Surma, Ana Lua Caiano e Cassete Pirata: o tridente de destaque nos 10 anos de Suave Fest | Reportagem Completa
A incrível Ana Lua Caiano | foto © Patrícia Marinho Oliveira, Associação Convívio
Este ano o Suave Fest esteve de regresso ao Largo da Misericórdia (e ao Teatro Jordão) em pleno coração de Guimarães após o interregno de um ano. A 9ª edição ocorreu em 2023 numa edição que contou com bandas como Indignu, Ganso, Salto ou MДQUIИД. A reportagem desta edição pode ser recordada aqui (dia 1) e aqui (dia 2).
Agora em 2025 foram comemorados 10 anos. Foi portanto com uma edição bem revelante, a décima. Como habitualmente, teve chancela da Associação Convívio, uma entidade de cariz cultural e recreativa, sem fins lucrativos, fundada em 1961. Tem sido uma agregadora de público através das suas iniciativas, tem dinamizado o setor cultural na Cidade Berço.
Por ser um marco significativo tivemos direto a um pré-aquecimento na quinta-feira, dia 4 de setembro, com o regresso de Surma à cidade e ao Suave Fest. Um concerto-instalação em que a artista de Leiria atuou em formato trio com a ajuda de João Hasselberg na bateria e Pedro Melo Alves no baixo. Já Ângela Bismarck deu um apoio diferenciado com um jogo de luzes bastante acutilante.
Débora Umbelino com Surma em formato trio | foto © Patrícia Marinho Oliveira, Associação Convívio Este evento teve um custo de 8€, já o Suave Fest é de entrada gratuita como é a norma desde o seu início.
A primeira vez de Surma em formato trio foi curiosamente em Guimarães no Westway LAB de 2022. Na altura teve a colaboração de Diogo Alexandre (bateria) e Paulo Bernardino (clarinete). Deste então Débora Umbelino tem progredido com esta configuração e estabilizou com os atuais colaboradores.
No Pátio da Igreja da Misericórdia, mesmo ali a dois passos da sede da Associação Convívio, a performance decorreu num formato intimista e intenso. As várias dezenas de pessoas rodearam o palco onde os três elementos estavam numa configuração de triângulo. Durante 1 hora ouviram-se temas de Surma com uma roupagem diferente daquela que está disponível em disco, é por isso que a experiência ao vivo ganha uma relevância maior e mais imersiva. A experiência, para quem é fã como eu, foi vivida de forma cativante. Da bonita atuação destaco a performance dos temas “Massai” e “Huvasti”.
Débora Umbelino com Surma em formato trio | foto © Patrícia Marinho Oliveira, Associação Convívio
5 de setembro, sexta-feira
Deliciosa, é o adjetivo que utilizo para descrever esta sexta-feira. Após uma semana com um clima intermitente, com chuva pelo meio, foi fantástico poder usufruir de uma noite de concerto com uma temperadora amena numa das cidades mais bonitas do mundo.
Enquanto aguardava pelo início dos concertos, ainda com uma afluência algo tímida de público ouviam-se excelentes temas na instalação sonora. Um dos quais foi "Never Enough" dos Turnstile, o que me fez recuar uns meses e relembrar a excelente atuação da banda norte-americana no Primavera Sound Porto.
João Santos, mais conhecido como Caio, entrou em palco acompanhado pela sua banda às 21:15h. Diogo Sá na guitarra, Bernardo Manteigas no baixo, Hugo Luzio na bateria e Henrique Guerreiro nos sintetizadores foram os músicos que forneceram um suporte bem competente a Caio. Reconheci Diogo e Hugo de outro projeto lusitano que gosto muito, eles fazem parte dos Them Flying Monkeys.
Caio na abertura do Suave | foto © Rui Torres Caio durante a atuação cantou, tocou guitarra e piano. Logo na parte inicial apresentou “Mundo Incerto” um dos seus mais temas marcantes. Pouco depois surgiu “Putos”, um dos mais conhecidos. Antes de a tocar pediu ao pessoal para chegar-se à frente, para a sua beira. Este era um público tímido e não foram muitos os que aceitaram a sua sugestão. Apesar de ser tímido recebeu as canções do artista lisboeta de braços abertos e ouvidos atentos.
