Alexei não se lembrava de muita coisa e aquela era a sensação que ele mais detestava. A dor de cabeça somada com o corpo dolorido não era nada perto de estar perdido dentro das próprias memórias. A noite passada era um simples borrão a partir de certo ponto e ele sequer se lembrava como havia se machucado daquela forma, a única coisa que sabia era que agora havia acordado em um lugar completamente diferente do que estava antes. Alexei se levantou devagar, sentando-se, uma das mãos na lateral da cabeça enquanto uma pequena dor ressonava por dentro dela. — Que… merda. — Foi o que disse baixinho enquanto fechava os olhos com força. Ele geralmente não xingava e até se estressava com a boca suja dos amigos que pertenciam a nova geração de heróis, mas aquele momento pediu por um pequeno xingamento, já que a dor que sentia era enorme.
Alexei permaneceu alguns segundos daquela maneira, mas teve de abrir os olhos e levantar a cabeça quando escutou passos. O loiro analisou a situação rapidamente, ele não poderia ter sido sequestrado ou teria acordado amarrado, então a pessoa que havia lhe resgatado era aliada. Quando o homem desconhecido adentrou no local, Alexei focou os olhos nele, ignorando um pouco do incômodo. O silêncio prevaleceu pela parte do herói e este apenas prestou atenção no que o desconhecido tinha a dizer. Um sorriso surgiu no rosto de Alexei quando o estranho terminou seu pronunciamento e ele acenou com a cabeça. — Não posso garantir que não vou vomitar, honestamente falando. Eu posso vomitar para o outro lado, no entanto. — Ele respondeu, mesmo que sorrindo. Sabia que uma concussão podia resultar sim em vômito, mas provavelmente ele sabia daquilo. Sua expressão voltou ao normal enquanto ele soltava um suspiro. — Você me examinou? Eu bati a cabeça, certo? Não me lembro de muita coisa.
se Jack estava tendo um mini ataque de pânico? sim. ele definitivamente estava. mas tendo vivido praticamente toda sua vida “humana” com esse tipo de coisa, ele simplesmente se virou. não podia deixar que o próprio nervosismo interferisse nos cuidados ao desconhecido - um desconhecido. na sua casa. na sua maldita casa - um desconhecido. aquilo se repetia várias e várias vezes em sua própria cabeça, e toda vez que se pegava pensando aquilo novamente, ele suspirava um baixo “idiota” para si mesmo. se as coisas ficassem repentinamente amargas quando o homem acordasse, Jack tinha suas maneiras de se virar; mais frequentemente que não, era subestimado por conta de sua aparência frágil. e isso, noventa e nove porcento das vezes, acabava mal para a outra pessoa. era isso que o fazia se acalmar um pouco - o fato de saber que ainda era capaz de se defender.
uma sopa cozinhava lentamente no fogão; algo leve, para que o estômago do tal homem não se voltasse contra ele depois de comer. já faziam algumas boas horas que ele estava inconsciente em seu quarto - e as orelhas atentas não deixaram escapar o som das cobertas se remexendo, a lebre tendo deixado a porta para o quarto semi-aberta com este exato propósito em mente. respirou fundo, contando até dez, ao que pegou alguns remédios de uma caixinha que repousava aberta na pia da cozinha, levando-os até o quarto com um copo d’água ocupando a outra mão. o ombro empurrou delicadamente a porta, que rangiu em protesto, e Jack enfim adentrou o quarto.
percebeu que os olhos alheios se fixaram instantaneamente em si - ainda um pouco desnorteados, mas que demonstravam certa confiança que Jack não exatamente esperava logo de cara. um mínimo sorriso simpático se desenhou nos lábios rosados, e ele se dirigiu até o rapaz. ❛ eu vou ficar por aqui e bancar a enfermeira, então, não vomite em mim. ❜ as primeiras palavras que escolheu para se dirigir ao outro surpreenderam até a si mesmo; mas felizmente, a reação alheia fora positiva, ao que viu o loiro sorrir. o ruivo ajoelhou-se ao lado da cama, sobre uma almofada que já previamente repousava naquele canto - indicando que não era a primeira vez que Jack passou um bom tempo ali - e ele examinou um pouco a expressão do homem, antes de estender os remédios que se encontravam sobre a palma aberta da mão esquerda, e o copo de água em seguida.
❛ analgésico e antipirético. e... tem um remédio pra enjoo também, se quiser. pode não fazer efeito a tempo, então... eu agradeceria. apesar de que limpar o colchão não seria... fácil. ❜ e o sorriso se estendeu um pouco, acompanhado de um curto riso, antes de desaparecer. ele olhou para as bandagens que jaziam no pequeno móvel ao lado da cama, direcionando os olhos claros para as mãos do outro em seguida; havia desinfetado e enfaixado os nós de seus dedos, que estavam relativamente ralados (assumiu que aquilo era resultado de algum tipo de briga), e alguns outros lugares que também estavam machucados. talvez já fosse hora de trocar as bandagens e limpar as feridas mais abertas novamente. ❛ ah... sim. desculpe se for um pouco intrusivo. tinha uma ferida aberta atrás da sua cabeça, mas... achei melhor deixar descoberto. você estava suando um pouco, então... a bandagem ficaria úmida demais. ❜