer pessoa pode, e consegue, aprender a “língua culta”, outros idiomas e até a junção de ambos: chamado estrangeirismo.
Mas toda sociedade utiliza aquela gramática que atende suas necessidades como falantes, seja ela informal ou formal; isso ira depender se o indivíduo precisa dela para comunicar-se ou não.
A seguir, um conto de humor que mostra exatamente como a gramática culta, por vezes, não é tão importante quando levamos em consideração outros fatores, ou outros contextos por assim dizer.
“O gerente de vendas recebeu o seguinte fax de um dos seus novos vendedores:
'Seo Gomis o criente de Belzonte pidiu mais cuatrucenta pessa. Faz favor toma as providenssa, Abrasso, Nirso.'
Aproximadamente uma hora depois, recebeu outro:
'Seo Gomis, os relatório di venda vai xega atrazado proqueto fexando umas venda. Temo que manda treis miu pessa. 'Amanhã tô xegando. Abrasso, Nirso. '
'Seo Gomis, num xeguei pucausa de que vendi maiz deis miu em Beraba. To indo pra Brazilha. Abrasso, Nirso.'
'Seo Gomis, Brazilha fexo 20 miu. Vo pra Frolinoplis e delá pra Sum Paulo no vinhão das cete hora. Abrasso, Nirso'.
E assim foi o mês inteiro. O gerente, muito preocupado com a imagem da empresa, levou ao presidente as mensagens que recebeu do vendedor. O presidente escutou atentamente o gerente e disse:
'Deixa comigo, que eu tomarei as providências necessárias'.
Redigiu de próprio punho um aviso e fixou no mural da empresa, juntamente com as mensagens de fax do vendedor:
'A parti de oje nois tudo vamo fazê feito o Nirso. Si priocupá menos em iscrevê serto, mod vendê maiz.'
Citando Marcos Bagno, podemos observar a visão errônea e preconceituosa que a sociedade tem ao se deparar com algum falante de uma variação linguística regional:
“Qualquer manifestação linguística que escape desse triângulo escola-gramática-dicionário é considerada, sob ótica do preconceito linguístico, ‘errada, feia, estropiada, rudimentar, deficiente’, e não é raro a gente ouvir que ‘isso não é português’ [...] isso se deve simplesmente a uma questão que não é linguística, mas social e política – As pessoas que dizem Cráudia, praca, pranta pertencem a uma classe social desprestigiada, marginalizada, que não tem acesso à educação formal e aos bens culturais da elite, e por isso a língua que elas falam sofre o mesmo preconceito que pesam sobre elas mesmas, ou seja, sua língua é considerada feia, pobre, carente, quando na verdade é apenas diferente da língua da escola”
(apud BAGNO, 2007: 43;44)
Cabe ao falante determinar suas prioridades, reconhecer o inadequado e o adequado, e mesmo que não seja correto, for compreendido. E ser compreendido é mais importante do que ter estilísticas vazias, apenas por mero preconceito daqueles que veem mais as regras, do que uma língua viva que acha modos de comunicação respeitando o próprio falante e sua indentidade.
BAGNO, Marcos. “Preconceito linguístico”. 49° edição, ed. Loyola, São Paulo, 2007.
http://www.recantodasletras.com.br/humor/890816 - Visto dia 19/09/2017