Ela ainda me serve. Esse é o problema.
Fecha no corpo. Não aperta na cintura, não repuxa nos ombros, não me impede de respirar. Se eu levanto os braços, ela acompanha. Se eu sento, ela continua no lugar. Tecnicamente, não há nada de errado.
Talvez fosse mais fácil se houvesse.
Uma costura aberta, uma mancha impossÃvel de tirar, um botão faltando. Qualquer defeito pequeno que me autorizasse a dizer: não dá mais. Pronto. Acabou. Fiz o que pude.
Mas ela está inteira.
E eu usei por tempo demais para fingir que não foi minha. Fui a lugares com ela. Fiz combinações improváveis. Me vi em fotos. Recebi elogios. Houve dias em que ela pareceu me traduzir melhor do que eu mesma. Em algum momento, aquela peça encaixava tão bem que eu achei que encaixaria para sempre, que ingenuidade.
Só que agora eu visto e alguma coisa não vem junto.
Não é o tecido. Não é o corte. Não é o espelho, embora eu sempre culpe o espelho primeiro, porque ele fica ali parado com aquela cara de funcionário público da autoestima. Sou eu. Ou alguma coisa em mim que saiu antes e não avisou.
Eu olho e reconheço. Mas não pertenço.
E isso me irrita mais do que se eu odiasse. O ódio pelo menos organiza. Junta provas, monta um caso firme. O ódio sabe bater a porta.
Mas o que eu sinto por ela não é ódio. É quase gratidão. Quase carinho. Uma espécie de respeito triste.
Talvez por isso eu continue tentando.
Troco o sapato. Prendo o cabelo. Solto o cabelo. Mudo a luz. Dou uma voltinha no quarto como se o movimento pudesse devolver alguma coisa. Como se bastasse encontrar o ângulo certo para tudo voltar a fazer sentido.
Não volta.
Ela ainda me serve, e ninguém sabe o que fazer com uma coisa que ainda funciona. A gente sabe abandonar o que machuca, pelo menos na teoria. Sabe sair quando aperta, quando sufoca, quando deixa marca. Mas como é que se explica o abandono de algo que continua tentando?
Essa é a parte mais difÃcil.
Não deu errado.
Eu ainda poderia usar. Ainda saberia combinar. Ainda conseguiria atravessar a rua com ela, sentar numa mesa, sorrir do jeito certo, fingir que nada está fora do lugar.
Mas eu cansei de caber em coisas só porque consigo.
Então eu não joguei fora. Não rasguei. Não fiz discurso.
Só tirei com cuidado.
Dobrei uma vez, depois outra. Deixei no canto por enquanto, sem raiva, sem cerimônia, sem aquela necessidade antiga de transformar todo fim em incêndio.
Ela ainda me serve.
Mas servir não é o bastante pra ficar.










