O Louco.
Eu costumava ser o tipo de pessoa que assustava os outros sem perceber.
Ria alto demais. Falava demais. Sentia tudo num volume meio insuportável. Entrava nos lugares como quem ainda acreditava que a vida podia acontecer ali, naquela mesa, naquela conversa, naquela madrugada específica. Existia uma pulsação violenta dentro de mim, uma urgência difícil de explicar. Como se eu estivesse sempre atrasada para alguma coisa invisível.
Eu fumava na janela pensando em quantas vidas ainda dava tempo de viver antes dos trinta. Queria conhecer o meu país inteiro. Pegar ônibus sem saber direito onde terminava a viagem. Dormir perto do mar. Fazer trilhas longas até sentir o corpo doer de um jeito honestamente humano. Eu olhava fotos de praias escondidas como quem olha para uma realidade paralela onde eu talvez tivesse conseguido me tornar alguém mais leve.
Eu acreditava muito em partir.
Talvez porque ficar sempre tenha me parecido uma maneira lenta de morrer.
Havia também o caos, claro. Os excessos. As noites em que eu me destruía só porque não sabia o que fazer com tudo que existia dentro da minha cabeça. Eu não buscava intensidade. A intensidade simplesmente me acontecia. Como febre. Como enchente. Como alguém tentando sobreviver dentro da própria mente sem manual de instrução.
E, honestamente? Às vezes era exaustivo ser eu.
Mas pelo menos eu estava viva.
Aí a vida foi acontecendo daquele jeito pouco poético que ela acontece para quase todo mundo. O dinheiro começou a faltar antes do fim do mês. Vieram os boletos, o aluguel, o cansaço acumulado, a percepção humilhante de que sobreviver ocupa um espaço absurdo da existência. E sem perceber eu fui deixando tudo para depois.
A viagem ficou para depois. As trilhas ficaram para depois. O mar ficou para depois. Eu fiquei para depois.
Porque existe uma diferença cruel entre amadurecer e abandonar a própria vida para conseguir sustentá-la.
Hoje sou uma pessoa funcional. Responsável. Alguém que responde mensagens, paga contas em dia e sabe exatamente onde o perigo começa. E talvez seja justamente esse o problema. Eu me tornei cuidadosa demais. Controlável demais. Como se alguma parte minha tivesse aprendido que sentir alto era perigoso e precisasse ser mantida sob vigilância.
Tem dias em que caminho pela casa e sinto que estou assistindo à minha própria vida de longe. Como se eu tivesse me tornado espectadora de uma mulher que um dia quis o mundo inteiro e agora comemora quando sobra dinheiro no fim do mês para pedir comida sem culpa.
E isso me assusta mais do que todas as antigas versões caóticas de mim.
Porque antes eu desmoronava. Agora eu desapareço aos poucos. Em silêncio.
Sem atrapalhar ninguém.
- Aquarius, 1998.














