Coisa mais clichê é fazer balanço de vivências!
A gente fica tentando enfiar o exato goela abaixo do humano.
Coisa estranha essa de contabilizar o que foi bom e o que foi ruim!
Dito bem assim, preciso desse desfecho que evitei por dias.
2020, seu aninho para o qual eu nem acho adjetivo!
Vem aqui, vem? Vamos papear pela vez derradeira?
Eu não posso dizer que te esperava melhor porque faz anos que vivo entre o turbilhão das idas e vindas da minha esperança de que tudo melhore.
Foi por isso, 2020, que não te abracei logo de cara e fiquei ali, quieta. Caladinha, eu vi todos te abraçarem, enquanto eu deixava minha cabeça viajar em incontáveis porquês e praquês. Claro, tinha muita tequila envolvida, mas eu nunca precisei de entorpecente pra virar a chave da reflexão, né? Você, 2020, que me viu chegar ao meu quadragésimo ano de vida, deve saber bem disso.
Eu não te abracei, mas não foi por mal não, tá? Foi por cansaço mesmo. Eu queria querer, mas não deu.
Desculpe, eu ainda não sabia, cara!
Mas não tinha como adivinhar que, no meio de uma pandemia, você me traria respostas tão buscadas. Vamos combinar que nem se eu fosse vidente!
Ah, 2020, seu brincalhão!
Você me esterilizou definitivamente e trouxe meu filho até minha porta dois dias depois?
Você me mostrou o fundo do poço do fim de um amor inviável e me apresentou o cara mais doce, bacana e gentil de todos?
Você me matou de saudade da minha mãezinha e me deu uma nova maravilhosa que eu nem sei se mereço?
Você parou o fígado da minha irmã caçula e deu um novinho bem a tempo de ela renascer?
Você arredondou meu número de sobrinhos e agora sou tia consolidada de dez joias?
Sim, 2020, eu sei. São perguntas. Todas perguntas. Muitas perguntas!
Mas é que eu ainda não te acredito, 2020. E nem sei se te mereço.
Só sei que não te vi passar. Mal senti os seus dias.
Eu te vivi, 2020. E como te vivi!
Sem pausa. Sem pegar um fôlego extra.
E eu, que nem te dei um abraço de boas-vindas, quero te abraçar agora.
Vem cá, menino!
Me dá um abraço!
Imagino que você seja incompreendido por uma maioria avassaladora. Liga não. Quem não gosta de você não entendeu que foram ordens superiores. E que dava, sim, pra evitar tudo de pior que foi. E evitar toda a dor e toda a tragédia.
Quem não te entendeu, 2020, não sacou que você veio todo torto assim pra ensinar algo valioso e que o ser humano já possuía as ferramentas pra evitar todas as perdas.
Sim, 2020, eu acredito que não foi sua culpa. Você só apresentou um problema cuja solução está nas mãos de quem não se importa com o coletivo. Aí não foi erro seu, né?
Psiu, 2020. Toma aqui o abraço que não te dei lá no começo. Amei te conhecer. Sobretudo, amei me conhecer por seu intermédio.
Eu precisava tanto de você, 2020. E nem sabia! Ainda bem que você veio.
Agora vai descansar, vai! Se eu estou exausta, você deve estar ainda mais. Afinal, eu só lidei comigo e uma dezena de mentes. Você lidou com mais de sete bilhões! Cara, que loucura!
Se a galera tiver sido muito má com você, releve. Ainda têm muito que aprender, coitados!
Eu me despeço aqui. Grata e aliviada.
Bem-vindo, 2021.
Chegou leve, né?
Vamos seguir essa tendência, amigo?
Ps: 2020, queria que tivesse dado pra deixar a vovó por mais um tempo, mas ainda me sinto grata por ela não ter permanecido em sofrimento. Descanse em paz, Vovó.



