Na sequência de João Santos dizer que tinha “só mais duas”, houve alguém do público que gritou “só mais trinta”. O músico soltou um ligeiro riso e esboçou um sorriso largo. Foi então que tocou "Não Me Dou a Ninguém" de forma solta e descomprometida.
"Faltamos às Eleições" e "Ritmo da Procura", duas canções que aprecio imenso, fizeram também parte do alinhamento para meu contentamento. A atuação de Caio foi relativamente curta. Revelou-se efetivamente eficaz numa graciosa introdução à sua discografia. Abertura bem profícua de Suave Fest em 2025.
Diogo Sá, um dos elementos da banda de Caio | foto © Rui Torres Ana Lua Caiano é uma jovem multi-instrumentista bastante dotada e a mais recente coqueluche da música portuguesa, nomeadamente dos últimos dois anos. Tem passado pelos palcos de salas e festivais lusitanos de relevo e tem feito igualmente carreira no estrangeiro com saídas amiúde para diversos países.
A atuação desta One Woman Show foi a que teve mais interessados nesta primeira noite de Suave Fest. A zona frontal ao palco esteve bastante concorrida e a sua performance captou bastante atenção e interesse. Foi vivida pelo público de forma bastante entusiástica.
Este foi mais um meu reencontro com Ana Lua Caiano. O último concerto dela a que tinha assistido foi no Festival Ponte D’Lima em 2024. Foi também um reencontro em Guimarães, tive presente na sua atuação ocorrida no Westway Lab em 2023. Essa foi a primeira vez que a vi ao vivo.
A amorosa Ana Lua Caiano | foto © Rui Torres Primeira nota de relevo vai para a performance de “Manjericão” de Romeu Bairros. A artista adaptou o tema à sua maquinaria com um sortido de belo efeito. Já no regresso às suas canções, em "Ando Em Círculos", deixou de lado toda a sua parafernália e executou o tema num formato acústico só com recurso à sua voz e pandeireta. Teve o generoso apoio vocal do público, este que demonstrou-se afinado e bastante colaborativo.
Antes de "Se Dançar é Só Depois" explicou o trabalho que faz com a Loop Station e o sintetizador. Um sintetizador, a Loop Station e o bombo são a tríade sagrada de ferramentas aos quais funde a sua voz. Utiliza ainda piano e adufe como instrumentos complementares. Fez uma demonstração e explicou como cria os seus temas que são construídos por várias camadas e que começam normalmente pela Loop Station na qual cria a base rítmica.
Talento nacional chamado Ana Lua Caiano | foto © Rui Torres Em "Vou Ficar Neste Quadrado" revelou ser uma composição especial por ter sido a primeira que fez para o seu disco de estreia, é este o tema que dá o nome a esse registo discográfico.
Antes do encerramento com “Mão na Mão”, ouvmos ainda "Adormeço Sem Dizer Para Onde Vou" e "O Bicho Anda Por Aí". A jovem Ana Lua Caiano com a sua alegria contagiante e sua simplicidade conquistou uma audiência conhecedora da sua discografia. Deu para notar várias pessoas cantarolando as suas canções.
Foram cerca de 45 minutos de concerto bastante agradáveis nos quais viajamos pelas suas canções nas quais funde música tradicional portuguesa com sons eletrónicos. A artista teve também imenso sucesso com a venda de merchandising, especialmente vinis.
Perspetivas de Ana Lua Caiano | foto © Patrícia Marinho Oliveira, Associação Convívio Os Sunflowers surgiram no Suave Fest, em modo bombeiro, mesmo de última hora, pela impossibilidade da presença dos Bed Legs.
Antes de ficar tudo prontinho em palco as escolhas musicais primaram pela excelência. Deu para escutar temas como “PUNK TACTICS” dos Joey Valence & Brae ou “Intergalactic” dos Beastie Boys numa espécie de confronto intergeracional.
Vi a banda portuense há menos de um mês (à data deste concerto) no Sonic Blast e creio que nunca os tinha vivo duas vezes ao vivo com separação temporal tão curta. Estas suas performances foram bem distintas, o que se pode dizer de semelhante é que ambas foram bastante entretidas.
Por termo de comparação há a registar uma menor afluência a esta última atuação da noite comparativamente à de Ana Lua Caiano.
