Crítica: Estreia de escritora de ‘Garota Exemplar’ aborda automutilação
Por Reinaldo Barbosa
Não é preciso ir muito longe para conhecer um adolescente que se automutila com o intuito de amenizar um sofrimento psicológico. Basta ligar o computador, abrir o navegador, ir à página de pesquisa do Google e procurar por grupos com jovens que, desde cedo, faziam pequenos cortes em seus corpos — até chegar a feridas mais profundas e corriqueiras.
O corte, como forma de alivio para a dor sentimental, era um dos passatempos preferidos de Camille Preaker — personagem central do livro Objetos Cortantes, escrito pela jornalista Gillian Flynn, traduzido para o português por Alexandre Martins e publicado no Brasil pela Intrínseca no ano de 2015.
Camille, uma repórter de um jornal sem fama da cidade de Chicago, é enviada para sua cidade natal, Wind Gap, no Missouri, para investigar a morte de uma adolescente e o desaparecimento de uma outra. A intuição de seu editor, Frank Curry, lhe diz que a cidade está sob a mira de um assassino em série, então, ele ordena que Camille vá até lá e lhe traga uma matéria (visando, claro, ter um material exclusivo e aumentar consideravelmente o número de leitores de seu jornal. O Daily Post).
Wind Gap é uma cidade com péssimas lembranças para Camille. Lugar onde fora criada por sua mãe, Adora, e onde viu sua irmã mais nova morrer. O relacionamento da jornalista com a mãe não é dos melhores e, por isso, sua estadia na casa onde crescera não seria das mais prazerosas. E foi nessa cidade, também, que os cortes começaram. Camille gravara palavras, por todo o seu corpo, tornando quase impossível encontrar um espaço vazio quando estava sem roupas.
O livro nos traz uma narrativa interessante, porém não possui a dinâmica de Garota Exemplar — outra obra de Flynn, acolhida pela crítica e adaptada para o cinema. — Contudo, a autora demonstra inteligência para conduzir o rumo das investigações jornalísticas de Camille, pela cidade de Wind Gap, traçando o perfil do assassino e, constantemente, sentindo o peso de cada palavra riscada em seu corpo.
Em seus dezessete capítulos, o livro de Flynn aborda assuntos como: relacionamentos conturbados na família e com amigos; problemas com álcool e drogas; além de nos mostrar que a adolescência pode ser uma fase cruel. A busca pela identidade do assassino quase fica em segundo plano aos olhos do leitor, diante de tantos conflitos narrados em cada página. Mas a identidade do autor dos crimes, e suas motivações, é a agulha que costura e marca toda a história.















