A maturidade que afasta...
A maturidade nĂŁo chega fazendo barulho. Ela nĂŁo avisa, nĂŁo pede licença e nĂŁo vem acompanhada de aplausos. Ela se instala aos poucos, quase imperceptĂvel, atĂ© o dia em que vocĂȘ olha ao redor e percebe que hĂĄ menos gente. NĂŁo porque vocĂȘ se tornou inacessĂvel, mas porque deixou de se violentar para caber... Crescer, em algum momento, Ă© aceitar que nem toda ausĂȘncia Ă© perda, algumas sĂŁo consequĂȘncia.
Com o tempo, vocĂȘ aprende a escutar mais o que sente do que o que esperam de vocĂȘ. Aprende a nĂŁo rir de coisas que jĂĄ nĂŁo tĂȘm graça, a nĂŁo fingir interesse onde sĂł existe hĂĄbito, a nĂŁo sustentar vĂnculos que vivem de versĂ”es antigas suas. E isso incomoda. Porque quando vocĂȘ muda, o espelho que vocĂȘ oferecia aos outros tambĂ©m muda. Nem todo mundo suporta se ver com clareza.
A maturidade afasta porque ela exige responsabilidade emocional. Exige presença real, conversa difĂcil, silĂȘncio respeitoso. E muita gente sĂł sabe existir onde hĂĄ caos, impulsividade e promessas vazias. Quando vocĂȘ passa a escolher a paz, automaticamente deixa de ser compatĂvel com quem confunde intensidade com descontrole.
HĂĄ um momento especĂfico, e quase solitĂĄrio, em que vocĂȘ entende que nĂŁo dĂĄ mais para permanecer em mesas onde as conversas giram em cĂrculos, onde o raso Ă© regra e o profundo Ă© desconfortĂĄvel. VocĂȘ nĂŁo se acha melhor. VocĂȘ sĂł sabe demais para fingir menos. E esse saber pesa. Porque amadurecer Ă© carregar consciĂȘncia, nĂŁo superioridade.
VocĂȘ começa a se tornar seletivo. NĂŁo por frieza, mas por preservação. O seu tempo passa a ter valor, o seu silĂȘncio passa a ser sagrado, a sua energia deixa de ser infinita. E isso faz com que algumas pessoas se afastem antes mesmo de vocĂȘ dizer qualquer coisa. Porque quem sĂł se aproxima quando vocĂȘ se anula, nĂŁo sabe lidar com a sua inteireza.
A maturidade tambĂ©m ensina que nem toda distĂąncia precisa ser explicada. Algumas relaçÔes nĂŁo acabam em briga, acabam em incompatibilidade. E isso dĂłi de um jeito silencioso. NĂŁo hĂĄ vilĂ”es, nĂŁo hĂĄ desculpas claras, sĂł caminhos que deixam de caminhar juntos. E aceitar isso Ă© um exercĂcio contĂnuo de desapego e honestidade.
HĂĄ dias em que essa solidĂŁo pesa. Em que vocĂȘ sente falta da leveza de antes, mesmo sabendo que aquela leveza vinha do nĂŁo saber, do nĂŁo sentir tudo, do nĂŁo se posicionar. HĂĄ saudade do que era simples, nĂŁo porque era melhor, mas porque exigia menos consciĂȘncia. SĂł que nĂŁo hĂĄ retorno possĂvel depois que vocĂȘ aprende a se respeitar.
A maturidade afasta, sim. Mas ela tambĂ©m filtra. Ela abre espaço para vĂnculos que nĂŁo precisam de performance, para afetos que nĂŁo exigem prova, para silĂȘncios que nĂŁo sĂŁo abandono. Ela reduz a quantidade para aumentar a verdade. E isso, embora custe caro no começo, sustenta no longo prazo.
No fim, vocĂȘ entende que crescer nĂŁo Ă© ficar sozinha, Ă© parar de se sentir sozinha mesmo estando acompanhada. E quando isso acontece, qualquer afastamento deixa de ser ameaça e passa a ser escolha. Porque a maturidade nĂŁo tira pessoas da sua vida. Ela sĂł impede que fiquem aquelas que nunca souberam ficar de verdade.
imyourhitchhiker/ Valentina S2













