Manuscritos de Alexandria 2: Sofia Soft
Google Future
 Minha amiga é programadora. Ela trabalha na Google, na equipe que está desenvolvendo o Google Future. É um projeto se, cre, to, é claro.
Minha amiga só veio falar comigo porque aconteceu uma coisa muito estranha.
Faz dez anos que os programadores desse projeto se, cre, to tentam incluir no buscador da Google uma ferramenta nova.
Quando a gente faz uma pesquisa, na barra de ferramentas a gente pode escolher uma data, certo?
As opções são: em qualquer data, na última hora, nas últimas vinte e quatro horas, na última semana, no último mês, no último ano ou num intervalo personalizado.
Mas agora a equipe da minha amiga está programando o Google pra pesquisar também no futuro.
Eles estão programando o buscador pra pesquisar na próxima hora, nas próximas vinte e quatro horas, na próxima semana, no próximo mês, no próximo ano ou num intervalo futuro personalizado.
Caralhobuceta!
Estão entendendo? No futuro, porra!
É claro que já pesquisaram quem vencerá as próximas eleições. É claro que já pesquisaram o resultado das próximas mega-senas. É claro que já pesquisaram quem vencerá as próximas Copas do Mundo. É claro que já pesquisaram quando acontecerá o primeiro contato com uma civilização alienÃgena.
É claro que já pesquisaram quem morrerá primeiro.
Bucetacaralho!
Estão entendendo?
Foi a primeira coisa que pesquisaram: o dia da morte de cada um.
O diretor desse projeto se, cre, to, o coitado se fodeu. Minha amiga contou que ele morrerá em dois meses, de AVC. É o que revelou a pesquisa. O cara só tem vinte e sete anos…
Shit.
Agora vem a melhor parte.
Estão preparados?
Minha amiga me contou que a equipe inteira varou a madrugada pesquisando a morte de todo o mundo. Até que pesquisaram a minha…
Nada.
Não encontraram nada.
Fizeram mais café, engoliram mais anfetamina e passaram mais dois dias e duas noites sem dormir. Mesmo assim não encontraram nada.
Metade do grupo se, cre, to tem certeza de que a ferramenta está dando pau. A outra metade está convencida de que eu simplesmente não vou morrer.
Caburacelhota!
Estão entendendo?
É, gente…
I, mor, tal…
Por isso minha amiga veio falar comigo. Estão todos chapados e escandalizados. É compreensÃvel. O conceito de imortalidade não é algo fácil de assimilar.
Minha amiga, meio sem jeito, perguntou se eu ainda gosto de Kafka. Eu respondi que simplesmente amo Kafka.
Ela perguntou se eu ainda gosto de A metamorfose. Eu respondi que esse ainda é meu livro pre, di, le, to.
Ela suspirou e segurou minha mão. E disse que, pesquisando mais um pouco a meu respeito, encontrou em meu futuro a confirmação de meu grande amor por Kafka.
Ela disse que certa manhã eu acordarei de sonhos intranquilos, metamorfoseada num inseto monstruoso.
 Shit.
 Sofia Soft nasceu no dia 17 de maio de 1990, o mesmo dia em que a assembleia geral da Organização Mundial de Saúde retirou a homossexualidade da sua lista de doenças mentais. O local exato de seu nascimento ainda é controverso. Seu pai assegura que foi na provÃncia asteca de Agzceaziguls, sua mãe garante que foi na caribenha Ilha de Cacklogallinia, mas a própria Sofia afirma que foi na imprecisa Cidade dos Abençoados. Seu principal trabalho até agora é a colagem teatral Teoria do caos, ainda inédita.


















