Deve fazer uns dez anos desde aúltima vez que vi um capítulo de Malhação. Não acompanho mais, não faço ideia do que está acontecendo na história. Mas hoje comecei a ver gente comentando desenvolvimentos recentes, e fui correr atrás. O que descobri me deixou horrorizada: um personagem sequestrou a ex-namorada, colocando-a amordaçada num saco, se debatendo, para convencê-la a voltar com ele. Fui tentar saber mais, e a situação só piora: o cara em questão “roubava” beijos da garota antes deles começarem a namorar, e só começou a se relacionar com ela porque foi pago pela irmã dela para isso; ele insistia em sexo, quando ela estava apreensiva; e, quando ela descobre a armação original e decide sair da situação, a reação dele é sequestra-la. O pior? É o casal mais querido do público, e os sites oficiais da emissora divulgam esta parte do enredo como “romance”, como uma “vitória” do cara, como se a garota fosse “esquentadinha” e só “precisasse se acalmar”.
O problema maior é que isso não é só em Malhação. A situação dos últimos dias é só mais um exemplo de como mídias feitas para adolescentes romantizam abuso. Porque, sejamos claras, isso é abuso. Não interessa se a razão é “por amor”: sequestro é sequestro, abuso é abuso. Um relacionamento saudável envolve, principalmente, respeito; envolve pessoas que se comunicam e não insistem quando ouvem “não”, que ouvem e acatam os limites do outro.
Só que, quando passamos a vida ouvindo que esse tipo de comportamento é romântico, começamos a acreditar. Afinal, se repetem uma coisa vezes o suficiente, a gente acredita. Se as séries perdoam abuso porque é “por amor”, se os livros têm heróis dramáticos que perseguem o objeto de sua afeição e esperam que elas achem fofo, se os filmes mostram histórias “de amor” em que na maior parte do tempo os personagens choram e brigam e se ameaçam, começamos a entender que é assim que relacionamentos funcionam, que esse é o modelo de romance ao qual devemos almejar.
Quanto mais representações nocivas de romance tivermos – especialmente em mídias feitas para garotas adolescentes – mais acreditaremos que abuso é amor. Quanto mais ouvirmos que o sequestrador o fez porque a garota precisava “ouvir a voz da razão”, mais modelos teremos para perdoar pessoas que nos abusarem. Afinal, se você se envolve com uma pessoa, ela te trata mal, mas o casal que você vê todos os dias na TV passa pelo mesmo e dá tudo certo, por que não daria certo para vocês também?
Lembrem sempre que abuso não é amor. Por mais que a pessoa com quem você está envolvida argumente que fez algo que te fez mal “com boas intenções” (essas intenções sendo em geral inteiramente egoístas), você não merece estar com alguém que te faz mal. Da mesma forma que Karina, de Malhação, merece um relacionamento seguro com alguém que a apoie e a respeite.