TRANSCRIÇÃO OFICIAL — Depoimento de Thomaz di Angelis
Local: 19th Precinct, Upper East Side
Data: 12 de novembro
Interrogado: Thomaz di Angelis, 27 anos
Status: Testemunha.
Observação do oficial: O sujeito chegou pontual, mas aparentava cansaço acumulado (olheiras marcadas, postura rígida, mãos inquietas). Não demonstra sinais claros de intoxicação, embora pareça emocionalmente desgastado. O comportamento geral alternou entre cooperativo e autocontido, como alguém que ensaiou o que podia dizer e o que não deveria.
( antes mesmo de começar thomaz respira fundo. o som de dedos batendo levemente na mesa denuncia inquietação. ele evita olhar diretamente para os detetives até que lhe pedem para começar. )
1. Qual foi sua última interação com James Rockefeller?
eu lembro exatamente. não porque foi especial… mas porque tudo, depois, ficou com gosto de último. ele estava na festa, obviamente estava, ele sempre estava. meu último momento com ele foi perto da varanda dos fundos, uns quarenta minutos antes de eu ir embora. ele… parecia elétrico, do jeito que só o james conseguia ser: brilhante, perigoso, parecia prestes a incendiar a própria vida só pra ver as chamas bonitas. ele me chamou de di angelis, nunca “thomaz”. deu aquele sorriso meio torto que ele usava quando queria fingir que estava no controle. falamos de coisas pequenas: trabalho, algumas fofocas idiotas, planos. mas… tinha algo fora do lugar. ele não estava bêbado. ele estava… desconectado. a cabeça em dois lugares ao mesmo tempo. teve um momento, rápido, em que ele largou o copo, olhou por cima do meu ombro e ficou sério. duro. eu segui o olhar, mas não vi ninguém. quando perguntei se estava tudo bem, ele só disse: “tem gente demais querendo um pedaço meu.” eu ri na hora, mas agora… não sei mais se era piada.
2. Notou algo estranho na festa?
sim. eu notei algumas coisas. primeiro, o clima estava… carregado. as pessoas estavam tensas. eu achei que fosse só ressaca emocional coletiva, aquele tipo de festa onde todo mundo parece ter algo a esconder. lembro que james se afastou várias vezes, sumia por minutos e voltava como se nada tivesse acontecido. não é o comportamento mais estranho do mundo se tratando dele… mas isso sempre me chamou atenção. outra coisa: alguém derrubou uma garrafa no corredor do andar de cima. o barulho foi alto, vidro pra todo lado. quando subi pra ver se alguém precisava de ajuda, não tinha ninguém. só o chão molhado, cheiro forte de álcool e… como posso dizer… uma sensação de que alguém tinha saído correndo dali. talvez eu tenha imaginado, mas juro que ouvi uma porta batendo logo depois.
3. Como você descreveria o estado mental de James recentemente?
eu conheci três versões do james ao longo da vida. naqueles últimos meses? ele era a pior mistura das três. ele estava carismático como sempre, claro, ele nasceu sabendo ser o protagonista de qualquer sala. mas havia algo… trincado. como vidro de carro depois de uma batida. paranoico? talvez. mas eu chamaria mais de… pressionado. ele parecia carregar alguma coisa pesada demais pra esconder, e ao mesmo tempo, parecia certo de que ninguém jamais iria descobrir. é uma combinação perigosa. não acho que ele estava feliz. não acho que estava saudável. mas ele estava… decidido. isso eu senti. como se tivesse tomado uma decisão grande demais pra alguém da idade dele.
4. Acredita que alguém poderia querer machucá-lo?
olha… sim. james colecionava pessoas, e inimigos, com a mesma facilidade. não vou acusar ninguém, mas posso citar possibilidades. primeiro; gente do círculo dele. pensem comigo: quando alguém tem tanta influência, tanta manipulação, tanta proximidade com segredos… isso cria ressentimento. aquela gente toda orbitando ele… não dá pra saber quem realmente gostava dele e quem só tolerava. segundo; alguém dentro da família rockefeller. eu não sou idiota. eu sei como aquelas dinastias funcionam. uma morte “acidental” resolve muitos problemas, financeiros, emocionais, sociais. e… ( hesita ) três; alguém que ele deixou para trás do jeito errado. ele tinha esse talento. criar dependências e depois sumir como se nunca tivesse prometido nada. não sei nomes. mas sei padrões.
5. Há algo que gostaria de confessar ou esclarecer sobre a noite da festa?
( ele respira fundo. os dedos param de bater na mesa. ) sim. tem algo que eu não falei ainda. eu fui embora mais cedo do que todo mundo pensa. disse para alguns que estava cansado, mas não era verdade. eu… ouvi algo que não devia. quando estava perto da escada dos fundos, ouvi duas pessoas discutindo baixo, muito baixo, sem chamar atenção. reconheci uma voz… não tenho certeza, mas parecia alguém que james costumava manter por perto, alguém do círculo dele. não vou dizer o nome porque posso estar errado, e isso arruinaria uma vida. eu não ouvi o suficiente pra entender, mas ouvi “ele sabe” e “não dá mais pra controlar”. depois passos, rápidos. uma porta batendo. eu fui embora porque senti que aquela festa ia acabar mal. senti isso no corpo. e odeio estar dizendo isso agora… porque significa que eu talvez estivesse certo. e não. eu não toquei no james. nem o segui. nem voltei depois. mas tenho pensado todas as noites se eu deveria ter avisado alguém, interferido, insistido pra ele ir comigo. se isso é uma confissão, é só isso: eu tive um pressentimento e ignorei. e se isso custou a vida de alguém… então eu vou carregar esse peso sozinho.