“𝙼𝚎𝚖𝚘𝚛𝚢 𝚒𝚜 𝚝𝚑𝚎 𝚍𝚒𝚊𝚛𝚢 𝚝𝚑𝚊𝚝 𝚠𝚎 𝚊𝚕𝚕 𝚌𝚊𝚛𝚛𝚢 𝚊𝚋𝚘𝚞𝚝 𝚠𝚒𝚝𝚑 𝚞𝚜.” | (task #001)
tw: violência doméstica.
Aos sussurros, Agnes disse à Vincent que ele seria enviado para longe por ser um bastardo. Arthur amava apenas Phaedra, e por isso estava garantindo que o pirralho birrento e chorão estaria longe o suficiente para não perturbar a pequenina. Apesar dos sussurros, Arthur ouviu. Apesar de não ser o melhor dos pais, ele amava o seu filho. De uma forma corrompida e pútrida, mas amava. Agnes sorriu maliciosamente ao ver as lágrimas quentes se formarem nos olhinhos azuis do pequeno Vincent, e não percebeu a mão que fora erguida contra ela.
De modo algum a conversa que se seguiu foi afetuosa, mas ao menos Arthur tentou explicar ao primogênito que vovô e vovó, aquelas duas entidades que ele conhecia apenas por nome, estavam o esperando, e que um senhor muito gentil o havia oferecido um quarto. Não houve delongas para explicar ao garotinho que a guerra destruiria Londres, e ele perguntou de Phaedra. Ela estaria segura ali? E ele não? Agnes riu amargamente por entre as lágrimas, jurando que a preocupação da criança era falsa, cheia de cinismo. Como poderia uma criatura como ele se importar? Estava cega de ciúmes.
Na despedida de Vincent, Arthur apenas apertou o ombro do garoto levemente, e deixou que Agnes acompanhasse a criada que o levaria até o trem. A mulher fez questão de que suas últimas palavras fossem levadas com Vincent durante o tempo que esta viagem demorasse: "É melhor que se comporte, Vincent. Os mortos de Thornhill não são tão gentis quanto nós somos, e se vingam dos mortos. Se eles te pegarem, vão te matar. Você sabe como é insolente e chorão, os mortos não gostam de crianças como você." E deu as costas, deixando que a imaginação da criança criasse os monstros da residência. A criada até tentou acalma-lo, mas as lágrimas silenciosas caíram por boa parte da viagem, até que pegou no sono.
Na estação de Yorkshire foi encontrado pelo mordomo dos avós. Henry e Florence não puderam comparecer, e ele foi sozinho com o homem mais velho. Ambos em silêncio, enquanto Vincent observava a estrada vazia e aterrorizante. Foi deixado em frente à grande mansão sem sequer uma palavra de conforto, um aviso de que veria os avós em algum momento... nada. Uma moça logo veio lhe buscar, se apresentando como a babá que tomaria conta dele. Foi levado pelos corredores da mansão, recebendo instruções que ele mal conseguia ouvir. Todo pequeno barulho era motivo para olhar duas vezes e se certificar de que veria uma pessoa viva. Cada sombra entre as passagens dava lugar à imagem de fantasmas prontos para o pegar. Ele não queria chorar, mas os olhinhos marejados e as mãozinhas apertadas em volta da malinha foram vistos como timidez ou receio, e não como uma criança aterrorizada com aquela construção.
Fora levado para um quarto no fundo do corredor e quando a porta se fechou, as paredes pareceram dobrar de altura. Assim como aquela mansão, tudo parecia fazer Vincent se sentir muito pequeno, muito frágil. Deu passinhos rápidos até a cama, soltando a mala no chão e fazendo um barulho muito alto e que o assustou. Se enfiou debaixo dos cobertores, o coração batendo depressa e a respiração rápida. Fechou os olhos bem apertado quando ouviu alguém bater na porta. Uma, duas, três vezes. Eventualmente o barulho parou, e ele começou uma oração silenciosa que aprendera na escola. Não sabia se funcionaria para afastar as criaturas noturna, mas apegou-se à ela, mesmo que em casa aquilo fosse levado como tolice.
Nos primeiros dias, não dizia uma palavra se alguém não o chamasse primeiro. Estava sempre tentando ficar no mesmo espaço que outras crianças, ainda que ficasse em um cantinho, com medo de ser visto como insolente, assim como Agnes dissera. Obedecia todas as ordens dos adultos e das crianças mais velhas e tentava não ser um estorvo, mas durante a noite qualquer um que passasse pelo seu quarto seria capaz de ouvir os soluços silenciosos de Vincent enquanto ele se encolhia debaixo do cobertor.














