Depois de muito tempo hoje eu me permiti chorar. SĂŁo duas da manhĂŁ, e a solidĂŁo insiste em me fazer companhia. Comecei a ver fotos e ler textos. Que incĂŽmodo. Ă como se algo faltasse em mim. Ă como se eu ainda nĂŁo pudesse me sentir completa, e nĂŁo pelo o que sou, mas talvez, pelo o que nĂŁo sou. Feliz. Queria poder dizer pras minhas lĂĄgrimas, que elas jĂĄ nĂŁo fazem sentido, se nĂŁo vierem acompanhadas de bons sentimentos. Mas eu nĂŁo posso fazer isso. Sou grata e plena pelo que tenho e pelo que sou por enquanto. Mas nĂŁo posso ser feliz por todos os pequenos detalhes que ainda me faltam para ser perfeita. Talvez a felicidade possa ser traduzida pelos pequenos obstĂĄculos que nos fazem sorrir durante a vida. O problema Ă© que nĂŁo sei identifica-los. EntĂŁo, eu chorei. Chorei porque me sinto sĂł. Em meio a tantas pessoas, ainda tenho a audĂĄcia de dizer isto. Ă porque as vezes, nĂŁo precisamos estar rodeados de pessoas pra ser plenamente suscetĂveis de uma boa companhia. Eu queria o amor. Ou a amizade. SĂł queria alguĂ©m pra compartilhar minha vida. Queria poder ligar pra alguĂ©m agora. Eu sei que Ă© meio tarde, mas eu preciso conversar. NĂŁo tenho sono, vocĂȘ pode me fazer companhia? Faço melhor, te ajudo a pegar no sono. Ă isso que eu preciso. Preciso saber como foi o dia de alguĂ©m. Quero dormir escutando uma mĂșsica que me faça ter boas lembranças ao lado de alguĂ©m. Talvez, pegar no sono durante uma conversa totalmente sem noção ao telefone. Eu quero sonhar. Quero poder cuidar de alguĂ©m. Ă basicamente isso. NĂŁo quero ter um milhĂŁo de amigos. Pra mim, eu sĂł quero alguĂ©m especial. AlguĂ©m que eu sei que nunca vai embora, mesmo que deva. Eu quero que alguĂ©m precise de mim, dĂĄ mesma forma que eu preciso de alguĂ©m. Eu quero um abraço, ou quem sabe um chocolate, um filme e uma guerra de travesseiros. ClichĂȘ, eu sei. Acho que todo mundo chega nessa fase da vida, em que o que importa, vai alĂ©m do que o que vocĂȘ Ă© e o que vocĂȘ tem. O que importa agora, Ă© pertencer Ă alguĂ©m, romanticamente ou nĂŁo. NecessĂĄrio mesmo Ă© ser importante pra alguĂ©m que vai te procurar vinte e quatro horas por dia. Vai ficar bravo se nĂŁo responder rĂĄpido. Vai te mandar um milhĂŁo de mensagens enquanto vocĂȘ dorme ou faz outra coisa longe do celular. Eu preciso de alguĂ©m que precise de mim. Me conte da sua vida, ou daquele seu medo idiota. Eu prometo nĂŁo rir, ou pelo menos tentar. Me conta uma histĂłria engraçada. NĂŁo precisa se gabar pra cima de mim, eu vou conhecer teu potencial. Me sinto ridĂcula por essas lĂĄgrimas ainda caĂrem. SerĂĄ que afinal, o problema sou eu? Talvez eu deva considerar o fato de que tudo que eu preciso, Ă© tudo que faz as pessoas se afastarem de mim. Tudo bem, eu sobrevivo a isso. Do fundo do meu coração, eu sei do que e de quanto preciso para viver. E como disse, nĂŁo preciso de muito. Ou talvez precise de muito de um pouco. DĂĄ pra entender? Pra gente ser especial na vida de alguĂ©m, a gente precisa transbordar sem medo. No mundo que vivemos hoje, quanto menos melhor. EntĂŁo deve ser por isso que choro agora. Eu nasci numa Ă©poca errada. Eu queria viver aqueles tempos em que estar de bem com a prĂłpria vida era muito mais importante do que cuidar da vida alheia. Eu nĂŁo sei ser assim. Queria poder viver as redes sociais em tempo real sabe? Quanto tempo as pessoas passam tirando fotos e gravando vĂdeos, tentando desesperadamente guardar aquele momento? Mas jĂĄ nĂŁo lhe basta sua memĂłria? Ă pra isso que ela serve, ou deveria. Em meio a toda essa bagunça, quero por qualquer coisa, encontrar alguĂ©m que queira viver comigo. Que queira ir alĂ©m de uma pequena tela, de algumas curtidas e horas infiltradas em matĂ©ria insignificante. Eu sĂł quero amar. E talvez, nem preciso de alguĂ©m para isso. SĂł que agora eu choro, porque eu preciso de alguĂ©m que precise de mim. Eu preciso compartilhar meu amor, mas tambĂ©m preciso que alguĂ©m compartilhe do seu comigo. NĂŁo sou uma mĂĄ pessoa. Pode contar comigo. Me liga no meio da noite. Me chama pra sair, nem que seja pra sentar na frente de casa. Deita aqui, vamos assistir um filme. Talvez eu queira te surpreender no meio do dia, um presente, uma ligação, uma mensagem, qualquer coisa pra te lembrar que eu tĂŽ pensando em vocĂȘ. Mas nĂŁo me venha com palavras mal ditas. Digo, palavras que sĂł se utilizam dĂĄ boca pra fora. Eu nĂŁo quero eu te amo vinte e quatro a por dia, nĂŁo quero um pedido de desculpa, nĂŁo quero uma simples frase âsinto saudadesâ. JĂĄ diziam por aĂ, que Ă© muito melhor se expressar por atos do que por palavras. AliĂĄs, bom mesmo Ă© fazer os dois. Me diz, pra que tanto medo de demonstrar? Pra que tanto medo de se entregar? Se alguĂ©m te machucou, jĂĄ passou, ou pelo menos deveria ter ficado no passado. Larga a mĂŁo disso. Tem tanta gente boa querendo amar. Pessoas nunca sĂŁo iguais, se entrega de uma vez. Se joga de corpo e alma. Amar nĂŁo Ă© problema nĂŁo, indivĂduo. O problema Ă© toda essa era de desapego. Eu nĂŁo sirvo pra isso. Eu sĂł quero amar. Preciso de alguĂ©m que precise de mim. Por quanto tempo ainda terei que peregrinar em busca desse alguĂ©m? Eu entendo que Ă© raro, mas porque nĂŁo vocĂȘ? Ou ele lĂĄ? Porque nĂŁo, todos nĂłs? Meu coração Ă© calejado por buscar em pessoas vazias, mas eu ainda nĂŁo desisti. Quero crer que eu ainda posso ser importante pra alguĂ©m. Quero acreditar que eu mereço ser amada do jeito que eu preciso. E por enquanto, jĂĄ que nĂŁo encontro pessoas, quero me encontrar com minhas lĂĄgrimas. Vou deixa-las livres. Quero dizer, vou me permitir conhecĂȘ-las melhor. Afinal, quem melhor para nos amar, do que nĂłs mesmos?