Carolina Brandão, uma baterista expressiva e imperiosa ao centro. Carlos de Jesus, borbulhante na guitarra e na voz. Frederico Ferreira, estiloso (um bocadinho menos do que no Sonic Blast) e impecável a manejar o baixo. Um trio admirável cujos temas entram bem no ouvido.
Trio portuense Sunflowers | foto © Patrícia Marinho Oliveira, Associação Convívio O fio condutor do som dos Sunflowers é alicerçado pela voz e guitarra de Carlos com a sua distorção em constante dinâmica. A bateria de Carolina marca o passo e o baixo de Fred reveste o som com uma profundidade solene.
“Chameleon Kid”, o single editado no passado mês de agosto, foi devidamente tocado. Este é o primeiro tema conhecido do próximo álbum cujo título está já devidamente escolhido: ‘You Have Fallen… Congratulations!’. Terá uma repercussão superior ao habitual já que este trabalho discográfico será apadrinhado pela Fuzz Club, uma editora de alcance mundial.
Final épico em ritmo de alarme sonoro como quem estava a pedir que todos se juntassem à jarda punk-rock/garage para um abraço coletivo de despedida.
Volto a repetir o que já escrevi: os Sunflowers são força viva do punk rock à moda do Porto.
A noite de estreia do Suave Fest proporcionou três momentos divergentes com três atuações seguras e proporcionadas com qualidade de nível elevado. Uma noite calorosa (no seu sentido figurativo) quanto baste no Largo da Misericórdia a fazer jus aos dez anos do evento.
Carlos de Jesus dos Sunflowers | foto © Patrícia Marinho Oliveira, Associação Convívio
6 de setembro, sábado
O distrito de Braga foi colocado sob aviso amarelo devido à previsão de chuva forte desde as 21 horas deste sábado 6 de setembro pelo que a organização do Suave Fest tomou a decisão lógica de mudança do evento para um recinto fechado, para as Salas de Ensaio do Teatro Jordão. Imagino eu que essa alteração já devia estar devidamente acautelada atempadamente tendo em conta a logística inerente.
No primeiro concerto da noite tivemos um palco repleto de talentos nacionais. A banda de abertura desta segunda jornada foram os Cassete Pirata. Eles são o João Firmino na voz e guitarra, João Pinheiro na bateria que atuou em tronco nu, António Quintino no baixo, Joana Espadinha nos teclados/voz e finalmente, Margarida Campelo nos teclados/voz. Entraram às 22:02 horas.
Pir, o vocalista dos Cassete Pirata | foto © Rui Torres Tal como no mês passado no Vodafone Paredes de Coura, os fãs dos Cassete Pirata disseram sim a mais um concerto da banda lisboeta e compareceram em bom número. Este foi o concerto com o público mais jovem comparativamente a todos os restantes, foi também o que teve mais público no contexto geral deste Suave Fest em 2025.
Firmino afirmou que a banda fará 10 anos em 2016 pelo que, para eles, foi muito bom entrar para a história dos 10 anos do Suave Fest. As histórias de ambos já se cruzam, tendo feito o desejo de repetir a passagem por este festival vimaranense.
Margarida Campelo e Joana Espadinha | foto © Rui Torres A faixa "Ferro e Brasa”, a quinta do alinhamento, marcou o primeiro momento visivelmente mais fervoroso. Teve direito a um final bem efusivo estendido às faixas seguintes: em “Pó no Pé” houve corosem sintonia com Firmino e em "Próxima Viagem" sentiu-se uma excelente vibe.
“Só mais uma hora" foi celebrada com passos dançantes e letras na ponta da língua. “Ser Diferente” e Outra Vez foram os temas finais de um alinhamento bem construído e mostrado durante 1 hora de atuação.
As Salas de Ensaio do Teatro Jordão registaram o ponto alto da adesão de público durante os Cassete Pirata. A performance deles foi fantástica alicerçada por muitos fãs na plateia e sem margem para dúvidas foi a melhor atuação deste sábado.
A belíssima formação Cassete Pirata | foto © Rui Torres Às 23:37 horas, depois de uma longa transição, surgiram os Quadra. Eles que são um sexteto com Sérgio Alves (baixo), Hugo Couto (bateria), Sílvio Ren (guitarra), Lucas Palmeira (sintetizadores) e Miguel Santos (voz). O sexto elemento, como habitualmente, não foi Gonçalo Carneiro. Estava ao serviço da outra banda que faz parte, os Travo, em digressão pela Europa. O guitarrista de serviço foi Zé João Viana e que realizou a sua segunda performance.
A plateia ficou um bocadinho menos composta sem alguns dos fãs dos Cassete Pirata e com algumas pessoas no “lounge” na parte de fora em amenas cavaqueiras. A demorada transição não foi benéfica.
Atuação imensamente enérgica de toda a banda, como é apanágio destes bracarenses, com Sérgio Alves e o Lucas Palmeira a serem os mais desenvoltos no acompanhamento a Miguel Santos.
Sérgio Alves, o baixista dos Quadra | foto © Rui Torres Durante 45 minutos tocaram alguns dos temas mais recentes incluídos em “O Lado Mau”, editado em novembro de 2024. Um dos quais foi a versão de “Paixão” dos Heróis do Mar. No referido disco está incluída uma bonita versão em registo electropop e que foi devidamente apresentada.
O público dançou e balanceou, algo que é impossível não acontecer com os temas dos Quadra. Uma atuação de muito boa onda e realizada pela banda de forma bastante descontraída. Para fecho de festa dançável com os sons da banda de Braga foi tocado o tema “Tropicália”.
Miguel, o vocalista dos Quadra | foto © Patrícia Marinho Oliveira, Associação Convívio Pela primeira vez assisti a uma atuação dos Black Bombaim, trio composto por Paulo Gonçalves (bateria), Ricardo Miranda (guitarra), Tojo Rodrigues (baixo). A oscilação psicadélica desta banda oriunda de Barcelos não é para todos, por isso foi uma atuação assistida sobretudo por melómanos e conhecedores deste projeto. Algumas pessoas ainda foram resistindo tendo ficado algum tempo a assistir. A atuação teve o seu debute às 0:50h, quarenta minutos depois da hora marcada, e finalizou à 1:33h.
Os músicos não tiveram focos a ilumina-los. Não existiu um jogo de luzes festivo. Foi pensado um esquema para criar algum misticismo em que as luzes de fundo estiveram num formato fixo. Sobretudo com recurso a tonalidades encarnadas e alaranjadas.
Paulo Gonçalves na bateria dos Black Bombaim | foto © Rui Torres O som dos Black Bombaim é poderoso e estridente. O stoner rock reveste-se com outras diversas camadas sonoras e o ritmo que estes três músicos impõem a si mesmos durante a performance, de início a fim quase sem paragens, faz com que esta seja uma experiência deveras penetrante.
A 10ª edição do Suave Fest foi um sucesso e digna do alcance deste 10 anos de atividade. Mais uma vez a Associação Convívio em parceria com o Município de Guimarães proporcionaram um evento com bandas e artistas de música alternativa de qualidade deveras insuspeita. A cidade precisa de ter mais eventos com este cariz musical alternativo de forma a confirmar a sua pluralidade cultural. Além do público local há também que venha de fora do concelho de Guimarães, tal aconteceu também nesta edição do Suave Fest. Isso é algo que acontece amiúde neste tipo de eventos e, como óbvio, é algo bastante positivo para a cidade.
Perspetivas dos Black Bombaim | foto © Patrícia Marinho Oliveira, Associação Convívio
Agradecimentos finais
à equipa da Associação Convívio pela disponibilização das fotos oficial em particular à Mafalda Torrinha pela amabilidade e toda a atenção. Igualmente um obrigado à Patrícia Marinho Oliveira pelo excelente registo desta edição tão marcante de Suave Fest.
ao Rui Torres pela disponibilização das fotos utilizadas nesta reportagem cujo trabalho podem acompanhar no Instagram em cadernetamusical_
O guitarrista dos Quadra em Guimarães: Zé João Viana | foto © Rui Torres
Texto: Edgar Silva
Fotografia: Patrícia Marinho Oliveira | Fotos Oficiais @ patricia__oliveira (Instagram) Fotografia: Rui Torres @ cadernetamusical_ (Instagram)












